André Mendonça autoriza PF a abrir inquérito para apurar tráfico de influência de Lulinha no governo
PF apontou suspeitas envolvendo Ministério da Saúde e Palácio do Planalto; defesa de Lulinha disse que recebeu 'com tranquilidade' a informação e afirmou que o filho do presidente não obteve nenhum pagamento por negócios de empresários com o governo Lula
BRASÍLIA - O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizou a abertura de um inquérito para apurar suspeitas de tráfico de influência no governo federal do empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Relator do caso, Mendonça atendeu a um pedido da Polícia Federal. Procurada, a defesa de Lulinha disse que recebeu "com tranquilidade" a informação e afirmou que o filho do presidente não obteve nenhum pagamento por negócios de empresários com o governo Lula (leia mais no fim do texto).
A informação sobre o pedido de inquérito foi divulgada inicialmente pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo Estadão. A solicitação chegou ao STF na última sexta-feira, 24. Por se tratar do plantão judiciário, o processo foi remetido ao presidente em exercício do STF, Alexandre de Moraes, que o enviou à Procuradoria-Geral da República (PGR) para opinar se o novo inquérito teria conexão com a Operação Sem Desconto, que apura desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A PGR se posicionou pela livre distribuição do caso. O STF, então, procedeu com a distribuição e o pedido foi remetido por sorteio novamente a André Mendonça.
Mendonça havia feito cobranças à PF nas últimas semanas sobre o andamento das investigações de Lulinha, o que vinha gerando descontentamento na corporação. No pedido de investigação, a PF cita suspeitas de tráfico de influência de Lulinha no Palácio do Planalto e no Ministério da Saúde. O objetivo da apuração é saber se o filho do presidente vendia acesso ao governo federal, em troca de pagamentos.
O nome do filho do presidente surgiu nas investigações sobre desvios de aposentadorias por causa de sua relação com um dos empresários investigados como líder do esquema, Antônio Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS".
Lulinha chegou a admitir em documento protocolado no STF que viajou a Portugal com as despesas pagas pelo "Careca do INSS" para prospectar um negócio de cannabis medicinal. Esse negócio seria intermediado pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e responsável por apresentá-lo ao "Careca do INSS". Ela recebeu pagamentos de R$ 1,5 milhão do empresário e afirmou que prestou serviços de consultoria para regulação do mercado de cannabis medicinal no Brasil.
A partir disso, a PF analisou a movimentação financeira de Lulinha, da empresária Roberta Luchsinger e do "Careca do INSS". Uma das suspeitas que surgiram é que Roberta teria bancado uma agência de viagens usada pelo filho do presidente com dinheiro recebido do "Careca do INSS". A defesa dela negou, na ocasião, que viagens de Lulinha tenham sido pagas com recursos desviados do INSS.
Também despertou a suspeita dos investigadores o fato de Lulinha ter se mudado para o exterior em meio às investigações. Em um documento revelado pelo Estadão, a PF citou que essa "evasão do País" poderia ter a intenção de fugir das investigações do INSS.
Agora, os investigadores entenderam que os fatos encontrados sobre Lulinha não têm relação direta com os desvios do INSS e, por isso, decidiram pedir um inquérito autônomo para investigar o assunto.
O advogado Marco Aurélio Carvalho, que representa Lulinha, considerou "estranha" a instauração do novo inquérito e citou "pesca probatória".
"Importante dizer que o presidente Lula devolveu as instituições de Estado à sociedade brasileira, notadamente a Polícia Federal, que tinha sido capturada pelo governo anterior por interesses políticos e eleitorais. A PF recuperou a independência e autonomia que são determinantes para a manutenção da credibilidade da instituição, mas ela precisa usar com responsabilidade. É estranha a notícia sobre a instauração de novo inquérito, a impressão que passa é que a Polícia Federal está promovendo uma espécie de pesca probatória. 'Não achei nada aqui e vou procurar ali'. Isso é muito grave. Não acharam nada do Fábio no bojo das investigações do INSS, como não vão achar em relação a esses fatos", afirmou.
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