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Crianças criam crianças nas favelas do Rio de Janeiro

10 jan 2014
06h11
atualizado às 10h10
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Karine tem rosto de menina, ressaltado por um sorriso inocente com um aparelho de dentes, mas aos 16 anos recém completados, passeia com o filho de dois meses nos braços pela Rocinha, a maior favela do Rio de Janeiro, uma cena habitual no Brasil. Dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) divulgados no relatório Estado da População Mundial do ano 2013 mostraram que 16% de mulheres brasileiras entre 20 e 24 anos deram à luz antes dos 18.

Karine e seu namorado Rafael, dois anos mais velho do que ela, são pais de Kauã e exemplo dos várias casais de pais adolescentes no Brasil. Eles acabaram de sair de uma visita ao pediatra e, orgulhosos, não hesitam em serem fotografados e entrevistados pela agência EFE.

"Ela já tinha decidido o nome dele antes de nascer", disse Rafael, entre risos dos dois. Karine não foi à escola nos nove meses de gravidez e perdeu o ano. Mas garante que, em fevereiro, retomará os estudos. Quem cuidará do bebê enquanto Karine estiver em sala de aula será a avó materna, na casa onde vive toda a família.

São três gerações compartilhando uma mesma casa, como acontecia há algumas décadas em países como a Espanha, e que no Brasil ainda é habitual no norte e no nordeste e nas favelas de metrópoles como Rio e São Paulo.

A consulta médica aconteceu em um prédio da prefeitura que concentra vários serviços ao cidadão. Na recepção, há uma cesta que, durante a manhã, estava cheia de preservativos gratuitos. Ao meio-dia, já não havia nenhum.

Também graças à política de oferecer gratuitamente preservativos à população, a gravidez entre jovens menores de 20 anos diminuiu paulatinamente na última década, segundo dados do Ministério da Saúde.

Se em 2000 cerca de 750 mil jovens foram mães no País, em 2012 o número caiu para 536 mil, números que continuam sendo especialmente altos nas favelas. A prefeitura do Rio de Janeiro também promove um programa para prevenir a gravidez adolescente.

A responsável pela iniciativa, Raquel Barros, em declarações à EFE, admitiu que a situação é um "verdadeiro problema e a educação é o caminho para evitá-lo, porque as jovens grávidas geralmente não têm perspectiva de estudar nem de melhorar de vida". Raquel explicou que "é importante as adolescentes saberem as consequências de ter um filho em uma idade tão precoce", e demonstrar às meninas que "há uma alternativa à gravidez".

"Muitas vezes, essa adolescente já cuidou de seus irmãos pequenos e depois quer cuidar de seu próprio filho, porque esse é o contexto natural em que cresceu", explicou.

Em outros casos a gravidez precoce é fruto da violência sexual, o que costuma levar aos abortos clandestinos. "Muitas meninas que ficam grávidas aos 10 ou 12 anos foram vítimas de abusos por seus padrastos ou familiares próximos", denunciou Raquel Barros, que advertiu que "quanto mais jovem é a grávida, mais perigo existe de mortalidade no parto e mais difícil será seu desenvolvimento como pessoa".

O desconhecimento das leis, o medo e, em alguns casos, a falta de hospitais preparados para fazer um aborto legal leva a muitas mães a ter o filho. Isso se soma a uma sociedade que se acostumou a ver crianças criando crianças, mas que, timidamente, está mudando essa dinâmica.

EFE   
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