Cerca de 2,8 mil prédios estão com obras paralisadas no Rio
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afirmou que existem quase 2,8 mil construções paradas em todo o Estado pelas mais variadas razões. Grande parte dessas obras inacabadas vira estacionamento irregular, depósito de mercadorias de ambulantes ou moradia de sem-teto.
No número 89 da rua Santa Clara, em Copacabana, na zona sul da capital fluminense, a obra começou no ano de 1993 e deveria culminar em mais um luxuoso hotel no bairro.
Uma briga entre dois sócios, porém, teria provocado a suspensão da empreitada em 1998. Desde então, o local ficou abandonado. Um homem encontrado pela reportagem no local disse que, há quatro meses, o espaço se transformou em um estacionamento, embora a Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) negue a existência de alvará ou mesmo de uma solicitação oficial para expedição do documento.
O Santa Vaga, nome dado ao estacionamento, cobra R$ 7 por cada veículo pelo período de uma hora. Depois, mais R$ 3 por cada hora adicional ou fração. "Além de tudo, é caro demais", disse o cliente Ciro de Andrade, 55 anos.
No centro, mais precisamente na rua da Relação, um prédio que pertence à Imobiliária Pão de Açúcar integra a lista de dez imóveis apontados pela Comissão Permanente de Recuperação de Imóveis da Secretaria de Saúde e Defesa Civil como os mais problemáticos da região. Ele é o único da lista que ainda está inacabado.
Os proprietários foram notificados, mas, até o momento, nenhuma medida foi tomada quanto ao acúmulo de lixo, maior queixa dos comerciantes vizinhos, que nem sabem quem responde pela obra. A informação é desconhecida até mesmo pela Polícia Civil.
Os proprietários da Imobiliária Pão de Açúcar foram procurados pela reportagem, mas ninguém foi localizado. No Rio Comprido, zona norte, a situação se repete.
Um edifício de sete pavimentos na rua do Bispo está com as obras paralisadas há vários anos. No local também funciona um estacionamento. Os mensalistas pagam o valor de R$ 70 por uma vaga e a Seop também diz não ter concedido qualquer alvará.
"Moro e trabalho aqui com a minha família há sete anos. Nem estou recebendo meu salário, já que o proprietário da obra não aparece já faz um tempo", disse um homem que se apresentou somente como Cláudio. "Também não sei o motivo da construção ter sido embargada." Logo após a saída da reportagem, ele retirou a placa que anunciava o estacionamento.
"O que mais me preocupa é a falta de fiscalização. Um prédio como esse não passa por inspeções e pode provocar um acidente", afirmou o estudante de medicina Alan Ribeiro, 25 anos.
Construído na década de 50, um prédio da rua Frei Caneca é uma grande preocupação para quem mora, trabalha ou estuda no bairro do Estácio. No local, invadido por moradores de rua há cerca de dez anos, é possível observar péssimas condições de higiene. O esgoto vaza a céu aberto, o lixo se acumula e, em alguns pontos, existem imensas poças d'água, onde o mosquito transmissor da dengue pode se reproduzir.
"Estamos no período onde a gente mais deve se preocupar com o Aedes aegypti. Sempre chamamos as equipes da Secretaria de Saúde, mas não adianta muito", afirmou a administradora da Primeira Igreja Batista que fica ao lado do prédio, Fauzita Ramos. "No dia seguinte, a situação já está igual."
Na Escola Vitória, pertencente à igreja, estudam 250 crianças dos ensinos fundamental e médio. "No ano passado, sofremos muito com os casos de dengue aqui no colégio. Até registros de dengue hemorrágica nós tivemos", afirmou Fauzita.
"Todo o nosso trabalho não adianta. Eles arremessam pedras aqui dentro", disse Fauzita. "Já acertaram um dos nossos veículos. Às vezes, até fezes são atiradas dentro do nosso pátio."
No muro de cerca de 3 m de altura que divide a lateral do prédio e a entrada da igreja, foi instalada uma grade com mais de 1 m, para tentar impedir que objetos sejam arremessados.
"Já participamos até de reuniões com a prefeitura, mas o assunto nem precisou ser citado pela gente. Outros moradores do bairro também reclamam", afirmou Fauzita Ramos.
"A situação na parte da noite é ainda pior, eles gritam muitos palavrões. Meu filho não passa mais sozinho nessa calçada", disse Gilda Souza, 26 anos, moradora da região.
O prédio pertence ao Banco do Brasil. Foi passado pela Editora Bloch, antes de falir, como parte do pagamento de uma dívida com a instituição financeira. Em nota, o Banco do Brasil se limitou a dizer que estuda uma destinação para o local.