Discriminação de gênero persiste na pós-graduação, mesmo em instituições que defendem a igualdade
Décadas de pesquisa mostram que parte da discriminação se manifesta também em processos aparentemente neutros e meritocráticos, frequentemente vistos como exemplos de objetividade científica
A Portaria CAPES nº 45, de 29 de janeiro de 2026, representou um importante reconhecimento institucional da necessidade de enfrentar o assédio, as violências de gênero e outras formas de discriminação na pós-graduação brasileira. Embora tenha sido posteriormente tornada sem efeito poucos dias após sua publicação, a iniciativa explicitou um consenso crescente: a excelência científica depende não apenas de recursos financeiros e competência técnica, mas também da existência de ambientes acadêmicos justos, inclusivos e seguros.
O fato de a CAPES ter tornado a Portaria nº 45 sem efeito, por motivos não divulgados, não altera a relevância das questões que ela procurava enfrentar. Mesmo na ausência de uma nova portaria semelhante, permanece atual — e talvez ainda mais urgente — a pergunta que ela trouxe à tona: como assegurar que os processos de avaliação, reconhecimento e promoção nas instituições científicas estejam alinhados com as melhores evidências disponíveis? Independentemente do instrumento normativo adotado, produzir mudanças duradouras exigirá aprender com uma vasta literatura internacional que investiga como a desigualdade persiste mesmo em instituições compostas por pessoas que sinceramente acreditam estar promovendo a igualdade.
O desafio inclui mas vai além da criação de canais de denúncia, protocolos, e treinamento sobre assédio. Décadas de pesquisa mostram que parte importante da discriminação não opera de forma aberta ou consciente. Ela se manifesta por meio de processos aparentemente neutros e meritocráticos — processos que frequentemente são vistos como exemplos de objetividade científica.
No caso da literatura científica sobre a discriminação de gênero, um dos fenômenos mais conhecidos é o chamado "efeito tesoura". Refere-se ao declínio da representação das mulheres em relação aos homens ao longo de suas carreiras. Em muitos países, mulheres representam parcela significativa — ou mesmo majoritária — dos estudantes universitários e da pós-graduação. No Brasil, mulheres correspondem a 57% dos estudantes matriculados no ensino superior e a 53% dos bolsistas da pós-graduação financiada pela CAPES. Em seis das nove grandes áreas da pós-graduação brasileira, as mulheres obtêm a maioria dos títulos. Entretanto, conforme a carreira acadêmica avança, sua presença diminui progressivamente.
Em posições de liderança, entre pesquisadores de maior prestígio, bolsistas mais reconhecidos e ocupantes de cargos de decisão, homens passam a predominar. Esse padrão aparece repetidamente em diferentes países e áreas do conhecimento.
Respostas insuficientes
A explicação mais comum para esse fenômeno costuma enfatizar fatores familiares. De fato, mulheres continuam assumindo uma parcela desproporcional do trabalho doméstico e do cuidado com filhos. No Brasil, dedicam quase 80% mais tempo aos afazeres domésticos do que os homens. Durante a pandemia de Covid-19, pesquisadoras com filhos pequenos sofreram quedas expressivas de produtividade acadêmica devido ao peso das responsabilidades domésticas.
Mas essa explicação é insuficiente. Ao longo das últimas décadas, uma série de estudos tem revelado que processos de avaliação considerados objetivos frequentemente reproduzem vieses sistemáticos. Um caso emblemático ocorreu no Massachusetts Institute of Technology (MIT) nos EUA. Em 1999, um grupo de professoras titulares da School of Science realizou uma investigação detalhada sobre as condições de trabalho das mulheres na instituição.
O estudo surgiu quando cientistas altamente bem-sucedidas perceberam que homens subiam na hierarquia com mais facilidade, mesmo sem melhor desempenho, e elas começaram a compartilhar suas percepções e experiências semelhantes de marginalização e exclusão. Executaram e publicaram uma análise de dados sobre salários, espaço físico, acesso a recursos, reconhecimento profissional e participação em decisões institucionais revelando padrões persistentes de parcialidade e desigualdade.
Padrões agregados de discriminação
O aspecto mais importante da investigação talvez tenha sido a conclusão de que a discriminação não decorria necessariamente de hostilidade explícita. Ela era produzida por "suposições e atitudes poderosas, porém não reconhecidas", incorporadas às rotinas institucionais.
A principal lição do estudo do MIT permanece extremamente atual: muitas vezes a desigualdade só se torna visível quando examinamos padrões agregados. Casos individuais podem parecer insignificantes ou ambíguos. Quando observados em conjunto, entretanto, revelam tendências sistemáticas.
Uma segunda lição importante veio da Suécia. Em um estudo que se tornou um clássico da literatura científica, Agnes Wold e Christine Wennerås analisaram avaliações de candidatos a bolsas de pós-doutorado concedidas pelo Swedish Medical Research Council. O objetivo era verificar se as notas atribuídas pelos avaliadores correspondiam à produtividade científica dos candidatos.
Publicados em Nature, os resultados foram surpreendentes e pioneiros na época. Mostraram que mesmo quando apresentavam produtividade científica equivalente ou superior, mulheres recebiam avaliações inferiores às dos homens. As pesquisadoras concluíram que as candidatas precisavam ser substancialmente mais produtivas para alcançar as mesmas pontuações. O estudo também identificou favorecimento associado a redes de relacionamento e proximidade com grupos estabelecidos de pesquisa.
Talvez o aspecto mais relevante desse trabalho para o debate atual seja que ele examinou justamente um mecanismo frequentemente apresentado como modelo de meritocracia: a avaliação por pares.
Vieses humanos ainda superam o método científico
A conclusão foi desconfortável. Mesmo sistemas criados para premiar exclusivamente mérito científico podem reproduzir vieses humanos.
Décadas depois, pesquisas continuam encontrando resultados semelhantes. Estudos de processos de seleção acadêmica e sobre avaliações formais de professores feitas por alunos continuam encontrando padrões consistentes de viés de gênero.
Um experimento conduzido por MacNell e colaboradores mostrou como percepções de gênero afetam avaliações de desempenho mesmo quando o trabalho realizado é idêntico. Em um curso ministrado online, estudantes avaliaram melhor instrutores apresentados como homens do que instrutoras apresentadas como mulheres. O aspecto decisivo é que, em alguns casos, tratava-se exatamente da mesma pessoa, atuando sob identidades de gênero diferentes.
Outros estudos mostram que mulheres frequentemente são avaliadas segundo critérios mais amplos do que homens. Enquanto os homens são avaliados com base na área em que apresentam melhor desempenho, mulheres costumam ser avaliadas simultaneamente por cinco fatores — competência, sociabilidade, simpatia, organização e comportamento interpessoal — e com ênfase na área onde são menos fortes. Em situações de incerteza, homens recebem mais frequentemente o benefício da dúvida.
Esses resultados ajudam a explicar por que a desigualdade persiste mesmo em contextos nos quais a maioria das pessoas rejeita explicitamente o sexismo.
O problema não é apenas a existência de indivíduos preconceituosos. Trata-se também da forma como expectativas sociais, critérios de excelência, redes de relacionamento, estilos de liderança e mecanismos de avaliação foram historicamente construídos.
É precisamente por isso que qualquer política institucional voltada ao enfrentamento da discriminação exige mais do que boa vontade. A literatura científica sugere que treinamentos e campanhas de conscientização são importantes, mas insuficientes quando não são acompanhados de análise sistemática dos resultados produzidos pelas instituições e se o treinamento não for concebido e cuidadosamente planejado para criar reconhecimento de tal discriminação sistemática e inspirar prevenção e intervenções relevantes.
O que pode e deve ser feito?
Universidades e programas de pós-graduação deveriam monitorar regularmente indicadores de contratação, promoção, distribuição de recursos, concessão de bolsas, ocupação de cargos de liderança e composição de comissões. Deveriam também analisar padrões de progressão na carreira e como os benefícios e recursos são divididos, identificando possíveis desigualdades persistentes entre grupos.
Da mesma forma, mecanismos de avaliação precisam ser examinados criticamente. Processos excessivamente opacos podem dificultar a identificação de vieses e impedir correções. Como argumentaram Wennerås e Wold há quase trinta anos, a credibilidade da própria ciência depende de sua disposição para submeter seus sistemas de avaliação ao mesmo escrutínio crítico que aplica ao restante do mundo.
A experiência internacional mostra que a desigualdade raramente desaparece por conta própria. Ela tende a persistir precisamente porque é frequentemente invisível, especialmente para aqueles que não sofrem seus efeitos.
A questão central não é decidir se existem ou não pessoas bem-intencionadas nas universidades. Certamente existem. A questão é levar em conta que instituições compostas por pessoas bem-intencionadas também podem reproduzir desigualdades e que, por isso, necessitam de formação muito bem informada e direcionada. No MIT, treinamento antidiscriminatório é obrigatório a partir do nível da pós-graduação, abrangendo gênero, racismo, capacitismo, etarismo e discriminação por orientação sexual. Mais uma vez, o MIT serve como exemplo, à frente da curva.
A lição da literatura é de que essas diferentes formas de discriminação frequentemente só se tornam visíveis quando examinamos sistematicamente os resultados produzidos pelas instituições.
Se a ciência exige evidências para compreender fenômenos naturais, também deve exigir evidências para compreender seus próprios mecanismos de avaliação, reconhecimento e promoção.
Somente assim será possível transformar o compromisso com a igualdade em resultados concretos.
A autora oferece uma análise mais extensa sobre o tema no relatório Desigualdade de Gênero na Ciência publicado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Myanna Lahsen não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.