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Jornalista Cecilia Thompson morre aos 82 anos em São Paulo

Ela trabalhou no 'Estado' entre 1975 e 2008, foi tradutora, repórter e esteve à frente, nos últimos anos, das colunas 'São Paulo Reclama' e 'Seus Direitos'

18 abr 2019
15h53
atualizado às 17h38
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A jornalista Cecilia Thompson morreu no início da manhã desta quinta-feira, 18, aos 82 anos. Ela trabalhou no Estado entre 1975 e 2008 e nos últimos anos esteve à frente de colunas como "São Paulo Reclama" e "Seus Direitos".

Cecilia foi casada com o ator Gianfrancesco Guarnieri (de 1958 a 1965), que conheceu no Teatro Arena. Com ele teve os filhos Flávio (que morreu em 2016) e Paulo Guarnieri, também atores.

Além de jornalista, ela foi escritora, tradutora e atriz. Participou, além do Arena, também do teatro Oficina. Com Guarnieri participou do filme O Grande Momento, de 1958. Militante de esquerda durante a ditadura militar, chegou a ser presa e torturada. Nesta quinta, morreu em decorrência de mielodisplasia, uma doença no sangue que provoca anemia.

Para Cecilia, o jornalismo era a "melhor profissão do mundo", como gostava de dizer aos "focas" - como são chamados os novatos no jargão da área - no Curso Estado de Jornalismo. Ela também sempre deixava uma mensagem importante para eles: "Não se esqueçam de se indignar aos menos uma vez por dia", citando o jornalista Cláudio Abramo.

O repórter especial do Estado José Maria Mayrink, contemporâneo de Cecilia desde o início da carreira - ele entrou no jornal em 77 e ela, em 75 -, afirma que ela teve duas paixões na sua vida: Gianfrancesco Guarnieri e o Estadão. "Eles se separaram, ele teve outra família, mas ela teve uma paixão por ele até morrer", conta.

Mayrink entrou no jornal como editor de internacional, sendo, portanto, chefe de Cecilia. "Ela era uma excelente tradutora. Conhecia muito de História, entrava no espírito do texto e o adaptava", afirma.

As habilidades como tradutora também foram destacadas pela jornalista Márcia Glogowski, ex-editora de Cidades do Estado. As duas trabalharam juntas entre 1976 e 2006 e continuaram amigas desde então. "Ela não fazia uma mera tradução, mas um texto novo em português que queria dizer a mesma coisa que o texto original", diz.

Roberto Gazzi, que também foi editor de Cidades e editor executivo do Estado, lembra que o projeto da coluna São Paulo Reclama, que Cecilia concebeu do zero, era conduzido por ela com dedicação. "Era como se fosse um filho dela. Ela cuidava com muita energia. E dali sugiram várias denúncias, a coluna gerou várias pautas que viraram matéria no jornal".

"Ela estava sempre presente, sempre ajudava todo mundo e sempre, com muita paixão, acompanhava as notícias. Nos grandes momentos, era sempre uma das primeiras a aparecer", complementa.

Para Gazzi, "Cecilia foi uma das maiores alegrias da redação" e uma grande contadora de histórias. Grace Cruz, que foi pauteira de Cidades, define de um modo ainda mais amplo: "Ela sempre soube tudo".

O jornalista Jotabê Medeiros, que foi colega de Cecília no Estado, contou em sua página no Facebook que, quando ela deixou o jornal, em 2008, ele pensou: "Um personagem desse tamanho, Jesus, não pode... Algo tem que ser feito". Ele, então, resolveu escrever um texto sobre o último dia dela na redação e perguntou se ela podia ler antes de ele publicar. "Depois que enviei o texto pronto a ela, Cecília ficou sem ação por um tempo. Entreguei a Deus: 'Se ela não quer... Adeus, texto!'", ele recorda. "Pouco depois, ela me ligou: 'Publique-se!', sentenciou."

Jotabê compartilhou nesta quinta o texto que publicou naquele 12 de setembro de 2008. "Muitos crêem que Cecilia inventa a maioria das histórias que conta, inclusive eu. Sou sincero: é muito protagonismo para ser tudo verdade", começava ele.

"Mas um dia eu caí do cavalo: ela me contou que tinha dado uma canção para Jorge Mautner, Sapo Cururu, e eu duvidei. Um dia, fui cobrir um show de Mautner no CEU Cidade AE Carvalho, durante a Virada Cultural, e ele tocou Sapo Cururu. Quando terminou, Jorge disse: 'Essa música quem me apresentou foi a Cecilia G. em 1959'", contou.

No texto, Jotabê lembrava grandes acontecimentos da história do País e do próprio jornal que Cecilia testemunhou: "Estava no jornal no dia da mudança da Rua Major Quedinho para o bairro do Limão. Estava na redação quando saiu o famigerado Pacote de Abril do ditador Geisel. Trinta e quatro anos. É uma vida inteira."

O escritor lembra também que ela iniciou sua carreira no jornal como tradutora da editoria de internacional, fazendo traduções de inglês, italiano, espanhol e francês. "Eu não traduzia, já fazia textos jornalísticos 'no tamanho', e, modéstia à parte, era tão boa que fiquei nisso uns anos, até me deixarem escrever 'de verdade'", dizia ela, segundo Jotabê.

Estripulias

Cecilia também era conhecida pela irreverência e estripulias na redação. O jornalista Alberto Villas, que conheceu Cecilia logo que ele começou a trabalhar no Estado, em abril de 1980, também fez um relato sobre a amiga no Facebook junto a uma foto dela no meio da redação, deitada no chão, com o quadril e as pernas pra cima.

"Não existia outra Cecilia Thompson. Durante todos esses anos, injetávamos jornalismo na nossa veia e não parávamos mais de falar. Ela me mostrava os seus diários que nunca parou de escrever e que hoje são um tesouro."

Ele conta que guarda da amiga o folheto original da primeira apresentação de Eles Não usam Black Tie, talvez a mais importante obra de Guarnieri, e coleção completa da revista Bondinho - "me deu de presente recentemente, sabendo que já estava indo embora".

De acordo com a família, o velório e cremação serão nesta quinta, na Vila Alpina, por volta das 16h. Cecilia deixa um filho, quatro netos, uma irmã e quatro sobrinhos.

Estadão

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