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Alice Ferraz: A imagem de um casamento

28 jan 2023 - 08h13
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Estou casada há 16 anos e há 12 trabalhamos na mesma empresa. Todos os dias estamos juntos em casa e no trabalho e esse desafio fez com que tivéssemos que desenvolver um olhar multifacetado no desenvolvimento da nossa relação. No começo foi difícil entender que meu marido, um homem sensível que em casa me chama carinhosamente de Mima, era um homem que se mostrava frio, quase indiferente à minha presença em reuniões na empresa.

Foi dificílimo para ele conseguir também equilibrar a visão da mulher doce que ama jardins, o tempo ocioso e as leituras de romances com a figura da executiva com respostas assertivas e com agilidade para "vencer" a cada mês a planilha de metas da empresa. Quando me perguntam como conseguimos continuar casados e felizes, sinceramente não sei a resposta, mas diria que sim, conseguimos.

Até que chegamos ao final de 2022, um ano em que a dupla profissional se mostrou imbatível nos resultados, mas o casal estava esgotado. Tive medo de ter esquecido a fórmula mágica. O ano tinha nos desafiado, chacoalhando certezas e abalando alicerces que ingenuamente pensamos serem indestrutíveis. Estávamos emocionalmente exaustos há meses, cumprindo tarefas sem nos reconhecermos mais.

Semana passada em uma decisão conjunta de que nada mais poderia ser dito ou feito sobre o ano que vivemos, embarcarmos para um destino inusitado para um casal nessa situação, uma praia deserta. A ideia óbvia e não dita por nenhum dos dois era de que se conseguíssemos nos reconhecer em um ambiente sem interferências profissionais, poderíamos resgatar um amor ainda presente.

Em dias de sol e mar estávamos os dois, sob olhares atentos e uma observação criteriosa. Do meu lado, sair dali negando toda a frustração e reencontrando meu marido, minha projeção ideal, era minha meta infantil. A vida tinha planos mais ousados e os dias se cobriram de um lusco-fusco onde nada era claro e deveria ser delicadamente descoberto, abrindo a possibilidade de não se saber tudo sobre o outro, mesmo esse outro sendo tão próximo como marido e mulher.

Descobri tardiamente que ter a expectativa de que seu par vai representar o tal papel idealizado é um dos maiores e mais comuns erros de um casamento. O amor e o contato íntimo nos torna vulneráveis como deve ser e, assim, seremos magoados, teremos decepções, mas isso não necessariamente transforma o outro em um traidor, talvez ele só esteja traindo a própria imagem que projetamos.

Estadão
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