'Campo evangélico não se resume à direita', diz conselheira da Presidência que acompanha Janja
Nilza Valéria Zacarias, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, afirma que o campo religioso no Brasil vive disputa aberta e rejeita a associação automática entre evangélicos e direita. Em entrevista à RFI em Paris, ela critica o uso político da fé, defende o diálogo com o governo Lula e sustenta que pautas como feminismo e justiça social também encontram respaldo na tradição bíblica.
Jornalista, ativista social e uma das principais vozes do protestantismo progressista no Brasil, Nilza nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ela é uma das fundadoras e principais coordenadoras da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, criada em 2016, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O movimento surgiu como contraponto à chamada "bancada evangélica" conservadora no Congresso Nacional e passou a defender a democracia, a justiça social e a participação política de evangélicos, fora do campo da direita.
Em suas intervenções públicas, Nilza sustenta que a maioria dos evangélicos brasileiros é composta por mulheres negras, pobres e moradoras de periferias urbanas - um grupo que, segundo ela, não se vê representado por lideranças religiosas tradicionais. "O que nós notamos no Brasil, que se aplica aos Estados Unidos, é essa apropriação da linguagem religiosa, que vem sendo cooptada e utilizada como instrumento de poder", afirma.
Ela associa esse movimento à atuação de grupos organizados no Congresso Nacional. "No caso brasileiro, isso aparece na atuação da bancada evangélica", diz. "E isso exige de nós todo o tempo atenção". A defesa da laicidade, afirma, tem raízes históricas dentro do próprio protestantismo. "Esse valor é muito caro, sobretudo para mim. Os protestantes fomentaram essa discussão sobre a laicidade do Estado há centenas de anos", explica.
Disputa pelo voto evangélico
Nila Valéria, hoje conselheira especial da presidência da República, diz que a iniciativa de acompanhar a primeira-dama em encontros com mulheres evangélicas partiu da própria Janja. "Eu tenho que fazer uma referência a ela. Isso não foi uma estratégia do governo. Isso é uma estratégia pessoal que partiu dela e, obviamente, que beneficia o governo", avalia.
"Foi uma experiência muito bacana, porque ela tem uma preocupação com os temas que se relacionam com a vida da mulher. Basta ver o empenho da primeira-dama agora na assinatura do pacto de combate ao feminicídio. Ela se empenhou pessoalmente e a gente tem levado esse tema, inclusive para os nossos grupos, fazendo com que a Igreja se ocupe também do tema do feminicídio, entendendo que o feminicídio não é um problema da mulher, é um problema de todos nós e que a gente precisa, sobretudo, de pastores e líderes engajados nesse tema, porque eles precisam falar sobre isso em seus púlpitos", considera.
Ao comentar o cenário eleitoral, Nilza Valéria afirma que há mudança em curso. "Neste momento, são nove pontos de diferença do presidente Lula para o segundo colocado, que é o Flávio Bolsonaro", diz. Ela contesta, no entanto, a leitura de que o campo evangélico teria alinhamento histórico com o bolsonarismo. "Eu não diria que o campo evangélico é historicamente ligado a Bolsonaro. Como toda a sociedade brasileira, Bolsonaro, em algum momento, apresentou um canto da sereia. E as pessoas caíram nesse canto da sereia. Entre essas pessoas, evangélicos também", afirma.
A jornalista ressalta que identidade religiosa não define, por si só, posicionamento político. "Ninguém é só evangélico. Evangélico não é a única identidade de uma pessoa", diz. "Eu sou só evangélica, mas tenho uma multiplicidade de identidades. Eu sou uma mulher negra, eu sou jornalista", afirma. Ela reconhece, porém, o peso de temas morais no comportamento eleitoral recente. "Obviamente, a gente não pode negar o peso das pautas morais", diz, mencionando o "pânico" e o "medo" disseminados durante campanhas de fake news evocando, "por exemplo, a multiplicação de casamentos homoafetivos" caso a esquerda fosse eleita.
Laicidade?
Para Nilza Valéria, a laicidade não representa ameaça à religião. "A laicidade do Estado protege a igreja", afirma."O que é religioso continua sendo religioso. A gente tem liberdade de culto e quer que o Estado proteja todas as religiões", diz.
Segundo ela, isso não implica imposição de valores externos às comunidades de fé. "Isso não faz com que uma determinada igreja tenha que viver segundo pautas que não considera adequadas."
Para ilustrar, recorre a uma metáfora. "É como aderir a um clube. Se eu faço adesão a um clube, eu sei que tem regras. Eu vou seguir conforme as regras que eu aderi", afirma. Nesse contexto, ela observa mudança no comportamento do eleitorado.
"O que a gente percebe agora é que evangélicos também estão em disputa."
Diálogo com o governo Lula
A aproximação entre governo e lideranças evangélicas progressistas é vista por ela de forma positiva. "Eu acho que fortalece, neste momento fortalece muito", afirma. Segundo Nilza Valéria, o diálogo já vinha sendo construído. "A gente já vinha dialogando sobre a importância dessa aproximação."
Em 2025, esse processo se intensificou. "Nós conseguimos propor e organizar encontros com mulheres evangélicas. Foram sete encontros que tinham essa troca. A primeira-dama ouvia as mulheres. Depois, ela falava sobre políticas públicas, encaminhando respostas", afirma. Para a jornalista, o resultado é claro. "Isso foi muito significativo, porque mostrou que o diálogo é sempre um bom caminho."
Trajetória e identidade política
A própria trajetória de Nilza Valéria ilustra a convivência entre fé e engajamento político à esquerda.
"Eu sempre fui evangélica. Sou a quarta geração de uma família de batistas. Na minha família, nunca foi contraditório ser evangélico e ser de esquerda", afirma.
"Meu avô era militante do Sindicato dos Estivadores", diz. "Isso não era estranho à nossa fé", afirma. Para ela, não há vínculo obrigatório entre religião e ideologia. "Não é uma condição sine qua non. Ser evangélico não significa automaticamente ser de direita. É só olhar [Martin] Luther King."
Questionada sobre o tamanho do campo progressista entre evangélicos, ela evita estimativas. "Eu não saberia te responder o tamanho real desse campo", afirma. Para ela, generalizações prejudicam esse processo. "Ao rotular essas pessoas, a gente acaba perdendo", diz. "E a oportunidade de trazê-las para mais perto", completa.
Nilza Valéria destaca o perfil social predominante. "Os evangélicos brasileiros, em sua maioria, são pobres, periféricos e negros. Mas quando eu digo que essa pessoa é reacionária, eu me impossibilito de debater com ela", conclui.
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