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'Brincadeira' de rasteira feita por jovens pode causar traumas na cabeça e na coluna e levar à morte

Especialistas recomendam que pais orientem adolescentes a não participar de desafio; em novembro no ano passado, jovem de Mossoró (RN) morreu após queda

12 fev 2020
14h58
atualizado às 18h58
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SÃO PAULO - Vídeos de uma perigosa "brincadeira" em que adolescentes dão uma rasteira em colegas têm circulado nas redes sociais e preocupado pais, educadores e médicos. No desafio, dois jovens se posicionam ao lado de um colega, que é orientado a pular e, então, recebe o golpe. A pessoa acaba caindo e batendo a cabeça no chão. Especialistas afirmam que a queda pode causar danos no crânio, no cérebro e na coluna. Em novembro do ano passado, uma jovem de 16 anos que participava da "brincadeira" morreu em Mossoró (RN).

Com a circulação dos vídeos, o tema voltou à tona na cidade onde Emanuela Medeiros da Costa, aluna do 9.º ano da Escola Municipal Antônio Fagundes, morreu. Segundo a prefeitura de Mossoró, o episódio será abordado nesta quarta-feira,12, durante a abertura da jornada pedagógica com professores e gestores, "inclusive com vídeos alertando sobre os perigos" da "brincadeira", chamada de quebra-crânios, roleta humana ou desafio da rasteira.

A prefeitura informou que a jovem teve traumatismo craniano e chegou a ser socorrida, mas não resistiu. A família da adolescente e os colegas que participavam do desafio receberam assistência de psicólogos e assistentes sociais do município.

Em São Paulo, o Colégio Santa Maria informou que teve conhecimento da "brincadeira" por meio de uma funcionária da escola, que divulgou um vídeo em um grupo de WhatsApp chamado Práticas Corporais, para que as pessoas ficassem atentas. Agora, o colégio divulgará uma nota alerta em suas redes, para conscientizar estudantes e pais.

Comunicado do Colégio Santa Maria sobre a 'brincadeira' de rasteira
Comunicado do Colégio Santa Maria sobre a 'brincadeira' de rasteira
Foto: Reprodução / Estadão

No Colégio Mary Ward, no Tatuapé, na zona leste da capital, o tema já foi debatido em sala de aula na manhã desta quarta com os alunos do 6° ano ao ensino médio. "Isso é uma agressão, não é uma brincadeira. Temos computadores em sala de aula. Passamos os vídeos para os alunos e fizemos uma reflexão sobre esse tipo de violência e as consequências desses atos. Não adianta esconder", explica César Marconi, diretor pedagógico da escola. O assunto também será abordado com os alunos mais novos. "Vamos abrir uma roda de conversa, até porque os alunos do 4° e 5° anos já têm celulares."

Ortopedista especialista em cirurgia da coluna e coordenador da pós-graduação em cirurgia endoscópica de coluna na Universidade de São Paulo (USP), João Paulo Bergamaschi diz que os jovens não têm noção do risco de sofrer traumas graves e até morrer.

"As pessoas que idealizaram não se atentaram à gravidade. É uma brincadeira que pode levar à morte, tanto que vitimou a adolescente no Rio Grande do Norte. O risco principal é a cabeça. Quando se cai de costas, a cabeça fica muito exposta a ter um trauma direto, no crânio, ou uma lesão interna."

A coluna também pode ser afetada, embora o risco seja maior para pessoas mais velhas. "O movimento de "chicote" (vai e vem) no pescoço pode causar um dano irreversível na coluna vertebral, deixar o indivíduo paraplégico. O jovem, teoricamente, tem uma musculatura melhor e ossos mais fortes, mas não está isento."

Coordenador do departamento de neurologia pediátrica do Sabará Hospital Infantil, Carlos Takeuchi explica que a forma que a pessoa cai é diferente no caso de uma queda por tropeçar ou escorregar, por exemplo.

"Quando a gente tropeça, pode bater a cabeça, mas tem o reflexo de defesa, de colocar a mão (para se proteger). (Nessa brincadeira), a pessoa cai sem defesa. Ela vai ter a queda um pouco acima da própria altura. Um adolescente de 1,50 ou 1,60 metro cairá de quase 1,80 metro sem se proteger."

Takeuchi diz que a região atingida nesse tipo de queda é ligada à visão. "Pode haver sangramento, contusão e uma infinidade de lesões intracranianas que podem demandar internações e até procedimentos cirúrgicos."

Pais devem conversar com os filhos

O neurologista pediátrico diz que os pais devem ficar atentos a sintomas que os jovens podem apresentar após sofrer uma lesão na cabeça. "Em casos muito extremos, a pessoa pode apresentar alterações de nível mental, vômitos e dor de cabeça."

Ele recomenda que os pais conversem com os filhos sobre o assunto. "Quando nós, pais, recebemos um vídeo desses, temos de alertar. O filho não pode ficar no meio e muito menos dar rasteira nos colegas. Os pais têm papel de educador."

A psicóloga clínica especializada em família Carla Guth diz que, ao educar os filhos, os pais devem abordar o tema da responsabilidade.

"Os jovens perdem a noção do limite da brincadeira e, na conglomeração, não se coloca na situação do outro e não pensa que pode ser um alvo da brincadeira. Os pais precisam educar os filhos sobre direitos e deveres e falar sobre responsabilidades, mostrar que os atos deles têm consequências. O jovem tem de aprender a trabalhar os vínculos com amigos, cuidar e ser cuidado."

Carla recomenda ainda que os pais busquem sempre se atualizar sobre as novidades que chegam para os filhos para poder passar informações embasadas, e não apenas proibir. "E o diálogo tem de ser constante."

Segundo ela, o desafio tem sido compartilhado em aplicativos que fazem sucesso entre jovens, como o TikTok. "O aplicativo está na moda, todo mundo tem. É uma febre, todo mundo acaba aderindo por moda, para fazer igual. O adolescente quer pertencer ao grupo, ter popularidade e perde a noção de que vai ser responsável pelas consequências, pela situação de constrangimento e pelos danos físicos."

Em nota, o TikTok informou que prioriza a segurança e o bem-estar dos usuários e que vai remover "da plataforma qualquer conteúdo perigoso que seja denunciado". "Como deixamos claro em nossas Diretrizes da Comunidade, não permitimos nenhum conteúdo que incentive, promova ou glorifique desafios perigosos que podem levar a qualquer tipo de dano", informa.

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Estadão
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