Script = https://s1.trrsf.com/update-1785273314/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Brasil

Publicidade

'A gente vai de arrasta': o pavor das amigas presas no Cristo Redentor na ventania

Turistas ficaram cerca de três horas abrigadas após serem surpreendidas por ventos de até 100 km/h e questionam a falta de alertas

30 jul 2026 - 19h42
Compartilhar
Exibir comentários
Posto de combustíveis destruído pelo temporal no Rio de Janeiro
Posto de combustíveis destruído pelo temporal no Rio de Janeiro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

"Eu nunca vi nada igual."

É assim que a baiana Hannielly Lopes, 23 anos, descreveu a ventania que atingiu a região Sudeste na tarde de quarta-feira (29/7).

Ela e duas amigas saíram de Irecê, no interior da Bahia, para passar as férias no Rio de Janeiro. Elas visitavam um dos principais cartões-postais da cidade, o Cristo Redentor, quando foram surpreendidas por uma rajada de vento intensa, por volta das 16h.

"Eu falei: 'Meu Deus do céu, vamos nos abraçar e agarrar nessa grade porque senão a gente vai de arrasta'", diz, referindo-se à possibilidade de risco de morte.

As fortes rajadas entre São Paulo e o Rio de Janeiro provocaram cinco mortes, apagões, quedas de árvores e interrupções em serviços essenciais.

Na capital fluminense, as rajadas chegaram a aproximadamente 100 km/h. O Aeroporto Santos Dumont chegou a suspender pousos e decolagens durante o período de maior intensidade dos ventos.

No início, o grupo acreditou que se tratava apenas de um vento forte. "Tanto que a gente fez vídeo. Depois a gente percebeu toda aquela ventania, desceu correndo e foi procurar abrigo", conta Ingrid Silva, de 22 anos.

Mas a situação piorou rapidamente.

"A gente estava rindo muito, sem parar, aquele riso de desespero mesmo. Mas foi um momento de tensão. A gente não tinha noção da gravidade do que estava acontecendo", acrescenta Hannielly.

Amigas visitavam o Cristo Redentor quando foram surpreendidas pelos fortes ventos
Amigas visitavam o Cristo Redentor quando foram surpreendidas pelos fortes ventos
Foto: Hannielly Lopes / BBC News Brasil

Segundo meteorologistas, o fenômeno foi uma frente de rajada e foi consequência do grande contraste entre duas massas de ar com características muito diferentes.

O Sudeste enfrentava um período de calor e tempo seco quando uma frente fria começou a avançar pelo Sul do país. Associado a esse sistema, um volume de ar mais frio e úmido seguia em direção à região.

O intenso contraste térmico entre o ar muito quente e seco que predominava, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, com o ar frio e úmido trazido pela frente fria acelerou o ar, causando ventos muito fortes.

Naize Kessy, 22 anos, conta que o medo foi tão grande que chegou a mandar uma mensagem de despedida para a família.

"Nunca tinha visto algo desse jeito. Foi muito forte. Acho que também por causa da altitude, porque a gente estava em um local muito alto e acabou sentindo mais esse impacto", afirma. O Cristo Redentor está a 709 metros acima do nível do mar.

Quando perceberam que a ventania não iria passar, decidiram procurar um local seguro.

"Foi aí que a gente decidiu procurar algum lugar para se abrigar, porque estava muito forte", diz Hannielly.

Segundo elas, funcionários do Santuário Cristo Redentor e do Parque Nacional da Tijuca orientaram os visitantes e os conduziram até um sanitário, onde permaneceram abrigados por cerca de três horas.

"A gente já estava mais calma, mas ainda tinha muita gente desesperada. Entramos em oração", lembra Ingrid.

Para Naize, o momento mais angustiante foi ver pessoas tentando encontrar familiares em meio à confusão.

"A parte mais desesperadora foi ver o pessoal chorando, se despedindo, se abraçando e procurando familiares e amigos que não estavam encontrando."

Quando perceberam o perigo da rajada de vento, elas procuraram abrigo
Quando perceberam o perigo da rajada de vento, elas procuraram abrigo
Foto: Hannielly Lopes / BBC News Brasil

As três amigas afirmam que não receberam qualquer alerta sobre o risco de ventania antes da visita.

"A gente não viu em nenhum lugar que estava sendo noticiado que teria esse vendaval. Estava totalmente desavisada", afirma Hannielly.

Ela também questiona o funcionamento dos pontos turísticos durante o temporal.

"Eu acredito que tanto o Cristo quanto o Bondinho poderiam ter fechado o local, porque foi muito forte e perigoso. Colocou vidas em risco e, infelizmente, houve mortes no Rio. Foi algo muito grave."

O ICMBio, responsável pela gestão do Parque Nacional da Tijuca, que é onde fica instalado o monumento turístico do Cristo Redentor, informou que foram proibidos novos acessos ao Cristo Redentor por questões de segurança durante a ventania.

Nem o trem, da concessionária Trem do Corcovado, e nem as vans, da concessionária Paineiras-Corcovado, foram autorizados a subir com novos visitantes quando os ventos fortes começaram, disse o órgão.

O órgão diz contar com os avisos que a prefeitura emite, e que o SMS da Defesa Civil do município sobre a rajada de vento foi recebido apenas por volta das 17h.

O público que estava no platô do Cristo Redentor foi direcionado para locais seguros e abrigados, como o Centro de Atendimento ao Visitante.

Já o Santuário Cristo Redentor acolheu visitantes na Capela de Nossa Senhora Aparecida, na Capela de Adoração Laudato Si' e na Sala da Gratidão.

Após a experiência, Hannielly diz que passou a dar mais importância aos alertas meteorológicos.

"Sem dúvida, essa situação deixou uma lição: acompanhar os jornais e consultar fontes confiáveis de meteorologia."

Ela acredita ainda que eventos extremos como esse podem se tornar mais frequentes.

"Eu nunca tinha vivido isso. Acho que é uma consequência do aquecimento global. Foi uma loucura e pode acontecer mais vezes. A gente tem que ficar sempre alerta e tomar muito mais cuidado."

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra