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Antissocial, agressor de creche em Santa Catarina queria largar estudos e guardava dinheiro em casa

Delegado diz que os pais também relataram que o jovem gostava de jogos online e teria problemas em casa

5 mai 2021 21h40
| atualizado às 23h39
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CHAPECÓ E SAUDADES (SC) - A Polícia Civil trabalha para traçar o perfil de Fabiano Kipper Mai, de 18 anos, autor do ataque à creche em Saudades (SC). Com a motivação ainda desconhecida, foram mortas duas mulheres e três bebês, feridos a golpes de facão nesta terça, 3.

A polícia colheu depoimentos de pessoas próximas, mas algumas informações ainda são tratadas pelos investigadores como preliminares ou até mesmo boatos. A Justiça converteu a prisão em flagrante em preventiva e liberou a quebra de sigilo de dados, para que a polícia analise computadores, videogame e pen drive apreendidos.

Segundo apuração do Estadão, não consta no inquérito qualquer evidência que pudesse indicar histórico de violência de Mai até o momento. Natural de Saudades, o agressor tem ficha criminal limpa, sem antecedentes ou registro de ato infracional - crimes cometidos por pessoas com menos de 18 anos.

Ele atingiu a maioridade no último dia 3. Apesar da idade, ainda cursava o 9º ano do ensino fundamental e trabalhava de menor aprendiz em uma indústria, com unidade instalada no município, responsável por confeccionar roupas e calçados para marcas famosas.

Colegas de trabalho o descrevem como introspectivo e reservado. Jogos no computador seriam o seu assunto preferido. Também era solteiro, mantinha poucas relações sociais e evitava festas. Guardava todo o dinheiro do trabalho em casa.

Mais afastada do centro, a residência não tem muros e é considerada simples. Ele morava com uma irmã mais nova, além do pai, jardineiro, e da mãe, afastada do trabalho para tratar um câncer. Após a repercussão do caso, os parentes deixaram o local por temer represálias.

Segundo relatam policiais, a família estava surpresa e liberou a entrada dos investigadores. Lá, foram apreendidos R$ 11 mil em espécie, que seriam as economias do jovem, mas não foi achado qualquer registro - diário ou carta, por exemplo - que sinalizasse o ataque.

"Até agora, não temos nada que ateste problemas de qualquer natureza sobre a conduta pessoal dele", afirmou o delegado Ricardo Casagrande, da regional de Chapecó. "Os depoimentos coletados vão dar um norte em relação à conduta do jovem e isso vai ser confrontado com provas técnicas, como objetos e bens apreendidos."

De acordo com a polícia, autor do crime teria ido até a creche Pró-Infância Aquarela de bicicleta. 
De acordo com a polícia, autor do crime teria ido até a creche Pró-Infância Aquarela de bicicleta.
Foto: Polícia Civil/Divulgação / Estadão

Informalmente, os familiares teriam relatado que Mai teria costume de maltratar animais domésticos - embora nenhuma denúncia tenha sido registrada. Também teriam dito que, ao questionar sobre a compra da arma empregada no ataque à creche, o agressor teria dito que era para usar nos bichos.

Responsável pelo inquérito, o delegado Jerônimo Ferreira declarou que os pais também relataram que o rapaz gostava de jogos online, teria problemas em casa e não desejava mais estudar. O motivo alegado seria bullying. "Espero conseguir interrogá-lo. Quero ver o que ele vai contar", disse.

O Grupo Dass, empresa do ramo de confecção onde o jovem trabalhava, disse lamentar a tragédia. "Desafortunadamente, o agressor pertencia ao quadro de colaboradores do Grupo Dass e vinha trabalhando de forma regular. Ele nunca apresentou qualquer precedente e exercia suas atividades de forma absolutamente normal, sem qualquer indicação de anormalidade de caráter", disse a empresa, que tem mil funcionários e afirmou ter dado todas as informações à polícia.

No hospital, jovem tem quadro de saúde grave

No dia do atentado, Mai chegou de bicicleta à creche Pró-Infância. Eram por volta das 10 horas. No portão, foi atendido pela professora Keli Adriane Aniecevski, de 30 anos, a primeira a ser atacada. Mesmo ferida, ela tentou correr para avisar os colegas e proteger as crianças.

O criminoso conseguiu, ainda, ferir e matar a agente educadora Mirla Renner, de 20 anos, além de três bebês. Outra criança foi esfaqueada e, atingida no pulmão, está na UTI.

Professora Keli (à esq.) e Mila Renner foram mortas durante o ataque à creche em Saudades, Santa Catarina
Professora Keli (à esq.) e Mila Renner foram mortas durante o ataque à creche em Saudades, Santa Catarina
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

Outras professoras que estavam no local conseguiram se trancar nas salas e gritaram por socorro. Vizinhos que ouviram o barulho foram os primeiros a chegar e conseguiram deter o agressor até a chegada da Polícia Militar. "Ele, ao perceber que seria contido, começou a se auto-lesionar", disse Casagrande.

Uma professora da creche relatou à reportagem que Mai é pouco conhecido na cidade e não tinha relação com funcionários da instituição de ensino. Familiares das vítimas também afirmam não conhecer o agressor.

No local, Mai ainda teria perguntado quantas pessoas ele conseguiu matar, de acordo com um bombeiro que atendeu a ocorrência. Com ele, os policiais ainda encontraram uma segunda arma branca, menor, que não chegou a ser usada no crime.

Preso em flagrante, Mai sofreu um ferimento profundo no pescoço e foi levado ao Hospital Regional do Oeste, em Chapecó, onde passou por cirurgia e é mantido sob custódia. O estado de saúde é grave.

Estadão
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