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Atrito entre Trump e UE reflete nova ordem mundial e embute alerta ao Brasil

22 jan 2026 - 11h02
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Insistência dos EUA em incorporar a Groenlândia coloca em risco unidade do Ocidente e deve servir de alerta a outros países, dizem especialistas à DW.O presidente americano, Donald Trump, cruzou o Oceano Atlântico nesta quarta-feira (21/01) para, da cidade suíça de Davos, questionar de forma contundente os países europeus e a aliança transatlântica entre Estados Unidos e Europa, estabelecida após a Segunda Guerra Mundial.

O chefe da Casa Branca reafirmou que deseja ver a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, incorporada aos Estados Unidos - apesar do rechaço do governo dinamarquês e de outros países da União Europeia (UE), parceiros de aliança militar na Otan.

Em discurso no Fórum Econômico Mundial, o presidente americano disse que não pretende usar a força para anexar o território, chamou a Dinamarca de "ingrata", minimizou a questão como um "pequeno pedido" e argumentou que uma aquisição não representaria uma ameaça à Otan - que, segundo ele, custa muito para Washington e oferece pouco retorno.

O discurso foi salpicado de outras críticas ao continente. O presidente americano disse que a Europa "não está indo na direção certa", que seu foco em energias renováveis é equivocado e que "a migração em massa feriu" os países europeus.

Horas depois veio o recuo: após um "encontro muito produtivo" com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, Trump disse que ambos definiram "o quadro geral de um futuro acordo em relação à Groenlândia" e que, diante disso, as novas tarifas comerciais aos aliados europeus estavam canceladas.

Abalo à noção de Ocidente

A fala de Trump não trouxe grandes novidades em relação ao que ele e seus assessores já vinham dizendo sobre a Europa. Em fevereiro de 2025, no início do segundo mandato do republicano, seu vice, JD Vance, já fizera duras críticas à Europa num discurso de teor semelhante na Conferência de Segurança de Munique.

Mas a insistência em anexar a Groenlândia, território da aliada Dinamarca, é um forte abalo à própria noção de Ocidente, afirma à DW o professor de relações internacionais Vinicius Vieira, da FAAP, e representa "o potencial fim de uma categoria política que, para o bem ou para o mal, serviu de baliza para uma série de decisões internacionais até mesmo antes da Segunda Guerra Mundial".

"A noção de Ocidente como um bloco único de superioridade em relação ao mundo fez com que houvesse uma espécie de unidade político-cultural" entre Estados Unidos, de um lado do Atlântico Norte, e os países europeus, do outro. Agora, a política externa de Trump trata a Europa, "na prática, como um quintal dos Estados Unidos, tal como ironicamente os Estados Unidos sempre fizeram com a América Latina", diz Vieira.

Ele vê a possível emergência de uma "nova era", na qual a Europa deixaria de ser vista como uma parceira estratégica dos Estados Unidos e estaria numa posição de subordinação. "De qualquer forma, será um mundo novo, porque a Europa, que sempre foi um exemplo de direitos humanos, de direitos sociais, terá menos recursos para isso porque vai precisar se rearmar."

Ao tratar a aquisição de um território autônomo pertencente a um país europeu como algo legítimo, ainda que sob a retórica da compra, Trump rompe abertamente com princípios centrais das relações transatlânticas, reforça a pesquisadora Neusa Bojikian, da Unicamp e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).

Segundo ela, isso é particularmente preocupante para a Europa, que por um bom tempo "se apoiou justamente na defesa de que regras, instituições e interdependência econômica funcionariam como amortecedores de conflitos e aplacariam os arroubos de determinados governantes voluntariosos e as clássicas investidas de política de poder duro".

Bojikian ressalta que essa era uma realidade já conhecida de muitos países e regiões, mas não dos europeus continentais, do Reino Unido, do Canadá, que eram os principais aliados e pareciam estar seguros de sua inviolabilidade territorial. "Agora esses aliados históricos estão testemunhando, de forma dura, que as regras estão sendo aplicadas de maneira seletiva e que nenhum país está resguardado com base no direito internacional."

Palco para a extrema direita

Quando Trump critica o pesado investimento feito pela Europa em energias renováveis e diz que o continente foi "ferido" pela migração, Vieira pontua que ele está dando vazão a posições racistas da extrema direita mundial, inclusive da europeia, que acredita na teoria da conspiração da "grande substituição" da população branca cristã por estrangeiros, em especial muçulmanos.

O especialista considera que o presidente americano possa estar interessado, na verdade, em desmantelar a União Europeia, ou qualquer unidade europeia, e estabelecer laços com políticos e governos mais alinhados aos seus interesses.

Ao atacar a transição energética europeia, Trump também tenta desqualificar a agenda climática como pilar da governança global, acrescenta Bojikian. "Para um continente que tenta conciliar urgentemente crescimento econômico, sustentabilidade e segurança energética, esse tipo de ataque atua como fator desestabilização", diz.

Riscos para o Brasil

A disposição de Trump de fazer bullying com a Europa, um aliado tradicional dos Estados Unidos, para obter a Groenlândia envia um sinal ruim também para outros aliados, como o Brasil, ou qualquer outro país rico em recursos naturais ou com territórios de valor geopolítico estratégico, avalia Vieira.

Essa percepção é reforçada pela nova estratégia de segurança dos EUA para o Hemisfério Ocidental - que inclui o aumento da presença militar dos EUA e a disposição de realizar operações com uso de força militar, como a que capturou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, no início do ano.

Vieira diz que, em meios militares brasileiros, circulam temores relacionados às ilhas marítimas brasileiras - incluindo Fernando de Noronha - e à Base Aérea de Natal, no Rio Grande do Norte, construída em parceria com os EUA e usada pelos Aliados durante a Segunda Guerra. "Algo que seria muito fácil num [futuro] governo de direita, mais próximo à visão de mundo do Trump", observa.

Vieira lembra que, durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham planos para ocupar partes do Nordeste e do Norte brasileiros para assegurar o fornecimento de borracha.

A revalorização explícita das zonas de influência, como fizeram os Estados Unidos em relação à América Latina em sua nova estratégia de segurança, estimula temores como esses.

Ao mesmo tempo reduz a margem de manobra de países como o Brasil para adotar estratégias de desenvolvimento que combinem crescimento econômico, inclusão social e transição ecológica, afirma Bojikian, do INCT-INEU.

Efeito positivo para o Mercosul

Por outro lado, Bojikian avalia que as ameaças de Trump contra a Europa funcionam como um choque externo para os governos europeus e os forçam a buscar alternativas para reduzir sua vulnerabilidade estratégica. "Por exemplo retomando o acordo com o Mercosul" como parte de uma estratégia defensiva de diversificação de parceiros, diz.

De fato, em entrevista à DW, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, não se furtou de agradecer a Trump pelo acordo entre o Mercosul e a UE. "Um grande agradecimento ao presidente Trump, é claro, porque ele veio com essa nova agenda sobre tarifas, o que assustou muitos países europeus. Então, eles acharam que seria bom assinar um acordo com outras regiões", disse Peña à DW em Assunção, no dia da assinatura do acordo.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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