As Cruzadas: de guerra santa a símbolo da ultradireita
Iniciadas em 1095 pela Igreja Católica como guerras santas que misturavam fé, ambição política e massacres, as Cruzadas continuam a ecoar na atualidade. Hoje, seu imaginário e lemas são apropriados pela ultradireita global para justificar disputas ideológicas e promover a ideia de um choque civilizacional. Contudo, historiadores alertam que esse uso político distorce o passado ao ignorar a complexidade dos conflitos, a violência extrema e o forte antissemitismo que marcaram o período medieval.
Em 1095, a Igreja Católica lançou as Cruzadas, guerras que deixaram milhões de mortos e cujo legado é invocado pela ultradireita em todo o mundo."O momento atual é muito parecido com o século 11... Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos de mil anos atrás, precisamos fazê-lo." Essas são as palavras do secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, em seu livro de 2020, American Crusade: Our Fight to Stay Free (Cruzada americana: nossa luta para permanecer livres).
Hegseth tem utilizado repetidamente a linguagem e o simbolismo bíblicos das Cruzadas para descrever tanto questões internas quanto externas, desde a atual guerra no Irã até a "luta" contra o que chama de "flagelo do esquerdismo".
Quase mil anos se passaram desde aquele frio dia de novembro de 1095, quando o papa Urbano 2º, no Concílio de Clermont, fez o inflamado discurso que daria início a séculos de guerras e mudaria o curso da história, proferindo as palavras que se tornariam o grito de guerra dos cruzados: "Deus vult!" (Deus o quer!).
Mesmo tanto tempo depois, as Cruzadas continuam sendo uma fonte poderosa de inspiração para a ultradireita e extremistas em todo o mundo.
Promessa de salvação eterna
A história das Cruzadas é longa e complexa. Mas pode ser resumida como um exemplo extraordinário de como a religião pode se tornar uma poderosa ferramenta para objetivos políticos, ajudando líderes a unir pessoas, justificar guerras e mobilizar apoio em ampla escala.
Em meados do século 11, os turcos seljúcidas muçulmanos conquistaram vastas áreas do Oriente Médio. No início da década de 1070, assumiram o controle de Jerusalém, o mais importante local sagrado da cristandade. Espalharam-se rumores de que peregrinos e cristãos que viviam na região estavam sendo perseguidos e que locais sagrados estavam sendo profanados.
Naquele período, o papado em Roma estava envolvido numa amarga disputa de poder com o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Henrique 4º, sobre quem realmente detinha o controle da cristandade ocidental. Quando o imperador bizantino Aleixo 1º Comneno pediu ajuda ao papa Urbano 2º para se defender dos seljúcidas, em 1095, isso ofereceu ao papado uma oportunidade de demonstrar seu poder, contornando Henrique e mobilizando a nobreza europeia para nada menos que uma Guerra Santa.
Urbano acreditava que uma grande causa cristã fortaleceria sua autoridade ao unir a Europa Ocidental contra um inimigo externo comum. A guerra era uma condição normal na Europa medieval, atingida por uma série de secas, fomes e epidemias. A crença no "fim dos tempos" era amplamente difundida.
Nesse contexto, o apelo de Urbano por uma Guerra Santa para "libertar a Igreja de Deus" foi persuasivo: ele demonizou os muçulmanos e prometeu aos cruzados o perdão completo de todos os pecados passados, além da salvação eterna.
"Se você pensar no que é uma Cruzada, trata-se de pedir às pessoas que avancem rumo ao desconhecido, por milhares de quilômetros, até uma terra desconhecida", explica o especialista em história das Cruzadas Jonathan Phillips, da Universidade Royal Holloway, em Londres.
As chances de um participante morrer eram de 35% a 40%, observa o especialista. Portanto, eles precisavam ser movidos por alguma coisa. "A religião tinha de ocupar o primeiro lugar", acrescenta.
O chamado de Urbano à Guerra Santa foi acolhido por homens e mulheres de todos os níveis da sociedade, desde príncipes até camponeses, explica Phillips. Esse exército improvisado, composto por camponeses, cavaleiros de baixa patente e nobres, liderados por pregadores, partiu para a Terra Santa em 1096.
Mais tarde, esse movimento ficaria conhecido como a Cruzada Popular, que fez suas primeiras vítimas na Renânia, onde seus integrantes massacraram comunidades judaicas num dos primeiros surtos de antissemitismo da Europa medieval.
Posteriormente, um exército mais bem organizado da alta nobreza europeia foi reunido em Constantinopla entre novembro de 1096 e abril de 1097, no que ficou conhecido como a Cruzada dos Príncipes.
O que aconteceu nas Cruzadas
A Terra Santa, localizada entre o que hoje são a Turquia, a Síria e o Egito, era uma sociedade multicultural e multilíngue, dividida entre senhores da guerra turcos seljúcidas sunitas e o Califado Fatímida xiita.
Levou algum tempo para que os habitantes locais compreendessem que aquilo não era apenas mais uma invasão, explica o especialista no Mediterrâneo Oriental islâmico pré-moderno Mohamad El-Merheb, da Universidade SOAS, de Londres. "Talvez tenha levado pelo menos uma década para que algumas pessoas percebessem que se tratava de um projeto ideológico de conversão e tomada da Terra Santa."
"Algumas cidades tinham boas defesas, outras não. Mas tudo isso ocorria num contexto de poder político extremamente fragmentado", afirma.
Os cruzados realizaram o que El-Merheb descreve como uma série de conquistas rápidas em cidades importantes como Edessa e Antioquia. Apesar dessas vitórias iniciais, a vida numa Guerra Santa era extremamente difícil. A maioria voltou para casa ou morreu de doenças, fome ou exaustão.
Quando capturaram Jerusalém, em 1099, os cruzados massacraram milhares de muçulmanos e judeus porque não conseguiam distingui-los. Muitos historiadores consideram a queda da cidade de Acre para os guerreiros mamelucos, em 1291, como o fim das Cruzadas na Terra Santa.
Entretanto, outras cruzadas foram convocadas, por exemplo para conter o avanço dos turcos otomanos no Leste Europeu durante o século 14, enquanto as campanhas militares cristãs da Reconquista que procuravam retomar a Península Ibérica do domínio muçulmano foram até o fim do século 15.
As Cruzadas reinterpretadas
O legado das Cruzadas continua sendo uma referência poderosa e polarizadora. Tanto no Oriente quanto no Ocidente, a memória histórica dessas guerras santas medievais é frequentemente invocada para moldar identidades, políticas e conflitos modernos.
Em 2001, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, causou indignação ao descrever a sua Guerra ao Terror como uma cruzada, termo que já vinha sendo empregado por Osama bin Laden para caracterizar guerras lideradas pelos EUA como conflitos religiosos destinados a destruir o islã.
Em sua propaganda para legitimar sua jihad global, Bin Laden também evocava o legado de Saladino, lendário comandante curdo reverenciado até hoje como o herói que retomou Jerusalém dos cruzados, em 1187.
"A partir do século 19, Saladino passa especificamente a se tornar um símbolo da luta contra o colonialismo e o imperialismo ocidentais", afirma El-Merheb. "Ao longo do século 20, muitos grupos islamistas também passaram a se referir às potências ocidentais como cruzados. Isso se tornou parte do nacionalismo político em nível estatal e também popular, por exemplo em filmes. Agora o inverso está acontecendo no Ocidente."
Deus vult
O simbolismo das Cruzadas é utilizado há muito tempo por movimentos da ultradireita nos Estados Unidos e na Europa para promover narrativas de conflito entre civilizações e chegou também ao Brasil.
A expressão latina deus vult já foi usada pelo assassino em massa e extremista de direita norueguês Anders Breivik, pelo partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD) e, no Brasil, pelo analista político Filipe Garcia Martins na vitória de Jair Bolsonaro, em 2018.
"No Brasil de Bolsonaro, o novo governo e grupos da ultradireita propagam uma versão fictícia da Idade Média europeia, insistindo que o período foi uniformemente branco, patriarcal e cristão", escreveu o professor de história medieval Paulo Pachá, da Universidade Federal Fluminense (UFF), num artigo de 2019 no qual analisou a adoração da ultradireita brasileira por uma Idade Média europeia idealizada.
Já o partido francês Reconquête toma seu nome das campanhas da Reconquista. Hegseth é conhecido por ter a expressão deus vult tatuada no braço e uma cruz de cruzado no peito.
Mas El-Merheb diz que tais referências frequentemente reduzem as Cruzadas a um simples choque entre cristianismo e islamismo, "o que nunca foi realmente o caso".
Segundo ele, essa interpretação ignora "como as Cruzadas foram desde o início projetos profundamente antissemitas, ou empreendimentos violentos contra outras comunidades cristãs na Europa, como os cátaros na França, contra Bizâncio e o mundo islâmico, além de ignorar as muitas alianças inter-religiosas entre muçulmanos e cruzados".
Ao mesmo tempo, acrescenta ele, esses políticos também deixam de lado o quão violentas e destrutivas foram essas campanhas históricas.
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