Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Revelamos a história do Fusca que virou astro em O Agente Secreto

De R$ 8 mil na internet ao estrelato ao lado de Wagner Moura, o Volkswagen 1972 de Antoliano Azevedo cruzou a fronteira entre memória afetiva e cinema premiado

26 fev 2026 - 13h14
Compartilhar
Exibir comentários

O ano era 1977 e um professor universitário fugia da repressão da Ditadura Militar do Brasil. Dentro de um Volkswagen Fusca de 1972, com motor de 1.300 cilindradas, Armando (personagem de Wagner Moura) chega a um posto de combustível no meio do Nordeste para abastecer o "besourinho" amarelo e conseguir chegar a Recife.

Perdão pelo spoiler se você ainda não viu o filme O Agente Secreto, mas essa é a cena icônica cena inicial que imortalizou, outra vez, um dos modelos mais aclamados da história da indústria automotiva: o VW Fusca (ou Beetle, como preferir).

Nem Ferdinand Porsche, engenheiro e projetista do modelo, poderia prever, lá em 1934, que a missão de criar um carro realmente "popular" — lembrando que Volkswagen significa "Carro do Povo" em alemão — daria tão certo. Nove décadas depois, o Fusca segue no imaginário coletivo, faz sucesso nas telas do cinema e, agora, ajuda o cinema brasileiro a ganhar prêmios.

Já detentor de dois Globos de Ouro e de inúmeras outras estatuetas, o filme O Agente Secreto é mais um dos marcos do cinema nacional. E, se pudermos transformar o filme em um símbolo sobre quatro rodas, certamente o Fusca amarelo, chamado carinhosamente de "Piu Piu" pelo proprietário, representará esse papel com maestria.

Como o Fusca 'Piu Piu' saiu do anonimato para o estrelato no cinema

Antes de virar ícone do cinema ao lado de Wagner Moura, aquele Volkswagen já carregava uma história — e um dono que fala dele como um membro da família. E quem não ficaria orgulhoso de ver um parente conquistar protagonismo no cinema nacional?

O feliz proprietário do "Piu Piu" é Antoliano Azevedo, mais conhecido como Totó. "Sou empresário, tenho uma distribuidora de produtos veterinários aqui em Recife há aproximadamente 13 anos." Recifense de Boa Viagem, ele cresceu com o som de um motor boxer na memória.

O Jornal do Carro foi até Recife para entender como essa recordação se transformou na paixão dele por carros, como os caminhos de Totó e de Piu Piu se cruzaram e, enfim, como o Fusca foi escolhido para ser o parceiro de Armando em O Agente Secreto.

A infância que cheirava a gasolina

A paixão pelo carro popular da Volkswagen não nasceu em uma concessionária ou em um encontro de carros antigos. Nasceu dentro da garagem de casa.

Não era sobre desempenho. Nem originalidade. Era sobre memória. Sobre vínculo. Sobre aquele ritual quase silencioso de abrir a porta, sentar e deixar o rádio tocar.

"Quando eu olho para o Fusca, eu já me lembro do meu pai. Eu me lembro das andanças com ele no carro. Só me traz lembranças boas", afirma Totó.

Mas a jornada de Azevedo com o antigomobilismo não começou com o Fusca premiado. Antes do Piu Piu, vieram outros clássicos — Brasília, Chevette. Mas nenhum ocupava o mesmo lugar.

"O meu foco principal era um Fusca."

Ele queria um branco como o do pai. Mas o destino tinha outra cor reservada.

O dia em que o Fusca amarelo apareceu

Em 2020, navegando em um site de compras on-line, Totó encontrou o carro.

"Eu tava procurando um branco que seria igual ao do meu pai, mas eu não encontrava. Foi quando eu abri o aplicativo, olhei o amarelinho e me apaixonei."

O carro estava em Camaragibe, na região metropolitana do Recife. O encontro foi direto. O negócio, rápido. "Foi paixão à primeira vista. À época, paguei R$ 8 mil."

Fusca 1300 1972 usado no filme "O Agente Secreto"
Fusca 1300 1972 usado no filme "O Agente Secreto"
Foto: Raquel Moraes/Reprodução / Estadão

Hoje ele não sabe estimar quanto o carro vale. Nem parece interessado nisso.

"Não sei quanto está valendo esse carro hoje, mas acredito que esteja bem valorizado por causa do filme."

Existem automóveis que não se encaixam na tabela Fipe. E esse certamente é um deles.

Cinco anos, 40 mil reais e uma reconstrução

Segundo o relato de Azevedo, ao comprar o carro dava para perceber que o modelo estava íntegro, mas longe do padrão que o novo dono queria. E aí começou o trabalho: motor feito, caixa revisada, parte elétrica nova, suspensão refeita e bancos reestofados.

"Para ele chegar ao estágio em que está hoje, de motor, câmbio, freio e suspensão, eu gastei de R$ 35 mil a R$ 40 mil. Demorei aproximadamente o tempo que eu tô com ele, cinco anos, para fazer tudo. No fim, valeu a pena."

O Fusca foi ganhando a identidade de Azevedo. Nesse meio-tempo, o empresário colocou bagageiro, adesivos, farol de milha e barra branca nos pneus para dar aquele charme de carro antigo.

Até que o cinema brasileiro pediu que ele voltasse no tempo.

O telefonema que parecia brincadeira

Era para ser mais um encontro mensal do Clube do Fusca de Pernambuco, no Parque Dona Lindu. Bem nesse dia, Totó não pôde ir. Assim, o presidente do clube, Júlio Valença, ligou para Azevedo com uma conversa, até então, estranha.

"Ele perguntou se eu gostaria de alugar o carro para um filme. Como ele é muito brincalhão, eu não comprei muito a ideia."

Do outro lado da linha estava também João Lucas, produtor de carros do filme O Agente Secreto. E o nome de Kleber Mendonça Filho entrou na conversa.

"O Kleber quer um carro amarelo e que seja original igual ao seu. Topa fazer o filme?"

Não era brincadeira. Era cinema de verdade.

De volta a 1977

Lembra que falamos, no início da reportagem, que o filme se passa em 1977 e que o Fusca é de 1972? Pois bem: ele tinha apenas cinco anos de uso na história — e precisava parecer exatamente isso.

"Eu tive que tirar adesivo, tirar bagageiro, tirar farol de milha, tirar barra branca dos pneus."

O interior, recém-reformado em bege, também não ficou.

"Uma exigência de Kleber foi trocar o couro dos bancos para a cor preta. João veio todo cheio de dedo falar comigo. Eu disse: não tem problema. Depois a gente volta. Mas, quando fez, eu gostei tanto que terminou ficando."

A obsessão era coerência histórica. E aqui vai um bastidor interessante do filme: "Kleber quis que o carro realmente fosse original da época. Roda, calotinha… Quando bateu o olho, disse: 'O carro é esse.'"

Kleber Mendonça Filho contou com exclusividade ao programa Jornal do Carro, na Rádio Eldorado (FM 107,3), que quis um Fusca amarelo porque foi o primeiro carro que conseguiu comprar com o próprio salário. E tinha que ser o de 1972. E assim foi feito para O Agente Secreto.

Mas faltava uma aprovação. A do ator principal. O encontro foi no bairro das Graças, em Recife. Wagner Moura queria dirigir o Fusca antes de bater o martelo.

"Quando ele olhou o carro, disse: 'Rapaz, pelo que eu tô vendo aqui, o carro é esse. Agora deixa eu andar.'", descreveu Azevedo. "Quando voltou, disse: 'Por mim, o carro está aprovado. O carro é esse aí pro filme e vamos trabalhar.'", relata o orgulhoso proprietário do Piu Piu.

A ideia inicial era filmar o Fusca sobre uma plataforma. Não deu certo. A solução foi simples: o ator dirigiria. Totó acompanhou tudo.

"Todas as cenas que você vê o Wagner dirigindo, ele realmente está dirigindo o carro. Foram 15 diárias. Eu marcava a posição do carro no chão para depois ele gravar. Foi uma experiência única."

Com um carro tão acertado, o assédio não demorou a começar. Em um momento, Wagner brincou:

"Você vende o carro pra mim?"

A resposta veio firme: "Não está à venda", garantiu Totó.

O susto no canavial

Nem tudo foi glamour. Em uma cena no canavial, o limpador de para-brisa travou por causa de um resquício de fita adesiva colada no para-brisa. Essa resistência fez o motor elétrico queimar.

"Saiu fumaça e todo mundo saiu correndo. Eu pensei: 'Meu Deus do céu, o carro está pegando fogo.' Mas foi só um fio. Coisa boba."

O Fusca sobreviveu e a história de bastidor do filme ganhou mais um chamuscado capítulo.

O dia em que a ficha caiu

Durante as gravações, nada podia ser divulgado. Fotos? Nenhuma. No início, Azevedo pensou que seria apenas um curta-metragem. A dimensão do que estava acontecendo só veio depois.

"A ficha só caiu depois que eu assisti ao filme."

Vieram prêmios. Indicações. Reportagens. Convites para entrevistas. Ao parar na rua, a cena se repete: as pessoas se aproximam sacando o celular, perguntando se realmente é o carro do filme. Algumas não acreditam que estão tão perto de um ícone.

"Eu comecei a dizer: tem alguma coisa aí. Piu Piu tá aparecendo. Piu Piu vai ficar mais famoso do que o Wagner. É uma tietagem só. Tô começando a me acostumar", afirmou Totó.

O carro da vida

No dia a dia, Totó tem outro carro. Mas prefere o Fusca.

"Eu prefiro infinitamente andar nesse carro. Eu me sinto bem. Eu gosto de dirigir. Escutar o barulho do motor, o cheiro de Fusca dentro, que é único. É nostalgia pura e certamente é o carro da minha vida, pode ter certeza disso. Se ele pudesse falar, diria: 'Totó, te amo. Obrigado por cuidar tão bem de mim'", finalizou, emocionado.

Alguns carros são só meios de transporte. Outros atravessam gerações, viram cinema e ficam gravados na retina, na memória e no coração.

Na próxima semana, não perca o test drive que este repórter fez com o Piu Piu. Você só vai ver aqui no Jornal do Carro.

*Viagem a convite da Volkswagen do Brasil.

Estadão
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade