As lições sobre a fome no Haiti que o Brasil e o mundo não podem ignorar
Caso do país caribenho revela como a violência organizada passa a regular o acesso à comida quando o Estado perde o controle efetivo do território — uma dinâmica extrema, mas instrutiva, para países como o Brasil
A expansão de gangues armadas no Haiti, entre 2021 e 2025, transformou a insegurança alimentar crônica do país em risco permanente de fome. Mais do que uma crise humanitária convencional, o caso haitiano revela como a violência organizada passa a regular o acesso à comida quando o Estado perde o controle efetivo do território — uma dinâmica extrema, mas instrutiva, para países como o Brasil.
Segundo avaliações conjuntas do Programa Mundial de Alimentos (WFP) e do sistema IPC - Integrated Food Security Phase Classification, em 2024 e 2025, mais da metade da população do país, o que equivale a mais de 5,7 milhões de haitianos, enfrentava insegurança alimentar aguda. Desse total, cerca de 2 milhões de pessoas encontravam-se na Fase 4 do IPC (Emergência), categoria que indica déficits severos de consumo alimentar, níveis elevados de desnutrição aguda, adoção de estratégias extremas de sobrevivência e risco significativo de mortalidade na ausência de assistência humanitária imediata e contínua.
A crise humanitária no Haiti não pode ser interpretada como um episódio excepcional nem como uma sucessão de emergências pontuais. Trata-se de um processo estrutural e cumulativo, construído ao longo de décadas por pobreza persistente, instabilidade política crônica, choques ambientais recorrentes e uma capacidade estatal historicamente limitada. Esses fatores produziram ciclos de vulnerabilidade social que raramente foram interrompidos de forma sustentável, criando uma sociedade permanentemente exposta a choques e com baixa capacidade de recuperação, como evidenciam os dados consolidados do Banco Mundial.
Vácuo de governança
Esse quadro estrutural entrou em uma fase qualitativamente distinta após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021. O evento aprofundou de forma decisiva o vácuo político e acelerou o colapso das já frágeis estruturas de autoridade. A partir de então, a ausência de coordenação institucional deixou de ser apenas um problema de governança e passou a se manifestar de maneira concreta no cotidiano da população, abrindo espaço para a degradação generalizada da segurança pública.
O vazio institucional passou a se expressar por meio do fechamento intermitente de portos e aeroportos, da paralisação de fluxos essenciais e de bloqueios sistemáticos a comboios humanitários, comprometendo o funcionamento mínimo do Estado e a resposta à emergência alimentar. A ausência de um poder central efetivo deixou de ser um fenômeno abstrato e passou a estruturar materialmente as condições de sobrevivência da população.
Nesse contexto, o colapso da autoridade estatal criou uma ausência de governança rapidamente ocupada por grupos armados, que foram capazes de exercer controle territorial, impor regras próprias e regular o acesso a bens essenciais. Relatórios publicados em 2025 pelas Nações Unidas e pela Human Rights Watch indicam que grupos criminosos organizados passaram a exercer controle quase total sobre a capital, com estimativas de que cerca de 90% de Porto Príncipe esteja sob seu domínio, ao mesmo tempo em que continuam a se expandir ao longo de regiões estratégicas e áreas de fronteira.
A consolidação territorial dessas gangues não apenas agravou os níveis de violência, mas redefiniu os próprios mecanismos de sobrevivência social. A fome, antes explicada sobretudo por fatores econômicos e estruturais, passou a ser diretamente condicionada pelo domínio armado sobre territórios e populações e pela restrição sistemática do acesso humanitário. Nesse cenário, o acesso à alimentação deixou de depender prioritariamente da renda ou da disponibilidade agregada de alimentos e passou a ser mediado pela coerção, pelo controle local e pela insegurança crônica.
Os riscos da fragmentação territorial
A atuação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC), do International Rescue Committee (IRC), da UNICEF e do WFP foi decisiva para evitar um colapso ainda maior e preservar milhões de vidas. Ainda assim, o próprio funcionamento dessas organizações revela limites estruturais. Na ausência de condições mínimas de segurança e autoridade estatal, a ação humanitária consegue mitigar os efeitos mais extremos da crise, mas não estabiliza o território nem converte respostas emergenciais em trajetórias sustentáveis de recuperação.
O caso haitiano evidencia, assim, um dilema central da governança humanitária em contextos de violência prolongada. Quando o Estado se ausenta, a assistência humanitária passa a operar em um espaço paradoxal: ao mesmo tempo em que evita o colapso absoluto, funciona como substituto parcial — e sempre precário — de funções que deveriam ser públicas. Esse arranjo pode conter a fome no curto prazo, mas não enfrenta as causas políticas e territoriais que a produzem.
Do ponto de vista brasileiro, essa constatação é particularmente incômoda. O Brasil também convive com desigualdade estrutural, forte segregação socioespacial e a presença crescente de grupos armados em determinados territórios urbanos e periurbanos. Dados divulgados pela Agência Brasil indicam a expansão de facções criminosas em cidades médias e regiões periféricas, com impactos crescentes sobre a governança local e a regulação cotidiana da vida social.
Até o momento, essas dinâmicas não resultaram na substituição aberta e generalizada da autoridade estatal observada no Haiti. Instituições públicas, políticas sociais e sistemas de justiça continuam operando como barreiras — ainda que imperfeitas — contra a fragmentação total do território. Justamente por isso, a comparação não deve ser lida como equivalência, mas como alerta preventivo.
A experiência haitiana demonstra, de forma extrema, como a erosão prolongada da autoridade estatal permite que a violência se torne o principal regulador do acesso à comida, à saúde e à sobrevivência. Para países como o Brasil, a principal lição não está na reprodução do cenário, mas na sua antecipação: fortalecer instituições, preservar a capacidade estatal e sustentar políticas sociais eficazes continuam sendo a linha mais sólida de defesa contra a normalização da fome em contextos de violência crônica.
Além de professor de Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo - FESP-SP, Alexandre Ramos Coelho é Coordenador do Núcleo de Geopolítica da think tank brasileira Observa China, que não possui fins lucrativos e também não é patrocinada por qualquer órgão político ou representativo da China.