A corrida das plataformas de vídeo pelo domínio da atenção
TikTok, Instagram e YouTube são projetados para sobrecarregar os circuitos de prazer do cérebro e manter as pessoas assistindo, indica estudo focado nos efeitos desses conteúdos em crianças e adolescentes.Quem nunca se perdeu em vídeos do TikTok, do YouTube Shorts ou em reels do Instagram, até mesmo antes de sair da cama? De repente, minutos se transformam em uma hora de tela, algumas vezes por dia.
Pesquisadores da Universidade de Bayreuth, na Alemanha, examinaram esse fenômeno, com foco em crianças e adolescentes.
A revisão, publicada na revista European Child and Adolescent Psychiatry (publicação científica dedicada à psiquiatria da infância e adolescência), analisou 42 estudos envolvendo quase 30 mil participantes, a maioria adolescentes e jovens adultos.
Os autores investigaram o fenômeno de um ângulo que muitas vezes passa despercebido no debate de saúde pública: o funcionamento das próprias plataformas.
Longe de ser uma TV com tela menor
Os pesquisadores identificaram três características comuns às plataformas de vídeos curtos: a personalização dos algoritmos, a imprevisibilidade da rolagem infinita e a novidade de alternar rapidamente entre diferentes vídeos.
Esses elementos criam um ambiente de mídia diferente da televisão, do vídeo online tradicional ou das redes sociais mais antigas, afirmam.
As plataformas de vídeos curtos funcionam de forma distinta. Os algoritmos selecionam continuamente o conteúdo, os usuários raramente precisam tomar decisões e praticamente não há um ponto natural de parada.
"O TikTok é fundamentalmente diferente da televisão", disse Aza Raskin, cofundador do Center for Humane Technology, à DW. "Do outro lado da tela do TikTok há um supercomputador gigantesco apontado diretamente para o seu cérebro. Ele é treinado com o comportamento de 3 bilhões de outros primatas humanos."
"A economia da atenção é essencialmente uma corrida rumo ao fundo do tronco cerebral", afirmou Raskin. "Se o TikTok não ocupar o seu tempo, o Facebook, o Instagram ou outra plataforma ocuparão."
"Isso desencadeia uma disputa brutal pela atenção humana", acrescentou.
O vai e vem da dopamina
Cientistas sabem há muito tempo que experiências altamente recompensadoras ativam o sistema de recompensa do cérebro. Os vídeos curtos são especialmente eficazes em explorar esse sistema.
Anna Lembke, professora associada de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Stanford e autora do livro Dopamine Nation, disse à DW que os vídeos curtos combinam várias características que os tornam especialmente atraentes.
"Imagens em movimento, por si só, já são como um ímã para o cérebro dos mamíferos", afirmou. "Vídeos curtos são uma forma mais potente e, portanto, mais viciante, levando a um encadeamento de vídeos, semelhante ao hábito de fumar um cigarro atrás do outro. Uma vez que começamos, é difícil parar, mesmo quando queremos."
A superestimulação do sistema de recompensa com impulsos artificiais altamente gratificantes, como jogos de azar e compulsão alimentar, provoca uma descarga de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer. Para se proteger, o cérebro "reduz sua sensibilidade", com as células diminuindo o número de receptores necessários para sentir prazer. A hiperestimulação repetida pode, ao longo do tempo, tornar o cérebro menos sensível às recompensas.
"Com o tempo, precisamos de mais vídeos, não para ficar eufóricos, mas para nos sentirmos normais", disse. "E perdemos a capacidade de nos envolver e sentir prazer em outras recompensas mais simples, como ver um pôr do sol, compartilhar uma refeição com amigos ou ler um bom livro."
Segundo Lembke, o caráter infinito dos feeds modernos pode mudar gradualmente a forma como esse sistema responde: "A rolagem infinita leva à dessensibilização do sistema de recompensa, ou seja, menos dopamina é liberada ao longo do tempo em resposta a estímulos semelhantes, de modo que mais vídeos, com conteúdos mais extremos, são necessários para produzir o mesmo efeito."
O resultado pode ser um paradoxo familiar para muitos usuários: continuar buscando o próximo vídeo recompensador mesmo quando a experiência já não é mais especialmente prazerosa.
Personalização como fator mais importante
Embora a rolagem infinita receba grande parte da atenção pública, Ben Rein, neurocientista, divulgador científico e autor do livro "Why Brains Need Friends" ("Por que o cérebro precisa de amigos", em tradução livre) acredita que o verdadeiro poder está em atingir o indivíduo.
"A rolagem infinita e a novidade importam, mas são mecanismos de entrega; a personalização é o motor", disse Rein à DW.
Ele descreve um feed típico do TikTok como "um sistema que executa milhares de pequenos experimentos em você, aprendendo mais rápido do que você mesmo o que faz você continuar assistindo".
Rein também argumenta que a personalização se torna ainda mais poderosa quando combinada com a imprevisibilidade descrita por Lembke: "É a combinação, com a personalização sendo o elemento que torna tudo tão atraente e escalável para qualquer pessoa que use redes sociais".
Lembke vê uma dinâmica semelhante. "Os algoritmos constroem a droga perfeita para cada pessoa em tempo real, por meio das nossas interações com a plataforma, o que também faz a experiência parecer orgânica e viva", afirmou.
"A novidade supera o tédio que se desenvolve com a tolerância: isto é, a necessidade de versões mais potentes ao longo do tempo para obter o mesmo efeito", acrescentou. "A imprevisibilidade ativa a parte do cérebro voltada à busca e exploração, que evoluiu para nos manter persistentes em um ambiente de recompensas raras e incertas, tornando esses raros estímulos ainda mais recompensadores quando os encontramos."
O que vem a seguir?
Nos 42 estudos analisados pela equipe da Universidade de Bayreuth, surgiram repetidamente alguns padrões.
Entre eles estão maior dificuldade de atenção, pior desempenho de memória de trabalho, níveis mais altos de ansiedade e depressão, menor autorregulação e padrões semelhantes a comportamentos de dependência. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que as evidências ainda são limitadas.
"Ainda não há evidência suficiente para afirmar de forma conclusiva que plataformas de vídeos curtos causam 'deterioração cerebral' ou efeitos extremos de dopamina", disse a autora principal, Marlene Ebster, à DW.
Em vez de recomendar proibições gerais, os autores sugerem ajudar jovens a compreender como funcionam os sistemas de recomendação de conteúdo e como o design das plataformas influencia o comportamento.
Para Rein, a próxima fronteira para os desenvolvedores dessas plataformas deve ser o aprofundamento da personalização.
"À medida que os modelos de recomendação melhoram e, cada vez mais, a inteligência artificial consegue gerar ou adaptar conteúdo ao indivíduo em tempo real, a distância entre 'o que você gostaria' e 'o que é mostrado a você' tende a diminuir."
O avanço da inteligência artificial também deve ganhar ainda mais relevância.
"Estamos longe do auge da engenharia da atenção", disse Raskin. "Estamos entrando na era da IA 2.0, a inteligência artificial generativa. Essa tecnologia pode criar conteúdos inteiramente novos do zero."
"As capacidades da inteligência artificial generativa para maximizar a atenção — desde mídias sintéticas até relações sintéticas altamente personalizadas — vão superar completamente qualquer engenharia psicológica que vimos até agora", alertou.
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