Como atuam gangues 'quebra-vidro' na região da Bela Vista, no centro de SP
Ladrões focam em momentos de trânsito e pontos próximos de viadutos; SSP afirma intensificar medidas contra modalidade
A Bela Vista é a única região do centro de São Paulo que teve alta de furtos no primeiro trimestre do ano, como mostrou o Radar da Criminalidade, ferramenta desenvolvida com exclusividade pelo Estadão com base nos dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP). Foram 1,1 ocorrências de janeiro a março, alta de 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado.
Os casos chamam atenção sobretudo pela ação de gangues "quebra-vidro", focadas em furtar motoristas e passageiros presos no trânsito. Os criminosos agem em vias como a Rua Manoel Dutra, perto da Praça 14 Bis, na Avenida Nove de Julho, e no Viaduto Julio de Mesquita Filho, um dos principais elos entre as regiões leste e oeste.
"Eles procuram oportunidade, e agem em locais com fácil escape, em que possam fugir, por exemplo, por um barranco", diz ao Estadão o coronel Henguel Ricardo Pereira, secretário-executivo da Secretaria da Segurança Pública. "Entre os pontos de maior incidência, estão locais próximos a viadutos e marcados por trânsito intenso em alguns momentos, como também a Avenida 23 de Maio."
Em nota, a secretaria afirma que, na área da 1ª Seccional, que abrange a Bela Vista, os furtos caíram 8,88% no primeiro trimestre, com 1.679 suspeitos presos ou apreendidos e 51 armas retiradas de circulação. A pasta acrescenta que monitora de forma permanente os indicadores de todas as regiões para melhor direcionar ações das polícias Militar e Civil.
No mês passado, a PM realizou a Operação Impacto Media Urbs II, voltada justamente ao combate aos roubos na modalidade quebra-vidro. A ação, que mobilizou cerca de 900 policiais, contou com o apoio de 290 viaturas, três blindados e uma aeronave. Antes, em março, ao menos 70 suspeitos foram detidos outra megaoperação focada na modalidade.
A atuação das gangues quebra-vidro, segundo o coronel, tem motivado intensificação das operações realizadas pela secretaria, sobretudo na capital. Outro foco tem sido em incrementar os pontos de policiamento com motocicletas. "Assim (com a moto) o policial consegue descer barranco, pegar um corredor contrário", exemplifica Pereira.
Mapeamento da secretaria aponta que as ações de quebra-vidro se concentram sobretudo no horário de pico (maior circulação de veículos) do fim da tarde, entre 18h e 21h. "A gente viu também que terça-feira é um dia que tem maior incidência nesse horário, já que muitas vezes tem gente que faz home office (trabalho remoto) na segunda-feira", afirma o coronel.
Como mostrou o Estadão, os casos têm se espalhado inclusive para além de pontos já conhecidos no centro, com destaque para vias da zona norte e também para bairros como Perdizes (oeste) e Ipiranga e Vila Mariana (sul).
Diante disso, a secretaria tem buscado aumentar o patrulhamento não só em vias mais centrais, como na Baixada do Glicério, também conhecida por esse tipo de modalidade, mas em outras regiões. "Colocamos também grupamento aéreo, com farol de busca, ajudando também nessa questão dos quebra-vidros", diz Pereira. O objetivo é aumentar os antídotos contra esse tipo de ação.
Vítimas das ações de quebra-vidros ouvidas recententemente pela reportagem indicam que, em geral, as ações costumam ser bastante rápidas. Quando os alvos se dão conta, os criminosos já fugiram, deixando não só prejuízos materiais, mas ferimentos por causa do impacto da ação.
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A orientação é que casos envolvendo gangues quebra-vidro sejam tipificados como roubo, uma vez que há emprego de violência para conseguir acesso aos aparelhos celulares, principal alvo desses grupos. Mas essa classificação nem sempre ocorre na prática, impactando também as estatísticas de furto - conforme o Radar mostrou, dos 80 crimes ocorridos na Rua Manoel Dutra e arredores em março, por exemplo, 55 correspondem a furtos de celular.
Mudança na rotina
A recorrência de casos afeta não só as vítimas diretas das gangues. Há quase duas décadas trabalhando em Perdizes, o advogado Rodrigo Martini, de 48 anos, conta que recentemente até chegou a mudar por alguns meses o trajeto que fazia para casa, na região do Ipiranga, zona sul, por causa da recorrência de casos que presenciou quando passava no Viaduto Julio de Mesquita Filho. "Comigo nunca aconteceu, mas já vi dezenas e dezenas de casos", disse.
"Tinha semanas que só eu via mais de três casos", acrescentou ele, que passava pouco após as 18h por lá. A alternativa foi fazer o trajeto de volta para casa pela Avenida Paulista e pela Vila Mariana, o que acrescentava ao menos mais 20 minutos tempo de deslocamento de mais de um hora.
Neste ano, Rodrigo voltou a fazer o trajeto habitual, passando pelo Viaduto Julio de Mesquita Filho, mas não sem tomar algumas precauções, como ficar em alerta no trânsito e não deixar o celular no painel. Ele também instalou película antifurto no carro, na tentativa de ficar mais protegido. "Quando vejo aqueles cerca de 500 metros do viaduto com trânsito parado, sempre é aquela tensão."
Imagens obtidas pela reportagem indicam que, normalmente, os assaltantes usam fones de ouvido para combinar o momento exato dos ataues. "Eles ficam se comunicando entre eles e vão para cima dos carros parados", afirma Silvana Cunha, presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Bela Vista.
As investigações apontam que ladrões focados nesse tipo de crime normalmente agem ao menos em dupla. Ao avançar sobre os carros, usam desde vídias de corte (ferramentas pontiagudas) até golpes com o cotovelo.
Em alguns casos, há ainda atuação coordenada com comparsas posicionados em pontos elevados, que indicam veículos com objetos visíveis no interior. Com a informação de qual carro tem um celular aparente, é hora de agir.
Como mostrou o Radar da Criminalidade, o crescimento de furtos na Bela Vista no primeiro trimestre - que ocorre mesmo diante de uma melhora nesse indicador na região em março, quando o distrito teve queda de 7,4% - vai na contramão das reduções apresentadas em todos os outros DP's localizados na área de atuação da Subprefeitura da Sé.
Outras áreas do centro, como Sé e Bom Retiro, seguem a tendência apresentada no restante da cidade, que teve queda de 1,3% neste indicador, com 61 mil casos de janeiro a março - já os roubos caíram 14,3%, com 22,9 mil ocorrências.
Em nota enviada à reportagem, a Secretaria da Segurança Pública afirma que, para além das ações realizadas pela PM, a Polícia Civil tem investigado os casos envolvendo gangues quebra-vidro com foco na análise de imagens, na identificação de autores reincidentes e receptadores, além de diligências para prender infratores.
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