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A crise boliviana é um espelho que em breve poderá refletir o Brasil

A assimetria econômica boliviana — mais sacrifício para os pobres, mais alívio para os ricos — é um padrão recorrente na América Latina, que o país andino atualiza com nitidez perturbadora

21 mai 2026 - 13h24
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Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia no final de 2025 com uma promessa simples e sedutora: capitalismo para todos. Poucos meses antes, mal chegava a 3% nas pesquisas de intenção de voto. Mesmo assim, venceu. Apresentou-se como uma saída razoável ao impasse político entre Evo Morales e Luis Arce, uma figura moderada que prometia estabilidade após anos de turbulência interna no Movimento ao Socialismo.

Meio ano depois, mineiros, camponeses e professores que votaram nele marcham pelas ruas de La Paz exigindo sua renúncia, e ao menos quatro mortes foram documentadas pela Defensoria del Pueblo em confrontos com forças do Estado. O que aconteceu nesse intervalo de tempo diz tanto sobre a Bolívia quanto sobre o Brasil.

Para entender a crise boliviana, é preciso partir de um dado estrutural que Paz não criou, mas também não enfrentou com honestidade política: o país vive desde meados da década passada um processo de esgotamento progressivo de suas reservas de gás natural, principal base da renda estatal durante os governos de Evo Morales. As reservas internacionais do Banco Central, que chegaram a 14 bilhões de dólares no auge do ciclo, estão hoje em torno de 144 milhões. O golpe de Estado de 2019 e a subsequente fratura interna do MAS atrasaram qualquer planejamento consistente de transição econômica. Paz herdou uma crise real — mas respondeu a ela com um receituário que ampliou o problema social sem resolver o estrutural.

Onda inflacionária logo após a posse

Logo após tomar posse,o governo eliminou os subsídios estatais aos combustíveis. O diesel saltou de 3,72 para 9,80 bolivianos, quase o triplo. A gasolina especial subiu 86%.

O resultado foi uma onda inflacionária estimada pelo próprio FMI em 20,7% para 2026, combinada a uma contração econômica de 3%. Ao mesmo tempo, o governo recorreu ao FMI em busca de um empréstimo de US$ 3,3 bilhões e aboliu quatro impostos que incidiam sobre os mais ricos: sobre grandes fortunas, transações financeiras, promoções empresariais e jogos.

No Brasil, o FMI projeta a dívida pública de 98,1% do PIB nos próximos anos e recomenda sistematicamente um ajuste fiscal mais ambicioso, pressionando Brasília a cortar gastos sociais para garantir a sustentabilidade das contas públicas.

A assimetria boliviana — mais sacrifício para os pobres, mais alívio para os ricos — não é uma anomalia regional: é um padrão recorrente que a literatura sobre ajuste estrutural na América Latina documenta desde os anos 1980 e que o caso boliviano atualiza com nitidez perturbadora.

Reclassificação de propriedades rurais foi o estopim

O estopim imediato da insurreição boliviana foi a aprovação da Lei 1720, que permitia reclassificar pequenas propriedades rurais como médias, alterando a estrutura da reforma agrária.

As organizações camponesas a interpretaram como o primeiro passo para reverter conquistas territoriais de duas décadas. Promovida pelo senador e empresário do agronegócio Branko Marinkovic e aprovada em cerimônia com agroindustriais, a lei concentrou em um único ato os temores econômicos, políticos e simbólicos acumulados desde a posse.

Paz a revogou em 13 de maio, mas a demanda das ruas já havia mudado: não se pedia negociação, pedia-se renúncia. No Brasil, a disputa sobre o marco legal do agronegócio, a demarcação de terras indígenas e a regularização fundiária percorre caminhos institucionais distintos — mas a tensão de fundo entre capital agrário e direitos territoriais é estruturalmente a mesma.

Em paralelo às medidas econômicas, o governo Paz tomou decisões de política externa que configuram uma reorientação estratégica acelerada: reintegrou a DEA ao território boliviano, restabeleceu relações diplomáticas com Israel, firmou um acordo sobre o lítio com os Estados Unidos e expandiu a operação da Starlink no país.

Cada decisão comporta justificativas próprias, e é legítimo que um governo soberano redefina suas alianças externas. O que chama atenção é a simultaneidade dessas reorientações — todas nos primeiros seis meses de mandato, todas correspondentes a demandas explícitas de Washington — num país cuja Constituição de 2009 estabelece, no artigo 349, que os recursos naturais são propriedade direta, indivisível e imprescritível do povo boliviano — princípio que o direito internacional consagra, desde a Resolução 1803 da ONU de 1962, como soberania permanente sobre os recursos naturais.

Metais críticos no centro da questão

A disputa sobre o lítio é onde o espelho entre os dois países se torna mais nítido. O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais do mineral (quinta ou sétima, dependendo da fonte), concentrada no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, onde empresas de capital estadunidense, canadense e australiano lideram a corrida pela extração, com investimentos projetados em até 15 bilhões de reais até 2030.

Em resposta a essa pressão, o presidente Lula propôs em julho de 2025, na Cúpula do Mercosul, que a América do Sul processe seus próprios minerais críticos em vez de exportá-los como matéria-prima bruta — uma iniciativa de soberania industrial diretamente oposta ao modelo adotado por Paz na Bolívia.

O contraste entre as duas posturas revela que a questão é simultaneamente política e jurídica: em que condições, sob que escrutínio parlamentar e com que distribuição doméstica de benefícios um Estado pode negociar seus recursos estratégicos sem comprometer a soberania que o direito internacional lhe reconhece.

Investigações jornalísticas bolivianas, a partir de documentos vazados pelo Canal Red no chamado Honduras Gate, identificam indícios de que a campanha de Paz teria contado com o apoio da empresa de consultoria Numen y Parscale, fundada pelo estrategista argentino Fernando Cerimedo e por Brad Parscale, ex-chefe de campanha de Donald Trump.

Tratam-se, por ora, de indícios que aguardam confirmação judicial — mas o papel de Cerimedo em outras democracias da região está bem documentado. De fato, a Polícia Federal brasileira o indiciou formalmente em novembro de 2024 por integrar o núcleo de desinformação na tentativa de golpe de Estado após as eleições presidenciais de 2022, em inquérito supervisionado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A presença das mesmas redes de influência política em Brasília, Buenos Aires e agora La Paz compõe um padrão — caracterizado pelo uso de consultorias digitais transnacionais, granjas de trolls, desinformação eleitoral e compromissos geopolíticos negociados antes da posse — cada vez mais preocupante.

O que está acontecendo nas ruas de La Paz é a resposta de organizações sociais com décadas de história. A Central Obrera Boliviana, fundada em 1952, marcha contra um modelo de governo que prometeu inclusão e entregou exclusão. Para o Brasil, observar essa crise com rigor analítico é um imperativo de autoconsciência política.

Soberania sobre recursos naturais, equidade no ajuste fiscal e transparência nas alianças geopolíticas são exigências éticas e jurídicas que nenhum país latino-americano pode delegar a organismos financeiros internacionais, consultorias de campanha transnacionais ou acordos negociados à margem do Congresso sem comprometer a legitimidade das decisões que, em última instância, pertencem aos seus povos.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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