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PF detalha articulações de Vorcaro antes de ser preso e diz que banqueiro já sabia da operação

Documento mostra que dono do Banco Master sabia da Operação Compliance Zero e planejou saída do país

11 set 2026 - 07h26
(atualizado às 09h52)
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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Foto: Divulgação/Banco Master / Estadão

Um documento da Polícia Federal (PF), cujo sigilo foi derrubado na noite desta quinta-feira, 10, mostra que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, já sabia sobre a Operação Compliance Zero, que o prendeu. Ele planejou sair do país um dia antes de ser preso, segundo mostra o documento.

De acordo com a PF, Vorcaro soube que a operação aconteceria e começou a elaborar uma fuga "sendo improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência".

Nesta quinta-feira o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), levantou o sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master que correm na Corte. A decisão ocorre após um pedido feito horas antes pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. Um conjunto de inquéritos, reclamações e petições ligados ao escândalo do Master foram divulgados.

O que diz o documento

O documento da PF relata as interlocuções entre Daniel Vorcaro e servidores do Banco Central do Brasil (BC). Ele diz que foram coletados “fortes indícios de que os funcionários públicos Paulo Sérgio Neves de Souza, e Beline Santana defendiam ativamente os interesses do Banco Master junto à autarquia federal, muitas vezes atuando como verdadeiros ‘empregados’ de Daniel Vorcaro".

Na época, Paulo Sérgio tinha o cargo de chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária, e Belline era chefe do Departamento de Supervisão Bancária. O setor é uma unidade técnica ligada administrativamente à Diretoria de Fiscalização. Essas unidades têm atuação direta nos processos de Vorcaro, segundo a PF.

“Assim, é plenamente razoável concluir que a forte ingerência sobre servidores em atividades gerenciais no Departamento de Supervisão Bancária trouxe facilidades ao Master nos seus contatos com o Banco Central", diz a PF. O documento mostra mensagens obtidas do celular de Vorcaro com os envolvidos, que falam sobre pagamentos diretos, viagens e outros.

O primeiro contato com Paulo Sérgio aconteceu em 20 de outubro de 2023, e os dois não se apresentam, mas Paulo envia uma publicação do Diário Oficial da União com portaria de nomeação para o cargo de Chefe Adjunto de Unidade no Departamento de Supervisão Bancária (DESUP).

Depois, Paulo atua como um consultor de Daniel Vorcaro, indicando certo grau de subserviência. “O servidor chega a atribuir ‘prioridade absoluta’ para atuação nos interesses de Vorcaro", segundo o documento.

Dias antes da Operação Compliance Zero

No dia 21 de outubro de 2025, Vorcaro registra no aplicativo “Notas” os nomes de representantes da PF que participaram de uma reunião reservada com o BC, indicando que ele obteve acesso antecipado às informações discutidas.

Dois dias antes da Operação Compliance Zero, em 16 de novembro de 2025, Vorcaro registra uma nova nota perguntando sobre a proximidade de terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. O inquérito era sigiloso, o que reforça a suspeita de vazamento das informações.

Na manhã do dia 17 de novembro, um dia antes da operação, Vorcaro recebeu mensagens urgentes de seu advogado, Walfrido Warde. Depois, muda os planos e informa cerca de uma hora depois que agendaria um voo saindo de Congonhas.

No mesmo dia, Vorcaro conversa com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada. Mais tarde, recebe o link da matéria e o passa para o advogado. A reportagem menciona um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. O advogado protocola uma petição pedindo acesso ao conteúdo da investigação e segue tratando o assunto com Vorcaro ao longo do dia, insistindo sobre um contato com o juiz.

Surgem indícios de que Vorcaro divulgou à imprensa que o Grupo Fictor teria interesse em adquirir o Banco Master. O banqueiro mantém contato com Paulo Sérgio e Belline, que consideram “fundamental” que ele fale com o diretor do Banco Central, Ailton Aquino.

A reunião é marcada para o mesmo dia. Depois, uma reportagem sobre a venda do Banco Master ao Fictor começa a circular. Os servidores não parecem surpresos e sugerem um alinhamento prévio.

Na noite de 17 de novembro, a polícia intercepta Vorcaro no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Ele estava prestes a embarcar em um jato particular para os Emirados Árabes.

A Operação

A primeira fase da Operação Compliance Zero é deflagrada no dia 18 de novembro de 2025. A PF afirma que o panorama demonstra que Vorcaro estava "ciente da futura e iminente atuação policial, se utiliza de servidores do Banco Central que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas) para forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial".

A soltura de Vorcaro foi determinada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região após cerca de 10 dias, além de quatro executivos do Banco Master. Eles foram liberados sob o argumento do teor da reunião com o Banco Central.

"Diante de todo o exposto, conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de Daniel Vorcaro e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos “tentáculos” em estruturas públicas e privadas", diz o documento da PF.

Um novo pedido de prisão preventiva contra o banqueiro foi feito pela PF, assinado no dia 27 de fevereiro deste ano. Em março, ele foi preso novamente.

Fonte: Portal Terra
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