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A saga científica por um chocolate que derreta na sua boca, mas não na sua bolsa

A ciência desenvolveu várias estratégias para produzir um chocolate que não perca sua consistência quando exposto ao calor

24 jul 2026 - 12h34
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Fabricação de chocolates resistentes ao calor seguem três estratégias complementares, que incluem modificação dos açúcares, substituição das gorduras e uso de aditivos específicos SviatlanaLaza/Shutterstock
Fabricação de chocolates resistentes ao calor seguem três estratégias complementares, que incluem modificação dos açúcares, substituição das gorduras e uso de aditivos específicos SviatlanaLaza/Shutterstock
Foto: The Conversation

Poucas experiências são tão agradáveis quanto deixar um pedaço de chocolate derreter lentamente na boca. Essa capacidade de derreter a uma temperatura próxima à do corpo é uma das características que tornam o chocolate um alimento único e muito apreciado.

Essa mesma propriedade, no entanto, faz com que ele amoleça e se deforme facilmente quando a temperatura ambiente aumenta, dificultando seu transporte e armazenamento em climas quentes. Para superar essa limitação, a indústria alimentícia desenvolveu várias estratégias que permitem a fabricação de chocolates resistentes ao calor.

Mas para entender como isso é feito é preciso primeiro saber como o chocolate é produzido e qual o papel que a manteiga de cacau desempenha em suas propriedades físicas.

Fruto do Theobroma cacao nnattalli/Shutterstock
Fruto do Theobroma cacao nnattalli/Shutterstock
Foto: The Conversation

O chocolate é feito a partir das sementes da árvore do cacau (Theobroma cacao), nativa das florestas tropicais da Bacia Amazônica, cujas vagens contêm entre 20 e 60 sementes envoltas por uma polpa rica em açúcares.

Após a colheita, os grãos passam por um processo de fermentação, durante o qual leveduras e bactérias transformam a polpa e desencadeiam reações bioquímicas que geram os precursores do aroma e sabor característicos do chocolate. Em seguida, os grãos são secos para reduzir seu teor de umidade e torrados, o que promove a reação de Maillard, responsável pela formação de inúmeros compostos aromáticos.

Foto: The Conversation
Grãos de cacau torrados.Parilov/Shutterstock

O processo de fabricação do chocolate propriamente dito então começa. Os grãos torrados são moídos para obter a massa de cacau ou licor, a partir da qual, por prensagem a quente, é possível separar a manteiga de cacau e o cacau em pó.

Para o chocolate amargo, a massa é misturada com manteiga de cacau e açúcar, enquanto que, para outros tipos de chocolate, também são adicionados leite e outros ingredientes. Após o refinamento, a mistura passa pela chamada conchagem, um processo prolongado de aquecimento e amassamento que reduz sua umidade, remove compostos voláteis indesejáveis e garante que as partículas sólidas de cacau e açúcar sejam completamente revestidas pela manteiga de cacau, o que confere ao chocolate sua textura cremosa.

O que são as manchas brancas que aparecem no chocolate?

A etapa final é a têmpera, um processo controlado de aquecimento e resfriamento que permite que a manteiga de cacau se cristalize em sua forma mais estável (conhecida como "forma V"). Essa estrutura confere ao chocolate brilho, dureza, uma quebra limpa e um ponto de fusão próximo a 34°C, muito semelhante à temperatura corporal.

Se a manteiga de cacau cristalizar em qualquer outra forma polimórfica, o chocolate perde seu brilho, sua textura se altera e pode surgir o chamado bloom de gordura, um branqueamento superficial causado pela migração e recristalização da gordura.

É justamente essa propriedade que faz com que o chocolate derreta agradavelmente na boca que também faz com que ele derreta facilmente quando a temperatura ambiente aumenta.

Como é feito o chocolate resistente ao calor?

Para resolver esse problema, a indústria de alimentos e a ciência dos materiais desenvolveram os chamados "chocolates resistentes ao calor", capazes de manter sua forma em temperaturas entre 38 e 45°C, e até mais altas em algumas formulações experimentais.

Atualmente, as principais pesquisas sobre a fabricação de chocolates resistentes ao calor seguem três estratégias complementares:

1. Açúcares

A primeira é a modificação da microestrutura do açúcar, que consiste em reforçar a estrutura interna do chocolate por meio da incorporação de quantidades muito pequenas de água ou de compostos hidrofílicos, como glicerol ou sorbitol.

Estes aditivos provocam a dissolução parcial das partículas de açúcar e permitem que elas se unam entre si, formando uma rede tridimensional rígida (rede de açúcar). Essa rede atua como um verdadeiro esqueleto interno, capaz de manter as partículas sólidas unidas e imobilizar a gordura líquida derretida, além de impedir que o chocolate perca sua forma.

A principal desvantagem é que a adição de água deve ser controlada com enorme precisão, pois pequenas variações podem alterar a viscosidade do chocolate ou promover o aparecimento de bloom de açúcar, um defeito superficial causado pela recristalização do açúcar.

2. Gorduras

Outra estratégia consiste em modificar a composição da fase gordurosa para aumentar o ponto de fusão do chocolate, com duas estratégias diferentes: a substituição parcial da manteiga de cacau ou a incorporação de aditivos.

A substituição parcial da manteiga de cacau pode ser feita com dois tipos de gorduras vegetais: CBEs (cocoa butter equivalents, ou equivalentes à manteiga de cacau, na sigla em inglês) ou gorduras como a manteiga de karité, o óleo de palma ou a gordura do caroço de manga. Estas gorduras vegetais têm uma composição química muito semelhante à original e não alteram as propriedades do chocolate. Outra opção da os CBS (cocoa butter substitutes, ou substitutos da manteiga de cacau, também na sigla em inglês), que são gorduras hidrogenadas derivadas do coco ou do caroço de palma. Embora imitem as propriedades físicas da manteiga de cacau, sua compatibilidade é menor, o que exige um reajuste da receita do chocolate.

3. Aditivos

Outra opção é incorporação de aditivos específicos e sistemas estruturantes. Em primeiro lugar estão os CBIs (cocoa butter improvers, melhoradores de manteiga de cacau), que modificam o comportamento da fase lipídica e reduzem o "bloom de gorduta". Eles são obtidos por fracionamento (separação das gorduras de acordo com seu ponto de fusão) ou interesterificação (química e enzimática), que reorganiza os ácidos graxos dentro dos triglicerídeos para aumentar a proporção de moléculas com maior estabilidade térmica. Em excesso, porém, estes aditivosd podem endurecer o chocolate e deixar uma sensação cerosa na boca.

Outros aditivos são os oleogéis e os bigéis: materiais estruturados capazes de imobilizar óleos vegetais por meio de agentes gelificantes. Eles podem substituir parcial ou totalmente a manteiga de cacau, aumentando assim a estabilidade térmica do produto e impedindo que ele derreta.

Mesmos ingredientes, processos diferentes

A estratégia mais recente proposta pela ciência, no entanto, é a modificação do processo de fabricação. Essa estratégia não altera os ingredientes, mas sim a forma como o chocolate é produzido. Vários estudos demonstraram que pequenas variações na microestrutura podem melhorar significativamente a resistência do chocolate ao calor.

A otimização dos processos de refino e conchagem permite a produção de partículas sólidas de tamanho muito uniforme, que são revestidas de forma mais eficiente com manteiga de cacau. Isso promove uma microestrutura mais compacta e estável, capaz de manter sua forma mesmo quando parte da gordura começa a derreter.

Existem também métodos baseados na deformação mecânica da massa de chocolate. Um exemplo disso é o conhecido Cadbury Flake, cuja estrutura interna consiste em múltiplas camadas finas de gordura e minúsculas bolhas de ar geradas durante o dobramento e o estiramento da massa. Esse arranjo dificulta a propagação do calor e retarda o amolecimento do produto, embora o objetivo original de sua criação fosse obter uma textura característica, e não desenvolver um chocolate resistente ao calor.

Um equilíbrio ainda difícil de alcançar

Apesar dos avanços significativos alcançados nas últimas décadas, ainda não existe um chocolate resistente ao calor que reproduza totalmente as propriedades do chocolate convencional. O aumento da estabilidade térmica geralmente é acompanhado por alterações na textura, na velocidade de derretimento, na liberação de compostos aromáticos ou na percepção sensorial. Além disso, algumas formulações podem promover defeitos, como a cristalização do açúcar, ou deixar de cumprir a legislação que rege a composição legal do chocolate em determinados países.

Foto: The Conversation
BlueRingMedia/Shutterstock

Portanto, o objetivo das pesquisas atuais não é apenas evitar que o chocolate derreta durante o armazenamento ou o transporte, mas também preservar seu brilho, textura, aroma e, acima de tudo, sua capacidade de derreter suavemente na boca — qualidades que tornaram o chocolate um dos alimentos mais apreciados e amplamente consumidos em todo o mundo.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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