Afeganistão: 2,4 milhões de meninas sem escola sob o Talibã
Cinco anos após o retorno do Talibã ao poder, cresce número de meninas afegãs proibidas de frequentar a educação secundária. Unesco alerta para consequências sociais e econômicas duradouras.Cerca de 2,4 milhões de meninas no Afeganistão foram privadas do acesso à educação secundária desde que o Talibã voltou ao poder em agosto de 2021, informou a Unesco nesta terça-feira (12/08).
O número aumentou em aproximadamente 200 mil desde o ano passado e pode chegar a quase quatro milhões até 2030 se a proibição continuar em vigor.
"O Afeganistão continua sendo o único país do mundo onde meninas e mulheres são formalmente proibidas de frequentar o ensino secundário e superior", afirmou Hoda Jaberian, coordenadora de programas da Unesco para educação em situações de emergência.
"Cinco anos não representam uma interrupção temporária na educação de uma criança. Isso equivale claramente a quase todo um ciclo do ensino secundário."
Por que o Talibã proibiu as meninas de estudar no Afeganistão?
O Talibã tomou o poder em 15 de agosto de 2021, enquanto as forças dos Estados Unidos e da Otan se retiravam após duas décadas de guerra.
Inicialmente, eles haviam garantido à comunidade internacional que mulheres poderiam continuar estudando.
Mas em março de 2022, as escolas secundárias foram fechadas para as meninas - e em dezembro do mesmo ano, as mulheres foram proibidas de frequentar universidades.
O Talibã descreveu ambas as medidas como temporárias, mas elas continuam em vigor.
As autoridades afirmam respeitar os direitos das mulheres de acordo com sua interpretação da lei islâmica e da cultura afegã. Também insistem que a questão é um assunto interno do país.
As restrições vão muito além da educação. As mulheres enfrentam limitações ao emprego e à liberdade de circulação e foram proibidas de frequentar parques públicos, academias e salões de beleza.
A ONU descreveu o conjunto mais amplo dessas restrições como um "apartheid de gênero". A Rússia é o único país a reconhecer formalmente a administração do Talibã.
Cinco anos de retrocesso na educação das meninas
A Unesco afirma que as restrições reverteram duas décadas de progresso.
As meninas tinham acesso muito limitado à educação em 2001. Vinte anos depois, em 2021, quase um milhão estavam matriculadas no ensino secundário.
"O Afeganistão havia alcançado avanços realmente significativos na ampliação do acesso das meninas à educação", disse Jaberian. "Mas, infelizmente, grande parte desse progresso agora foi completamente revertido."
A Unesco pediu o restabelecimento imediato e incondicional do direito de meninas e mulheres à educação secundária e superior.
A agência continua apoiando a educação comunitária, bem como programas de alfabetização e capacitação, frequentemente realizados em espaços comunitários ou nas casas dos facilitadores.
Os efeitos da exclusão feminina sobre a economia afegã
A Unesco estima que a exclusão das mulheres da educação secundária e superior poderá afastar cerca de 600 mil mulheres do mercado de trabalho até 2066.
As restrições também poderão causar perdas acumuladas de renda de 9,6 bilhões de dólares e aumentar o risco de casamentos precoces.
A proibição também agrava a escassez de professoras: segundo estimativas da Unesco, o Afeganistão deverá enfrentar um déficit de mais de 11 mil professoras qualificadas até 2030.
"Muitas professoras deixaram o país, e aquelas que estavam no sistema foram proibidas de continuar lecionando", afirmou Jaberian.
Ela acrescentou que as restrições às mulheres que ensinam meninos fizeram com que alguns alunos passassem a ter professores homens sem qualificação adequada ou, em alguns casos, não tivessem professores.
Qual é a gravidade da crise educacional no Afeganistão?
O sistema educacional afegão enfrenta problemas muito além da proibição imposta às meninas.
Mais de dois milhões de crianças em idade de frequentar o ensino primário já estão fora da escola por outros motivos. Mais de 90% das crianças de 10 anos não conseguem ler um texto simples, enquanto a taxa nacional de alfabetização é de 37%.
Muitas escolas estão superlotadas e mal equipadas. Quase metade delas não dispõe de água, saneamento básico ou aquecimento.
O sistema também sofre pressão devido ao retorno de pessoas ao Afeganistão.
Três milhões de pessoas retornaram ao país apenas em 2025, de forma voluntária ou forçada. Mais de sete milhões retornaram voluntariamente ou foram obrigadas a voltar desde 2023.
Os desastres naturais agravaram ainda mais a crise. Terremotos, enchentes e outros eventos forçaram o fechamento de cerca de mil escolas desde 2021, informou a Unesco.
ip (Rts, AP, AFP)
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