A bolha autoritária transbordou nas urnas
Nenhum governo, hoje, de qualquer convicção política, em qualquer sociedade democrática, tem condições de satisfazer ao povo descontente e desconfiado. No campo democrático, o mais provável é a alta rotatividade, com aumento de governantes que não se reelegem
O crescimento da extrema-direita e o recorde de abstenções refletem fadiga política, ressentimento manipulado por redes e reação conservadora. No Brasil, a perda de força da centro-direita tradicional abriu caminho para esse avanço no Congresso. Esse fenômeno, alimentado pelo desencanto popular com as instituições, coloca a democracia em território de alto risco ao ameaçar freios e contrapesos constitucionais, incluindo a integridade do Supremo Tribunal Federal.
A bolha de ultradireita transbordou e invadiu as urnas. Mas não foi só. A onda de desinteresse varreu 33,4 milhões de eleitores que não votaram, 21% do eleitorado. Foi a maior taxa de abstenção desde 1998. É preciso investigar o que forma bolhas e ondas na política contemporânea. Tenho algumas hipóteses tentativas sobre esse processo.
Ele tem três dimensões: afetiva, valorativa e político-ideológica.
A dimensão afetiva
O lado afetivo é o dos sentimentos depressivos. São três os sentimentos principais nessa dimensão: ressentimento, raiva e fadiga política. A raiva deriva do medo de perder o que se tem, da aversão por se sentir desatendido pela liderança política no poder e, na polarização afetiva, se transforma em ódio. A fadiga política, ou exaustão social, é o cansaço e desencanto social, decorrente da avaliação de que as instituições políticas não são mais capazes de promover governança eficaz ou cumprir compromissos de longo prazo. Quem está no poder governamental é alvo preferencial desse sentimento avesso do eleitor.
O ressentimento foi captado pela extrema-direita digital. Ela usa a mentira e a filtragem permitida pelos algoritmos para manipular esses ressentimentos. Em todo o mundo, o medo dos deslocamentos sociais trazidos pela revolução digital, que ainda está nos seus primórdios, alimenta os sentimentos depressivos. A extrema-direita explora esse medo alimentando o ódio e aponta o "outro lado" como autor dos processos que estão gerando as perdas sociais ou a ameaça de perda.
A dimensão valorativa
A dimensão valorativa é uma reação forte de setores em todas as camadas sociais à revolução comportamental e à inclusão social. A inclusão reacende o que chamei de mentalidade da casa-grande em meu novo livro "A terceira margem do Ipiranga", povo democracia e futuro. Com relação à revolução comportamental que começou no século 20 e acelerou no século 21, criou-se uma onda conservadora nos valores e no comportamento pessoal, social, sexual e político reforçada pelas religiões extremistas, principalmente os neopentecostais. É claramente uma dimensão reativa, reacionária, voltada para restauração dos valores tradicionais.
Fadiga política e a busca pelo 'novo'
A fadiga política tem a ver diretamente com as transformações já em efeito na sociedade com o avanço da revolução digital. Criam-se novos interesses, demandas e necessidades que os governos e instituições não são capazes de representar e atender. Vai se constituindo uma maioria social, com motivações muito diversas, mas a mesma sensação de cansaço de que o "establishment" ou a elite política só oferece mais do mesmo. Essa sensação de fadiga política leva à busca do "diferente" que se apresenta como novo. A extrema-direita é confundida com mudança inovadora, embora não tenha compreensão do presente e é portadora de visão retrógrada, que mira o passado idealizado e não o futuro.
Como ajustar essas hipóteses, esse modelo sociológico para explicar o que se passa em cada país, é a questão para a qual ainda considero necessário mais pesquisa. É lógico que cada país vive esse momento à sua maneira. Parafraseando Tolstoi, todas as sociedades têm sentimentos depressivos com a política, estão desconfortáveis com comportamentos sociais muito desabridos e com fadiga política. Mas cada uma vive e reage a esse estado político-afetivo à sua maneira.
A dimensão político-ideológica
No caso do Brasil, a fadiga política está diretamente associada à dimensão político-ideológica. O PT ficou 14 anos ininterruptos no poder e retornou por, pelo menos mais quatro anos, novamente com Lula, após o governo Bolsonaro. Nesse período a alternativa que representava uma rotatividade funcional no governo, o PSDB, que transitou da social-democracia para o social-liberalismo, perdeu a capacidade de apresentar candidatos competitivos à presidência da República na ruptura eleitoral de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro, e na de 2022, com o retorno de Lula. O PSDB e o MDB se apequenaram, e o DEM, antigo PFL, fundiu-se com o PSL, que elegeu Bolsonaro e foi abandonado por ele, dando lugar ao União.
O desaparecimento das alternativas funcionais ao PT abriu caminho para a extrema-direita e o PL ocupou esse espaço no Congresso, e se tornou competitivo nas eleições presidenciais. Mas não é parte do campo democrático e engoliu a direita que, esta sim, é parte do campo democrático. Não oferece uma alternativa funcional para a democracia.
Minha hipótese geral é que nenhum governo, hoje, de qualquer convicção política, em qualquer sociedade democrática, tem condições de satisfazer ao povo descontente e desconfiado. No campo democrático, o mais provável é a alta rotatividade, com aumento de governantes que não se reelegem. A extrema-direita só consegue permanecer no poder se, estando no governo, desconstruir as instituições democráticas, especialmente aquelas que têm a função de fazer os freios e contrapesos necessários à integridade da democracia,
O Brasil entra em um território de alto risco e ameaça democrática, porque o avanço da extrema-direita, que saiu das urnas muito forte no Congresso, especialmente no Senado, e fez a maior bancada da Câmara. Ela passou a ter os meios para investir contra o arcabouço legal das instituições democráticas.
A crise do Supremo Tribunal Federal, internamente muito dividido e com vários ministros devendo explicações sobre comportamentos inadequados para magistrados agrava ainda mais o quadro. Além disso, com quatro ministros para se aposentar por limite de idade e uma posição vazia porque o Senado rejeitou o nome indicado pelo presidente Lula, corre o risco de ser invadido pela extrema-direita que anularia seu papel de freio e contrapeso.
Sergio Abranches não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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