Como engenheiro camaronês que não sabia cozinhar faz sucesso com restaurante em SP
Pratos do restaurante Mama África, no Tatuapé, começaram nas ligações e mensagens do chef Sam para sua família no outro lado do Atlântico
Quando chegou ao Brasil em 2004, Rafferty Kamga procurou alguma atividade relacionada à profissão de engenheiro eletrônico, que exercia em Camarões, seu país de origem. Ele abriu uma loja de eletroeletrônicos na Rua Santa Ifigênia, região mais indicada de São Paulo. Mesmo com sua expertise e a localização propícia, o negócio não deu certo. O engenheiro de 52 anos então tentou um restaurante para explorar a gastronomia africana que conhecia bem e apresentar sua cultura. Mas não sabia cozinhar.
Os primeiros pratos que saíram da cozinha do restaurante Mama África foram o resultado de ligações diárias e troca de mensagens de texto com a mãe e as irmãs em 2016. Naquela época, os aplicativos de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, ainda não haviam se popularizado como hoje.
"Meu sonho sempre foi montar um restaurante para falar da minha cultura. Eu não sabia cozinhar. Não sabia nem fazer arroz. Ligava para minha família para perguntar como montar um prato. Elas diziam 'faz assim, coloca isso' e fui aprendendo", conta o chef Sam, como ficou conhecido. "Hoje eu faço com os olhos fechados."
O chef precisou arregaçar as mangas - literalmente - porque não encontrou parceiros de negócio. "Pensei em ficar na área de marketing, conversar com os clientes. Não era para eu cozinhar. Era para outra pessoa cozinhar, mas ninguém quis. Ninguém dava valor. O começo foi muito difícil", diz o chef Sam. Quando ele diz a palavra "muito", ele repete a vogal 'u' por vários segundos e ainda abre as mãos para ilustrar o tamanho das dificuldades.
Desde o começo, ele administra o negócio enquanto a mulher, a brasileira Andréa, prepara os pratos. Eles se conheceram em São José do Rio Preto (SP) em sua primeira vez no País, em 2009, como turista, para conhecer o carnaval.
Quando fez a reforma do sobrado que fica no Tatuapé, bairro da zona leste da capital paulista, o empresário ficou sem capital de giro. "Eu passava dois dias sem vender um prato", conta. "Eu e minha mulher sentávamos no banco, olhando para a calçada e não entrava nenhum cliente." O casal pensou em desistir várias vezes, mas faltou dinheiro até para encerrar o negócio. "Procurei mil reais para levar as coisas para São José do Rio Preto. Não achei. Eu ia desistir e fechar o restaurante."
Virada de mesa começou nas redes sociais
A virada de mesa aconteceu a partir da divulgação nas redes sociais. "O Facebook me deu um voucher de US$ 500 (R$ 2.500 no câmbio de hoje) para participar de um evento. Na semana que postei esse prato, eu vendi 10 unidades e pensei: opa!". Hoje, ele conta que as filas se formam na calçada da Rua Cantagalo aos sábados, o que não acontecia há três anos.
O Mama África não é só a comida que oferece. O chef Sam explica como cada ingrediente é chamado na África (ele fala português, inglês, francês ou dialetos africanos), a origem dos temperos e até mesmo a melhor forma de manusear os alimentos. E tem a gargalhada do chef, que dá para ser ouvida do outro lado da rua.
O chef diz que os pratos são africanos, mas com seu estilo. Um dos orgulhos do cardápio é o "Zumba da Déa", prato que presta homenagem à mulher, companheira de sete anos, que é feito com espinafre, amendoim, castanha e camarão. "Gastronomia é falar do meu povo e da minha cultura. Mama África é o pedaço da África em São Paulo. Da porta para dentro, você está na África; da porta para fora, você está no Brasil", afirma em tom solene, com vozeirão grave, puxando as consoantes do francês.
Hoje, o chef cozinha de olhos fechados, como ele diz. Quando recebeu o Estadão, decidiu fazer algo próprio, que surgisse na hora. Um dos pratos foi uma entrada de frutos do mar. Enquanto os perfumes sobem na cozinha apertada, ele tira da geladeira o segredo da sua comida. Pede para a gente cheirar. É algo novo, difícil de explicar. "São temperos africanos que não existem aqui. Esse é o segredo."
Rafferty conta que já sofreu racismo em várias partes do mundo, até na África. "Na Argélia, os negros me chamavam de 'africano' e se diziam magrebinos", conta. "A discriminação entre brancos e negros existe em todo o mundo. Mas os negros têm de mostrar que existe amor entre eles. É preciso união para combater o racismo de um jeito mais fácil."
Culinária africana faz parte da cultura brasileira
A culinária africana está incorporada à cultura do Brasil. Desde 1530, quando os povos negros começaram a ser trazidos à força para cá no processo de escravização, diferentes universos de ingredientes e sabores foram trazidos para cá. O chef Sam conta que na Bahia são comidos pratos africanos. Esse processo está registrado, por exemplo, nos versos de 1936 do compositor Ari Barroso (1903-1964) e que foram imortalizados por Dorival Caymmi: "No tabuleiro da baiana tem: Vatapá, Caruru, Munguzá…".
Por outro lado, depois de 135 anos da abolição, o legado da escravidão para a população negra se mantém pela exclusão socioeconômica. São sinais dessa exclusão a baixa representatividade de gestores nas empresas, menor remuneração no mercado de trabalho formal, concentração na economia informal e desvantagens na hora de empreender.
Para acelerar o empreendedorismo negro em vários mercados, o Fundo Baobá de Equidade Racial possui um eixo temático de atuação voltada ao desenvolvimento econômico. Um dos objetivos é apoiar iniciativas que estimulem o ato de empreender como engrenagem para o emprego e geração de renda.
"Nosso objetivo é mover as pessoas de lugar na sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, enfrentar o racismo. Quando fazemos um edital, nós questionamos como essa ação representa o enfrentamento ao racismo?", afirma Giovanni Harvey, diretor executivo do Fundo Baobá.
* Este conteúdo foi produzido em parceria com o Fundo Baobá pela Equidade Racial
Serviço
Restaurante: Mama África La Bonne Bouffe
Endereço: Rua Cantagalo, 230 - Tatuapé
Dias e horários: terça a sábado (12h a 22h); domingos e feriados (12h a 16h)
Telefone: 11 3582-7438