Carro popular deveria custar R$ 60 mil, mas valor não compra nem usado de 5 anos
Estudo exclusivo revela que preço médio do carro equivale a 9 anos de trabalho e coloca o País entre os mais caros do mundo
O carro popular ideal no Brasil deveria custar R$ 60 mil, mas hoje nenhum zero-quilômetro sai por esse valor. O país apresenta o segundo maior comprometimento de renda global para adquirir um automóvel, exigindo 105 salários mínimos. Essa perda de poder de compra frente ao passado decorre de novas exigências de segurança e emissões, maior sofisticação tecnológica, além do peso de impostos, custos de produção e margens de lucro das montadoras.
Com R$ 60 mil, qual carro zero você consegue comprar no Brasil? Indo direto ao ponto: nenhum. Com esse valor, talvez consiga comprar um Honda Fit, um Toyota Etios ou um Ecosport, todos usados e com mais de 10 anos de fabricação, provavelmente.
Mas esse é o valor ideal para que um veículo seja considerado popular — ou seja, acessível — no nosso país, segundo o levantamento feito a pedido do Jornal do Carro para a Bright Consulting.
Mesmo na comparação com economias emergentes, a posição brasileira permanece desfavorável. O ticket médio equivale a 45 meses de renda na China, 44 meses na Argentina e 34 meses no Paraguai. A Índia, com 63 meses, é o único país da amostra pesquisada em que o esforço calculado pela renda média supera o brasileiro. Entre os oito mercados analisados, portanto, o Brasil apresenta o segundo maior comprometimento de renda para a compra do carro, atrás apenas da Índia.
Brasileiro precisa trabalhar quase 9 anos para comprar carro
Quando a referência passa a ser o salário mínimo, a dificuldade de acesso é ainda mais latente. O ticket médio brasileiro equivale a 105 salários mínimos mensais, contra 69 na China, 92 na Índia, 40 nos Estados Unidos, 38 no Paraguai, 19 na Alemanha e 18 no Japão.
A Argentina, com 136 meses, é o único país da amostra em situação mais desfavorável nesse critério do que o Brasil.
O carro popular no Brasil
A distância entre a garagem e o contracheque nem sempre foi um abismo tão profundo.
Em 2013, o icônico Fiat Uno Mille era vendido por R$ 23.900. Na época, o salário mínimo era de R$ 678, o que fazia o carro custar salgados 35 salários mínimos.
No entanto, quando ajustamos a régua para o salário médio da pessoa trabalhadora da época, que era de R$ 1.567 - segundo a PNAD 2013, o cenário muda drasticamente. Em 2013, eram necessários 15,2 salários médios para comprar um Uno zerinho.
O que mudou para o preço do carro ficar tão salgado?
A partir de 2014, houve a exigência legal de que 100% dos carros novos fossem equipados com airbags frontais e freios ABS. A regra acabou sepultando plataformas antigas e baratas, como a do próprio Uno Mille.
Durante a última década, novas obrigatoriedades de segurança, regras mais rígidas de emissões de poluentes e a sofisticação da cabine (com a chegada de motores turbo e centrais multimídia mais avançadas) elevaram ainda mais o custo de fabricação.
Entretanto, não é correto dizer que esse é o único fator para o encarecimento. Há uma complexa cadeia que envolve comportamento de consumo, entrada de novas marcas, custos de produção, impostos e, claro, o lucro das empresas que contribuem para a discrepância entre o bolso e o produto.
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