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Julgamento de PMs do caso Gritzbach começa com depoimento de sobrevivente de atentado no aeroporto

'Vi o corpo dele caído e a fumaça levantando', contou a primeira testemunha da acusação a depor na Vara do Júri de Guarulhos; PMs acusados alegam inocência

22 jun 2026 - 11h44
(atualizado às 13h46)
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O julgamento dos três policiais militares acusados de matar o empresário Antônio Vinicius Gritzbach, o delator do Primeiro Comando da Capital (PCC), começou nesta segunda-feira, às 10 horas, na Vara do Júri de Guarulhos. Os três agentes suspeitos de envolvimento no crime afirmam que são inocentes (leia mais abaixo).

Após a escolha dos sete jurados - quatro homens e três mulheres - o tribunal passou a ouvir a primeira das nove testemunhas arroladas pela acusação: o funcionário do aeroporto Willian Souza Santos, de 41 anos, que foi baleado no atentado. "Vi o corpo dele (Gritzbach) caído e a fumaça levantando", afirmou.

O depoimento de Willian foi rápido. Durou menos de 30 minutos. Ele disse que nunca havia passado por essa situação antes - uma bala perdida acertou três de seus dedos. O atentado mudou a sua vida. Ele chegou a deixar o emprego, onde trabalhava havia sete anos, cinco meses depois do crime e só retornou. Relatou ainda aos jurados o pânico que se seguiu aos disparos.

Logo depois, começou o depoimento da outra sobrevivente do crime, a gerente de TI Samara Lima de Oliveira, de 30 anos. Ela disse que foi atingida de raspão na barriga enquanto caminhava para pegar um carro de aplicativo após voltar de Salvador. "Achei até que eram fogos de artifício, que estava tendo um jogo ou algo assim", disse.

"Senti um choque na barriga, dei uma paralisada e corri para atrás de uma coluna", acrescentou. Como o ferimento foi superficial, ela foi atendida na enfermaria do aeroporto e liberada logo em seguida. Seu depoimento terminou às 11h15.

Gritzbach foi assassinado com oito tiros de fuzil em 8 de novembro de 2024, na área de desembarque do Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo. Os tiros disparados pelos assassinos, que desceram de um Gol preto para emboscar a vítima mataram ainda o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 42 anos.

A agente de saúde Simone Dionízio Fernandes Novais, viúva do motorista de aplicativo, foi a terceira a ser ouvida. "Perdi meu companheiro de vida, a pessoa que estava do meu lado, que segurava as pontas e fazia tudo por nós", disse.

Ela relatou que teve de entregar o carro que o marido usava para trabalhar depois de não conseguir mais pagar as parcelas. Disse ainda que está afastada do trabalho, tentando reorganizar a vida. "Ele era um pai muito dedicado, não deixava faltar nada."

Familiares de Celso compareceram em peso no julgamento. "Eu quero Justiça. Não só para o Vinícius, mas o meu filho Celso precisa de Justiça. E isso significa a condenação dos réus. Meu filho estava trabalhando e era pai de três filhos", afirmou Aparecida Camila de Araújo, mãe de Celso, pouco antes do início. Ela veio de Brasília para acompanhar.

Além de familiares das vítimas, jornalistas ocupavam o plenário da Vara do Júri. À esquerda estavam sentados os advogados dos réus, que chegaram ao tribunal reafirmando que os três PMs são inocentes. A defesa tentará convencer os jurados que eles foram vítimas de uma armação da Polícia Civil, responsável pela investigação com o objetivo de encobrir os verdadeiros assassinos.

Perícia entra no foco nas discussões

O perito Leandro Lopes, responsável pelo exame do local, foi a quarta testemunha ouvida. Ele descreveu que a perícia conseguiu encontrar marcas de disparos dentro do aeroporto que percorreram 81 metros dentro da área de desembarque, antes de atingir a parede da área a 1,7 metro de altura.

"Alguém que estivesse desembarcando naquela hora podia ter levado um balaço na cabeça", disse ao promotor Rodrigo Merli. Ao todo, o perito contou 21 tiros disparados com fuzil calibre 7,62 mm e seis tiros com fuzil calibre 5,56 mm disparados no local do crime pelos assassinos.

Em seguida, o perito passou a descrever como foi feito a coleta de DNA dentro do Gol usado pelos bandidos, mesmo que os assassinos estivessem com luvas. "Optamos por dar preferência para buscar o DNA dentro do carro", contou o perito. Foi esse exame que localizou DNA do soldado Ruas e do cabo Denis.

O perito afirmou que procurou material genético no volante, no câmbio e nas maçanetas. Descreveu em seguida todo o procedimento para evitar a contaminação das amostras e como foi garantida a cadeia de custódia das provas - são justamente esses dois pontos que a defesa dos PMs procura atacar para causar uma dúvida razoável na cabeça dos jurados que possa levar à absolvição dos três réus.

O julgamento começou nesta segunda-feira,22, no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo.
O julgamento começou nesta segunda-feira,22, no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo.
Foto: Marcelo Godoy/Estadão / Estadão

O depoimento do perito provocou o primeiro bate-boca entre defesa e a acusação. É que o perito refutou de forma contundente as afirmações feitas por um parecer apresentado pela defesa. Entre as questões que a defesa discutia era o fato de a perícia ter identificado material genético dos policiais sem que tivesse encontrado digitais.

"É um erro crasso essa afirmação. Pois é possivel haver digital sem ter material genético, bem como também é possivel encontrar DNA sem achar impressão digital", afirmou o perito. Segundo ele, a superfície da maçaneta do carro era porosa e por isso era difícil achar ali impressão digital.

O perito também negou haver qualquer contamimação do material analisado pelos peritos que invalidasse a pericia. A defesa tentou impugnar o depoimento do perito, mas o pedido foi negado pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo.

O plano da Vara do Júri era ouvir ainda hoje as nove testemunhas arroladas pela acusação, entre elas a delegada Luciana Peixoto, que presidiu o inquérito do caso, feito pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil.

A sessão do júri começou com a escolha do conselho de sentença. Era dez horas quando os 21 jurados pré-escolhidos se apresentaram com suas malas. A expectativa é de que o julgamento termine somente na sexta-feira, 26. Os defensores dos réus recusaram sete dos jurados que foram sorteados, enquanto a acusação usou o direito de rejeitar um dos sorteados. Logo em seguida à escolha dos sete jurados, a primeira testemunha foi chamada a depor.

"Hoje vamos desmascarar essa hipótese da acusação e mostrar que havia a banda podre da Polícia Civil extorquindo o Gritzbach e que tinha o interesse e motivação para dar cabo da vida dele", disse o advogado Claudio Dalledone Júnior, que defende o soldado Ruan Silva Rodrigues, de 33 anos, um dos dois policiais acusados de disparar com fuzis contra as vítimas.

Ao Estadão, o advogado já havia indicado que os três PMs negam envolvimento no caso. Segundo ele, as investigações não alcançam elementos de prova para incriminar os policiais, e a defesa pretende demonstrar isso em plenário. "É um julgamento que promete", disse.

Além Rodrigues, são acusados os cabo Denis Antonio Martins, de 41 anos, e o tenente Fernando Genauro da Silva, de 35 anos. Denis é acusado de ser o outro atirador, enquanto o tenente seria o homem que dirigia o Gol e deu fuga aos assassinos.

Segundo a acusação, eles foram pagos com criptomoedas pelo crime - o PCC oferecia recompensa de R$ 3 milhões para quem matasse Gritzbach, que prometia revelar em seu acordo de delação premiada os esquemas de lavagem de dinheiro do tráfico internacional de drogas em São Paulo.

A promotoria pede a condenação dos policiais por homicídio quadruplamente qualificado e ainda pelo assassinato do motorista de aplicativa, e pelas tentativas de homicídio de Wilson e de Samara.

Estadão
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