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Flordelis, uma história de filme. E cheia de tragédia

Pastora que teve o marido assassinado nesta semana vive mais um capítulo dramático da sua vida

18 jun 2019
03h10
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RIO - O assassinato do marido, com quem estava casada desde 1994, é mais um capítulo dramático da vida de Flordelis dos Santos Souza, de 58 anos. Deputada federal mais votada do Estado do Rio de Janeiro na eleição passada, a primeira em que concorreu, a pastora evangélica filiada ao PSD já teve a vida retratada em filme. "Flordelis - Basta uma Palavra para Mudar", lançado em 2009, foi estrelado por artistas como Bruna Marquezine, Cauã Reymond, Letícia Spiller, Deborah Secco, Reynaldo Gianecchini e Letícia Sabatella. Todos dispensaram cachê, e a renda do filme foi usada para comprar a casa onde Flordelis mora com os filhos em Pendotiba, bairro de Niterói (Região Metropolitana do Rio), e construir um centro de reabilitação para jovens.

Para acomodar os 55 filhos (43 mulheres e 12 homens, quatro biológicos), Flordelis e o marido construíram uma casa com dez quartos e sete banheiros. Para sustentá-los, eram precisos 50 kg de arroz, 14 kg de feijão, 72 litros de leite, 52 kg de carne e 600 rolos de papel higiênico.

Em 1999, o casal fundou no bairro do Rocha (zona norte do Rio) a Comunidade Evangélica Ministério Flordelis. Em 2010, o casal obteve um terreno de 9 mil m² em São Gonçalo (Região Metropolitana do Rio), onde construiu a atual sede da igreja, que tem outros quatro templos.

Flordelis se lançou como cantora em 1998 e em 2007 fundou o Instituto Flordelis de Apoio ao Menor. Sem condições de alimentar todo mundo, a deputada chegou a procurar e receber ajuda do sociólogo Herbert de Souza, conhecido como Betinho, fundador do projeto Ação da Cidadania, em busca de ajuda. Na época da divulgação do filme, ela contou que ele chegou a comida para a casa dela por seis meses. "Quando já estava debilitado (Betinho teve HIV e morreu em 1997, vítima de hepatite C), querendo me ajudar, ele acionou um canal de televisão e eu fui entrevistada", afirmou.

Flordelis nasceu e cresceu na favela do Jacarezinho, na zona norte do Rio. Aos 14 anos, perdeu o pai e um irmão, mortos em um acidente de carro. Trabalhou como balconista numa padaria e acompanhava a mãe, Calmozina Motta, em uma rotina evangélica - toda segunda-feira a mãe realizava um culto na própria casa, na Rua Guarani. A reunião fazia sucesso e em 1992 passou a ser realizada em um salão que comportava mais de 60 pessoas. Flordelis participava cantando e tocando guitarra.

Em 1993, Flordelis, então com 32 anos, decidiu iniciar um trabalho social com usuários de drogas. "Saía de casa toda quinta-feira de madrugada sozinha para subir os morros e falar com os meninos, conquistá-los e tentar tirá-los do vício", contou, em entrevista concedida em 2009 ao site UOL.. "Por causa desse trabalho, me tornei referência na favela. Um dia a mãe de um menino me procurou para dizer que o filho dela tinha sido levado (por traficantes) para ser assassinado. Fui atrás, o encontrei e consegui trazer ele comigo. Vi que meu trabalho estava dando certo quando consegui tirar esse menino do paredão da morte do tráfico. Ele tinha sido pego para ser fuzilado e tinha apenas 13 anos. Foi aí que tudo começou", narrou.

Flordelis já havia se casado, teve filhos e foi abandonada pelo marido. Em 1993, por meio do trabalho evangélico, conheceu Anderson do Carmo, com quem se casou no ano seguinte. "Nunca planejei ter tantos filhos, foi uma coisa que aconteceu na minha vida, por causa do meu trabalho. Primeiro, cinco adolescentes da favela vieram morar comigo. Eles tinham vindo do tráfico e queriam mudar de vida. Mais ou menos um ano depois eu fui até a (estação de trens) Central do Brasil atrás de uma menina que tinha fugido de casa também por causa de drogas. Não encontrei a menina, mas achei a primeira bebê, Rayane, que tinha 15 dias e tinha sido jogada no lixo. Levei-a para minha casa. A mãe foi junto comigo, arrependida, mas depois não quis ficar com a criança. Então eu fiquei", narrou Flordelis ao UOL em 2009.

Segundo ela, um mês depois de ter achado o bebê houve uma matança de crianças na Central do Brasil. Um carro passou atirando no calçadão onde elas estavam dormindo. Como a mãe da Rayane já sabia seu endereço, lembra, juntou todo mundo e levou para a deputada. "De uma vez, apareceram na minha casa 37 crianças. Catorze eram bebês que tinham entre um e três meses", contou a deputada na época da divulgação do filme. A casa tinha uma sala, dois quartos, cozinha e banheiro. Mesmo com pouco espaço, ela resolveu ficar com as crianças.

Fazia mais de nove meses que as crianças moravam com ela quando recebeu a primeira intimação do Juizado de Menores. "Compareci ao Juizado e queriam que eu entregasse as crianças. Eu já tinha obedecido a uma ordem dessas, entregando um menino, e ele foi assassinado pelo pai duas semanas depois. Por isso decidi enfrentar a Justiça e não entregar ninguém, porque eles não eram mais moradores de rua, eram meus filhos."

No dia seguinte tinha um mandado de busca e apreensão das crianças e um de prisão para a deputada, caso não obedecesse. Ela fugiu as crianças e ficou escondida por quatro meses na casa de um amigo. "Nessa época eu saí em todos os jornais como a seqüestradora de crianças. Falavam horrores a meu respeito. Então resolvi me apresentar à imprensa. Uma advogada se ofereceu para me ajudar e fomos ao Juizado de Menores. Era um novo juiz e ele me ouviu, disse que eu não podia ficar na favela e fez um monte de exigências, casa com seis banheiros, três quartos. Aceitei o desafio e começamos a mudar".

Estadão
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