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Parafraseando a minha dor: travesti negra em primeira pessoa

A consciência branca coloca corpos parecidos com o meu em lugares desfavorecidos, esquecidos, apagados, aniquilados

24 nov 2023 - 10h05
(atualizado às 10h36)
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Caro e gentil leitor, a vida segue com suas incertezas. As inconclusões foram importantes para eu chegar até aqui, as incertezas vêm sendo o fio condutor que nos impulsiona para outros lugares. Para nós, pessoas negras, a incerteza é um desafio constante, pois diante do massacre aterrorizante do racismo, a negação de direitos se faz a cada momento. Lembrando a autora Grada Kilomba: "O racismo  é uma realidade bem violenta". E, sim, dentro das nossas incertezas a única certeza que pessoas negras têm é a de que experenciamos o racismo cotidianamente. 

Diferenças entre preconceito, racismo e discriminação Diferenças entre preconceito, racismo e discriminação

Diante dessa realidade massacrante, a condição de vida de mulheres trans e negras, bem como de homens trans, transmasculinos negros, pessoas não binárias negres faz com que nossas certezas se deságuem no mar de violências atravessadas e silenciadas pelo racismo cisheteronormativo colonial. A dinâmica social apresentada aqui é parte de um embasamento que pode ser visto como teórico acadêmico, mas que, de fato, é um dado copilado da consciência humana que não é nada negra, afinal, nobres leitores, estamos no mês de novembro destinado à memória negra, pautado na ancestralidade afro-brasileira, onde o 20 de Novembro retrata o dia da Consciência Negra e o dia de Zumbi dos Palmares. 

A pauta trazida pelo movimento negro é de bom agrado e válida para descrever vários "não privilégios" que a consciência branca, ou melhor, que a colonialidade cishetero patriarcal faz ao minimizar a realidade humana e colocar corpos parecidos com o meu em  lugares desfavorecidos e esquecidos, apagados, aniquilados. A intercessão como lente analítica da realidade social e muito pautada pelo conceito da intercessionalidade nos mostra com muita veemência essa truculência. Um salve a todas as travestis mulheres trans, transmaculinios negras, negros e negres, vidas dissidentes que vieram antes de mim, um salve grandão à Xica Manicongo, Marsha P Johnson, Brenda Lee, Jeovana Baby, Keila Simpson, Milena Passos, Leonardo Peçanha, Bruno Santana, dentre tantas outras e outros e que estão por vir. 

A consciência branca coloca corpos parecidos com o meu em  lugares desfavorecidos, esquecidos, apagados, aniquilados
A consciência branca coloca corpos parecidos com o meu em lugares desfavorecidos, esquecidos, apagados, aniquilados
Foto: iStock/dragana991

Como citado acima, a inconclusão nos leva a traçar caminhos incertos, mas ao acessar esses lugares reconfiguramos, até mesmo porque o corpo negro carrega em sua essência diversas memórias e insurgentes. Diante de uma passado não expurgado, nosso ponto partida é o enfretamento social, uma grande análise, uma dialética não só para os campos da ideias, mas para realidade social. Esse pensamento ficará para um próximo momento que não se limita nessas páginas. Deixo o estímulo não como respostas, mas para análises contundentes.

Querides leitores, antes das reticências deixo para vocês uma mensagem da nossa querida e amada saudosa bell hooks, tal referência nos ensinou que diante do caos que é o racismo, o amor é contraponto visto como dom sublime e bem precioso para que possamos não sucumbir até mesmo porque, para a autora,  "muitas pessoas sentem-se incapazes de amar a si mesmas ou a outras porque não sabem o que é o amor".

Acreditar no bem supremo sobre a ótica do amor é o ponto central para trans'gredir a realidade violenta que o racismo e cisheteropartriarcado colonial nos coloca e nos faz acreditar que deva ser o nosso lugar, logo ter o amor como mecanismo de subversão é essencial para nossa cura e autocuidado, vital para as incertezas que nos atravessam. Assim como o pensamento dessa intelectual negra, recomendo a vocês ouvir e seguir o amor para que possamos ir contra os valores predominantes dessa cultura racista cisheteropatriarcal e para que possamos também regar o amor como certeza de fortaleza para atravessar as amarras coloniais. E assim, no toque de amor, eu me despeço de vocês até uma breve oportunidade.

Fonte: Redação Nós
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