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Borrifar perfume no pescoço faz mal à saúde?

Uma publicação de autoria de um especialista em câncer viralizou, mas admite que não há evidências de danos à tireoide pelo uso de perfumes no pescoço. Veja o que diz a ciência

18 ago 2026 - 07h29
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Evidências atuais não indicam que aplicar perfume sobre a tireoide leve seletivamente os componentes químicos da fragrância até a glândula ou a exponha a uma dose maior do que ao borrifar em outros locais. PeopleImages/Shutterstock
Evidências atuais não indicam que aplicar perfume sobre a tireoide leve seletivamente os componentes químicos da fragrância até a glândula ou a exponha a uma dose maior do que ao borrifar em outros locais. PeopleImages/Shutterstock
Foto: The Conversation

Borrifar perfume no pescoço é um passo final comum de muitas pessoas antes de sair de casa. Mas uma postagem viral no Instagram feita por um especialista em câncer destacou o pescoço como uma área "que deve se pensar" se devemos colocar perfume, pois fica próxima à glândula tireoide.

A legenda da postagem afirma que não há evidências de que borrifar perfume no pescoço cause danos à tireoide. Mas suas referências à desregulação hormonal e à exposição a substâncias químicas ao longo da vida através da pele fina podem sugerir uma possível ligação com doenças da tireoide ou câncer. Será que uma borrifada rápida realmente representaria um risco específico?

As evidências atuais não indicam que aplicar perfume sobre a tireoide leve seletivamente os componentes químicos da fragrância até a glândula ou a exponha a uma dose maior do que ao borrifar em outros locais. Pesquisas sobre absorção cutânea e a anatomia do pescoço não corroboram a ideia de uma via direta e seletiva para a tireoide.

A tireoide é uma glândula em forma de borboleta localizada na parte inferior frontal do pescoço. Ela libera hormônios que ajudam a controlar como o corpo utiliza a energia e fica localizada sob a pele e várias camadas de tecido conjuntivo e muscular.

O que acontece quando o perfume entra em contato com a pele?

A pele atua como uma barreira. Um ingrediente pode evaporar, permanecer na superfície, penetrar nas camadas da pele ou chegar à corrente sanguínea. A absorção depende da substância química, de sua composição, das condições e da localização da pele, da dose e do tempo de contato.

A localização no corpo pode influenciar a absorção. Quando uma substância química atinge os vasos sanguíneos nas camadas mais profundas da pele, ela pode circular mais amplamente. Aplicar uma substância perto de um órgão não significa automaticamente que ela tenha como alvo esse órgão.

As avaliações de segurança de cosméticos em spray também levam em conta a inalação. Essa via não causa exposição especial à tireoide por meio da aplicação no pescoço.

E quanto aos ftalatos e aos hormônios?

Grande parte da preocupação gira em torno dos ftalatos, uma família de substâncias químicas com diferentes usos e efeitos à saúde. O ftalato de dietila, ou DEP, tem sido usado como solvente e fixador em fragrâncias. Outros ftalatos têm sido utilizados principalmente para tornar os plásticos flexíveis. As evidências sobre os efeitos de um membro da família de substâncias não podem simplesmente ser aplicadas a todos os outros.

Uma revisão sistemática publicada online em 2024 reuniu 17 estudos envolvendo 5.616 crianças e adolescentes. Ela relatou associações entre a exposição a ftalatos e os níveis de alguns hormônios da tireoide, enquanto os resultados para outros hormônios foram inconsistentes. Os estudos examinaram a exposição proveniente de múltiplas fontes. Eles não investigaram a aplicação de perfume no pescoço nem o desenvolvimento de doenças da tireoide e, portanto, não podem estabelecer uma relação de causa e efeito.

O perfume pode contribuir para a exposição ao DEP. Em um estudo com 337 mulheres, usuárias de perfume apresentaram níveis urinários mais elevados de ftalato de monoetila, um produto da degradação do DEP. Isso corrobora o perfume como fonte de exposição ao DEP. Mas o estudo não examinou danos à tireoide nem o local de aplicação.

Um "disruptor endócrino" é uma substância externa que altera o sistema hormonal e causa um efeito prejudicial. O risco depende da substância química, da dose, da via de exposição, do momento e da duração da exposição. Um efeito hormonal observado em um experimento de laboratório não comprova o risco decorrente do uso de um perfume pronto para uso em condições cotidianas.

O uso repetido implica em exposição repetida, embora isso não signifique necessariamente acúmulo. Os ftalatos são convertidos em produtos de degradação que são eliminados rapidamente do corpo pela urina, enquanto o uso frequente pode renovar repetidamente a exposição.

Na Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte, os cosméticos devem passar por uma avaliação de segurança antes de serem colocados no mercado.

Embora os sistemas regulatórios sejam diferentes, os avaliadores levam em consideração em geral os ingredientes, as concentrações, a finalidade de uso e a exposição provável. As misturas de fragrâncias podem ser listadas como "parfum", enquanto alérgenos específicos devem ser nomeados acima das concentrações prescritas na Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte.

Os ingredientes dos perfumes podem afetar a pele e desencadear enxaqueca, mas as evidências atuais não identificam nenhum risco específico para a tireoide. ViDI Studio/Shutterstock
Os ingredientes dos perfumes podem afetar a pele e desencadear enxaqueca, mas as evidências atuais não identificam nenhum risco específico para a tireoide. ViDI Studio/Shutterstock
Foto: The Conversation

Riscos para a pele mais bem estabelecidos

No caso de perfumes aplicados diretamente na pele, a preocupação mais claramente comprovada é a dermatite de contato alérgica, uma erupção cutânea com coceira e inflamação causada pelo contato com um ingrediente. Uma revisão de estudos estimou que a alergia de contato a fragrâncias afeta 0,7% a 2,6% da população em geral.

Uma reação alérgica pode se desenvolver depois que uma pessoa fica sensibilizada, o que significa que seu sistema imune aprendeu a reagir a um ingrediente. O contato posterior pode causar coceira e uma erupção cutânea vermelha semelhante ao eczema. O perfume também pode irritar a pele sem causar alergia. Se a erupção cutânea persistir ou reaparecer, testes de contato podem ajudar a identificar a causa.

Alguns ingredientes de fragrâncias podem causar uma reação fototóxica, uma resposta semelhante a uma queimadura solar quando uma substância química na pele é exposta à luz. Um estudo em humanos com perfumes de referência constatou que o óleo de bergamota, que contém uma substância química reativa à luz, poderia causar tal reação após a exposição aos raios ultravioleta A, ou UVA. O risco dependia da concentração e da dose de UV, portanto, isso não se aplica a todos os perfumes.

A exposição solar prolongada é considerada um dos principais fatores que contribuem para a poiquilodermia de Civatte, que causa pele de cor marrom-avermelhada e afinada, com pequenos vasos sanguíneos visíveis nas laterais do pescoço. Um pequeno estudo com 32 pacientes sugeriu que a alergia a fragrâncias poderia contribuir em algumas pessoas, mas não conseguiu demonstrar que as fragrâncias causassem a condição.

O cheiro de perfume também pode afetar pessoas com enxaqueca. Em um estudo clínico, pessoas com enxaqueca frequentemente citaram o perfume como um odor que acreditavam ter desencadeado as crises. O estudo baseou-se em relatos de memória, portanto não pode fornecer uma estimativa populacional nem comprovar causalidade. Ele não fornece nenhuma evidência de danos à tireoide.

Você deve evitar borrifar perfume no pescoço?

Para a maioria das pessoas, as evidências atuais não oferecem nenhum motivo relacionado à tireoide para evitar especificamente o pescoço. A Cancer Research UK não relata nenhuma evidência de que o uso de perfume cause câncer.

Se o perfume causar ardência ou erupção cutânea com coceira, pare de aplicá-lo na pele e procure orientação médica se a reação persistir. Fragrâncias "naturais" não são automaticamente mais suaves, pois os óleos essenciais podem também causar dermatite de contato alérgica. Um rótulo "sem ftalatos" não garante, por si só, que uma fragrância seja mais segura, pois os ftalatos variam e os produtos substitutos não são automaticamente mais seguros.

Pesquisas adicionais poderiam esclarecer os efeitos da exposição repetida a misturas de fragrâncias. As evidências atuais não indicam que borrifar perfumes no pescoço proporcione aos componentes químicos da fragrância um acesso especial à tireoide.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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