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A trajetória de Nossa Senhora Aparecida, da pesca ao título de padroeira do Brasil

30 set 2026 - 11h00
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Resumo
Encontrada no rio Paraíba em 1717 por três pescadores, a imagem de Nossa Senhora Aparecida reuniu fiéis após relatos de milagres e pesca abundante. A devoção popular motivou a construção de capelas e atraiu a família imperial, até a consagração oficial da santa como padroeira do Brasil em 1931. Marcada por restauração após um atentado em 1978 e por usos políticos, sua história culminou no Santuário Nacional, que celebra em 12 de outubro o símbolo máximo do catolicismo brasileiro.

Encontrada por pescadores no rio Paraíba em 1717, a imagem acumulou relatos de milagres, atraiu multidões de fiéis e foi proclamada padroeira do país em 1931.Em meados de outubro de 1717, os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso lançaram suas redes no rio Paraíba, na região de Guaratinguetá, no interior de São Paulo. A ocasião era a chegada do governador das capitanias de São Paulo e Minas Gerais, o Conde de Assumar, recém-nomeado em Lisboa, que passaria pelo município a caminho de Vila Rica, atual Ouro Preto.

Imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada em 1717
Imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada em 1717
Foto: DW / Deutsche Welle

A Câmara de Guaratinguetá convocara os pescadores da região. Após várias tentativas frustradas, João Alves retirou de uma de suas redes o corpo de uma imagem de Nossa Senhora. Ao lançar novamente a rede mais abaixo, encontrou a cabeça da mesma imagem, uma pequena escultura negra de origem desconhecida.

Trezentos e nove anos depois, a imagem que se tornou padroeira do Brasil virou objeto de disputa política entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

Alheios ao destino da santa, os pescadores espalharam à época pela região o relato de que, após o encontro da imagem, as redes passaram a vir carregadas de peixes, apesar da escassez típica daquele período do ano. O próprio nome do rio Paraíba, derivado do tupi "para'iwa", é associado a um rio de difícil navegação.

O que dizem os documentos

O caminho que levou aquela imagem ao status de santa brasileira mistura relatos históricos e a fé de seus devotos. O encontro entre os pescadores e a imagem, porém, está registrado em documentos da Igreja. A folha 98 do 1º Livro do Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá, escrita pelo padre João de Morais e Aguiar, narra as tentativas frustradas de pesca até o momento em que João Alves lança sua rede de arrasto e "tira o corpo da Senhora, sem a cabeça".

O texto de João de Morais e Aguiar é datado de 1757. Ele se baseia em relatos anteriores do padre José Alves Vilela, vigário de Guaratinguetá, que escreveu oito anos após o encontro da imagem e registrou informações transmitidas pela comunidade. Os documentos sobre a história estão preservados no acervo da Cúria Metropolitana de Aparecida e foram divulgados pela Rede Aparecida. Os nomes dos três pescadores também aparecem em registros paroquiais de batismo.

Na época, era comum que bandeirantes, sertanistas e missionários carregassem imagens de Maria, especialmente durante a corrida do ouro e a expansão dos caminhos entre São Paulo e Minas Gerais. Foi nesse contexto que o Conde de Assumar foi nomeado governador e passou por Guaratinguetá em 17 de outubro de 1717. Os relatos da passagem do governador, porém, não registram o encontro da imagem.

Outro manuscrito da época guardado pela Cúria, Acontecimentos extraordinários referentes à Imagem, relata que João Alves levou a imagem para a casa de sua mãe, Silvana Alves da Rocha, após o encontro. Segundo o documento, João deixou "a Imagem em poder da mãe Silvana", que uniu os pedaços e a guardou em uma caixa de madeira.

O mesmo texto conta que os pescadores partiram do Porto de José Corrêa Leite e que a imagem foi encontrada na região do Porto Itaguaçu, cerca de 7 quilômetros rio abaixo.

Da casa dos pescadores à primeira capela

Os relatos sobre a primeira morada da imagem divergem, mas, segundo o Padre Valdivino Guimarães, em artigo publicado em O São Paulo, é certo que ela foi colada por Silvana da Rocha com cera, colocada em uma caixa e eventualmente levada para a casa do pescador Filipe Pedroso, tio de João Alves. Ali, famílias da região passaram a se reunir para rezar o terço.

O livro Acontecimentos extraordinários narra também um episódio em que Silvana da Rocha entrou no casebre para reacender velas apagadas por uma ventania. Segundo o relato, antes que ela chegasse, as velas teriam se acendido sozinhas. Os fiéis reunidos ali interpretaram o episódio como um milagre.

Foi nesses círculos de oração que a imagem passou a ser chamada de "Aparecida", em referência à forma como havia sido encontrada. As notícias dos acontecimentos considerados milagrosos logo se espalharam pela região.

Em 1732, Filipe Pedroso entregou a imagem a seu filho, Atanásio Pedroso, que abriu o primeiro oratório aos fiéis. O padre José Alves Vilela tomou conhecimento da crescente devoção e, em 1740, construiu uma pequena capela. Três anos depois, pediu ao bispo do Rio de Janeiro, dom Frei João da Cruz, autorização para erguer uma igreja em louvor à imagem, então conhecida como Mãe Aparecida, narra o site do Santuário Nacional.

A igreja foi construída no Morro dos Coqueiros e deu origem a um santuário. O povoado ao redor ficou conhecido como Capela de Aparecida e se desenvolveu onde hoje está a cidade de Aparecida. Em 25 de julho de 1745, a imagem foi levada em procissão para a nova igreja. No dia seguinte, ocorreram a bênção e a primeira missa. Construído em taipa de pilão, o santuário passou por reformas e ampliações ao longo dos anos. Em 1844, diante do crescimento da devoção e do número de peregrinos, foi decidida a construção de um novo templo.

Milagres e visitas imperiais

Os anos entre a construção da primeira capela e o início da renovação fortaleceram a devoção à santa. Entre os milagres atribuídos a ela está o de Zacarias, um homem escravizado que retornava acorrentado com seu feitor para a fazenda de onde havia fugido. Ao passar pelo Santuário, segundo a tradição, suas correntes teriam se soltado.

Outro relato fala de um cavaleiro que zombava dos devotos de Nossa Senhora e que, certo dia, tentou entrar na igreja montado. Também segundo a tradição, as patas do cavalo ficaram presas no primeiro degrau da escadaria.

As histórias de devoção se multiplicaram. Em 1822, pouco mais de duas semanas antes da Proclamação da Independência, dom Pedro, então príncipe regente, passou pela região, rezou diante da imagem e prometeu consagrar o Brasil à Virgem. Segundo registros da rede Aparecida, dom Pedro 2º e a imperatriz Teresa Cristina também estiveram no local em duas ocasiões.

Na mesma época, novos milagres passaram a ser atribuídos à imagem, como o salvamento de um menino de três anos que caiu no rio Paraíba, em 1862, e a cura da cegueira de uma menina, em 1874. Esses relatos passaram a integrar a tradição de milagres associados à devoção a Nossa Senhora Aparecida.

Em 1868, a festa de Nossa Senhora Aparecida recebeu a princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro. Ela visitou a imagem em 8 de dezembro e ofereceu um manto azul de veludo ornado com 21 brilhantes, representando as 20 províncias do Império e a capital.

A princesa voltou em 1884, acompanhada do marido e dos três filhos, e levou à imagem uma coroa de ouro de 24 quilates, com 300 gramas e cravejada de brilhantes.

Quatro anos depois, em 1888, foi inaugurada a nova igreja, conhecida como Igreja de Monte Carmelo e hoje chamada de Basílica Histórica. A construção havia começado décadas antes, quando a antiga capela se tornou insuficiente para acolher o número crescente de romeiros.

Rainha e padroeira

Em 1901, surgiu a proposta de coroar oficialmente a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A iniciativa foi inspirada por dom Joaquim Arcoverde, então arcebispo do Rio de Janeiro e primeiro cardeal brasileiro, durante a Primeira Conferência dos Bispos da Província Meridional do Brasil, em São Paulo. O pedido foi depois aceito pelo papa Pio 10º.

A cerimônia ocorreu em setembro de 1904, no Santuário de Aparecida. Cerca de 15 mil pessoas, 12 bispos e centenas de sacerdotes participaram. A imagem foi coroada com a coroa de ouro oferecida pela princesa Isabel.

A coroação consolidou a devoção nacional à imagem, mas ainda não significava seu reconhecimento oficial como padroeira do Brasil. Esse título ganharia espaço em 1929, durante o Congresso Mariano realizado em Aparecida. Dom Sebastião Leme, então líder do episcopado brasileiro, propôs pedir à Santa Sé que declarasse Nossa Senhora Aparecida padroeira do país. O pedido foi aprovado pelo papa Pio 11 em julho de 1930.

A proclamação oficial ocorreu em 31 de maio de 1931, no Rio de Janeiro. A imagem foi levada de Aparecida em um trem especial, na primeira saída do Santuário desde 1889.

Uma data por convenção

A festa da padroeira foi inicialmente fixada em 7 de setembro. As informações são do Santuário Nacional, mas, em 1953, a CNBB definiu o 12 de outubro como data oficial da celebração. A data é uma convenção: pesquisas e relatos da época permitiram estabelecer apenas que o encontro se deu em meados de outubro. A precisão sobre a passagem do Conde por Guaratinguetá só veio com a descoberta de um documento no Arquivo de Lisboa.

Dois anos depois, em 1955, começaram as obras do atual Santuário Nacional.

Já às vésperas do golpe de 1964, a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi mobilizada por grupos conservadores contra o governo João Goulart. Nos primeiros anos da ditadura, a identificação dos militares com a padroeira e a atuação dos padres redentoristas no Santuário expressaram a boa convivência do regime com parte da Igreja.

O atentado à imagem

Em 16 de maio de 1978, o jovem Rogério Marcos de Oliveira, então com 19 anos, foi ao Santuário de Aparecida durante a noite. Ele conseguiu quebrar o vidro do nicho e retirar a imagem. Ao ser surpreendido por um segurança, deixou-a cair. A escultura se partiu em mais de 200 pedaços.

Os fragmentos foram levados ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde a restauradora Maria Helena Chartuni trabalhou para reconstruir a imagem. Ela retornou ao Santuário em 19 de agosto, em um carro aberto do Corpo de Bombeiros, e foi recebida por uma multidão que aguardava nos arredores do templo e ao longo da rodovia Presidente Dutra.

Quatro anos depois, em 3 de outubro de 1982, a imagem foi transferida para a nova basílica, que desde então funciona em definitivo como Santuário Nacional.

gq/cn (OTS)

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