Banco Master: PF revela como documentos eram alterados em 'linha de montagem'
Perícia reconstruiu uma sequência de procedimentos digitais usados em arquivos ligados às operações investigadas
A Polícia Federal revelou que o Banco Master mantinha uma "linha de montagem" digital para forjar milhares de documentos ligados a créditos da Tirreno Consultoria, negociados com o BRB. A fraude envolvia uso de mala direta, extração de assinaturas em PDF e ocultação de datas e históricos de contratos para mascarar operações. Apesar das edições, a perícia rastreou metadados que comprovaram as adulterações, embasando a apuração de irregularidades em cessões de crédito estimadas em R$ 7,15 bilhões.
Dados de clientes, milhares de documentos e rastros digitais que permaneceram mesmo depois de alterações em arquivos. Esses elementos ajudaram a Polícia Federal a reconstruir como funcionava a produção de documentos investigada no Banco Master.
De acordo com informações apuradas pelo g1, a PF identificou uma espécie de "linha de montagem" digital, na qual dados armazenados nos sistemas do Master e diferentes ferramentas tecnológicas eram usados na preparação de documentos ligados a créditos atribuídos à Tirreno Consultoria. As carteiras entraram posteriormente em operações com o Banco de Brasília (BRB).
Parte desse processo veio à tona a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Master. O material registrava atividades desenvolvidas entre junho e outubro de 2025 e passou a integrar a análise pericial.
Documentos eram produzidos aos milhares
Uma das frentes identificadas envolvia a elaboração de procurações. Com informações de clientes organizadas em planilhas e uma função de mala direta do Word, funcionários geraram 2.700 documentos em um único lote, segundo a investigação.
A área de tecnologia também participou do processo. A perícia identificou programas desenvolvidos para trabalhar com arquivos em PDF, incluindo uma ferramenta capaz de extrair páginas específicas de documentos. Uma delas separava justamente aquelas que continham assinaturas.
Em outro material analisado, os investigadores encontraram mais de 1,8 mil arquivos com páginas de assinatura de Termos de Consentimento isoladas. Posteriormente, os responsáveis reuniam diferentes peças para formar dossiês vinculados às operações.
Funcionários retiraram informações de arquivos
A investigação avançou também sobre modificações feitas nos documentos. Conversas internas analisadas pela PF indicam que funcionários discutiram a retirada de dados que poderiam revelar quando determinados arquivos haviam sido produzidos.
Em uma das mensagens, Allan da Silva Machado pediu diretamente da exclusão de uma data de um Termo de Consentimento. A perícia encontrou um caso em que uma informação de fevereiro de 2023 deixou de aparecer visualmente depois de uma edição feita em julho de 2025. O procedimento, contudo, não eliminou todos os registros técnicos associados ao arquivo.
Comprovantes bancários também apareceram nas conversas analisadas. Em uma delas, Allan discutiu a retirada de referências como número de contrato e histórico. "Porra... este aparece o numero de contrato. Não quero o numero de contrato nem o histórico", escreveu.
Uma funcionária apontou a dificuldade de realizar a alteração manualmente em milhares de arquivos: "Então, não tem o que fazer. Um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes no editor".
Banco Master: PF encontrou rastros das alterações
As modificações não eliminaram todas as informações técnicas dos arquivos. Ao comparar os registros, os peritos encontraram divergências entre datas exibidas nos documentos e aquelas vinculadas às assinaturas digitais. Com isso, conseguiram reconstruir a sequência das edições.
De acordo com a investigação, a documentação estava ligada às carteiras de crédito atribuídas à Tirreno e negociadas com o BRB. A PF, portanto, apura irregularidades envolvendo cerca de R$ 7,15 bilhões em cessões de créditos associadas à empresa.
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