O machismo e a ideologia armamentista é uma ameaça aos homens também
É importante pensar a respeito, sobretudo nesse momento em que a escalada da ideologia armamentista está a todo vapor
O perfil do policial apontado como assassino do campeão mundial de Jiu-jitsu, Leandro Lo, é mais presente em nossa sociedade do que gostaríamos. É importante pensar a respeito, sobretudo nesse momento em que a escalada da ideologia armamentista está a todo vapor.
E ainda que a vítima seja um homem, o caso expõe um lado perigoso e mais abrangente do machismo que estrutura nossa sociedade. O tenente da Polícia Militar concentra em si o comportamento clássico da masculinidade falo-patriarcal: o macho que carece do falo em mãos para se auto afirmar. Esse perfil de masculinidade que é a síntese do comportamento machista não se preocupa com desenvolvimento de sua inteligência, ele não se preocupa com a expansão de suas potencialidades humanas, ele nem quer ter qualquer sinal de humanidade e está literalmente maquinado para eliminar toda e qualquer resistência ou oposição a supremacia masculina.
Quando essa supremacia, que depende primordialmente do domínio de corpos considerados ‘subalternos’ é ameaçada, ocorrem as inúmeras violências que tem a intenção de subjugar esses corpos.
Os corpos considerados subalternos são definidos pela raça, pelo gênero e pela classe social, basicamente. Mas e quando a ameaça da supremacia vem de outro modelo de masculinidade? No caso, de uma masculinidade que consegue, na prática, dominá-lo?
É esse perfil de masculinidade como a do tenente que inverte valores: provocam a agressividade (características que nos é inerente e útil quando bem canalizada) através de ações violentas e fazem acreditar que a resposta à violência (sendo a autodefesa) é a verdadeira violência. Uma das formas de canalização da agressividade são os esportes. E as lutas estão no escopo dos esportes.
Quando a pessoa leva a sério a filosofia por trás das lutas, como era o caso do atleta assassinado, ela educa o corpo e canaliza a agressividade para uma inteligência que enriquece a vida, educando também a mente. Porque lutar é uma das exigências fundamentais a serviço da nossa sobrevivência. Lutamos o tempo todo e essa luta precisa estar conectada com a nossa dignidade e inteligência. Isso foi ensinado através do esporte para a vítima e para o policial. Mas só um aprendeu, no caso, o atleta campeão mundial.
O PM foi imobilizado pela inteligência do corpo de um atleta que, assim como ele, aprendeu a usar sua agressividade de modo produtivo e completo.
Mas é característica do perfil de masculinidade machista como a do policial e dos que cultuam armas, formadas pela cultura falo-patriarcal, congelar sua inteligência e dignidade e buscar de forma compulsiva a ideia de poder que acredita que só existe mediante o domínio de outros corpos. Essa ideia está contida na ideia de “falo” como metáfora de poder, por isso dizemos que nossa cultura é, além de patriarcal, falocêntrica.
A cultura armamentista tem como característica principal fomentar essa ideia oferecendo a arma como uma espécie de “falo automático”, aquele que pode para subjugar a inteligência do corpo do outro de modo definitivo e/ou coagir de modo infalível.
Independente de estarmos falando de um policial que, em tese é preparado para lidar com a inteligência do corpo e da mente em benefício da manutenção da ordem e da segurança pública, precisamos entender que estamos falando de pessoas socializadas por essa lógica falo-patriarcal.
E isso não se manifesta apenas entre policiais e está em todos os lugares. O trânsito, por exemplo, é outro espaço onde podemos visualizar essa distorção social dada pelo sistema machista.
No aniversário de 16 anos da Lei Maria da Penha é necessário pensar nessas dinâmicas subjetivas da opressão de gênero/classe e raça que aparece na relação entre homens. O mesmo homem que é capaz de violentar uma mulher (de formas diversas, isoladas e/ou conjuntas) é o que VAI matar todo e qualquer homem que sobrepuser a sua ideia de supremacia. A violência contra a mulher e contra outros corpos pautados como subalternos é a linguagem que expressa a não aceitação de ameaças a supremacia do macho alfa, que grosso modo, é branco (ou se pensa branco), rico (ou que se pensa rico) e homem (ou que se pensa homem).
A violência é a linguagem que despeja a agressividade contra a inteligência do corpo em detrimento da ideia distorcida de que PODER é necessariamente dominação do suposto mais fraco. Homens que se isentam da crítica e não fazem oposição severa a essas dinâmicas presentes na sociedade estão alimentando, à revelia de sua consciência, todas as possibilidades de serem vítimas da própria masculinidade que os afetou ou moldou em algum nível.
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