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Master System Evolution, Compact e outras versões estranhas que só o brasileiro conhece

Enquanto o console desaparecia do resto do mundo, a Tectoy reinventou o Master System por décadas com inúmeros modelos

3 set 2026 - 21h37
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Master System Evolution, Compact e outras versões estranhas que só o brasileiro conhece
Master System Evolution, Compact e outras versões estranhas que só o brasileiro conhece
Foto: Reprodução/Reddit

Enquanto o resto do mundo viu o Master System ser gradualmente deixado de lado no início dos anos 90 para dar lugar ao lendário Mega Drive, o Brasil viveu uma história completamente diferente. Graças a uma parceria histórica entre a Sega e a Tectoy, o console de 8 bits não apenas sobreviveu por aqui, mas se recusou a morrer — evoluindo para formas, cores e conceitos que deixariam qualquer colecionador gringo completamente perplexo.

De aparelhos sem fio até modelos cor-de-rosa em formato de bolsa, relembre os modelos e redesenhos mais inusitados do Master System que marcaram época e só o público brasileiro teve o privilégio (e a curiosidade) de conhecer.

O Master System brasileiro já começou diferente

Quando o Master System chegou oficialmente ao Brasil, em setembro de 1989, a situação era bastante diferente daquela encontrada nos Estados Unidos, Europa ou Japão.

A Tectoy não era simplesmente uma importadora. A empresa tinha uma relação muito mais próxima com a Sega e passou a fabricar os produtos localmente, com produção em Manaus. O console chegou acompanhado de Hang-On, Safari Hunt e Snail Maze, além de acessórios como a pistola Light Phaser e os óculos 3D.

Mas o mais interessante viria depois. Em 1991, a Tectoy lançou no Brasil um aparelho chamado Master System II. O nome pode causar confusão para quem conhece a história internacional do console.

Enquanto o Master System II vendido em outros mercados era uma revisão física do aparelho original, o Master System II brasileiro era, essencialmente, o mesmo hardware do primeiro modelo. A principal mudança estava no pacote: o console passou a trazer o clássico Alex Kidd in Miracle World na memória e chegou ao mercado com preço mais baixo.

E foi justamente essa nomenclatura que abriu caminho para uma das maiores peculiaridades do Master System brasileiro.

O Master System III Compact: O novo design

Quando chegou a hora de adotar o design compacto que já existia internacionalmente, a Tectoy não poderia simplesmente chamá-lo de Master System II. Esse nome já estava ocupado. A solução foi tipicamente brasileira: Master System III Compact.

Lançado em 1992, o modelo adotava um corpo menor e mais arredondado e eliminava alguns recursos presentes no aparelho original, como a entrada para cartões Sega Card, o botão reset e algumas opções de conexão.

O curioso é que, fora do Brasil, aquele mesmo desenho era conhecido simplesmente como Master System II. Por aqui, entretanto, ele precisava ser o “III”. E o nome não era a única particularidade.

A Tectoy continuou modificando o produto, alterando embalagens, jogos incluídos e configurações ao longo dos anos. Algumas versões vinham com Alex Kidd in Miracle World, enquanto outras traziam Sonic the Hedgehog na memória. Houve ainda pacotes acompanhados de coletâneas de jogos.

O que em outros lugares era uma revisão de hardware tornou-se, no Brasil, praticamente uma família inteira de produtos.

Master System Super Compact: A revolução sem fio

A criatividade da Tectoy ficaria ainda mais evidente em 1994. Foi nesse período que surgiu o Master System Super Compact. Imagine um Master System transformado em uma espécie de controle gigante. Era praticamente isso.

O controle ficava integrado ao próprio corpo do aparelho, dispensando o tradicional gabinete separado. E havia outra característica que tornava o produto ainda mais peculiar: ele podia funcionar sem fios e alimentado por pilhas.

A imagem lembrava uma espécie de híbrido entre videogame e controle remoto — algo que, décadas depois, pareceria antecipar a ideia dos consoles plug and play.

Stefano Arnhold, então presidente da Tectoy, explicou anos mais tarde que a criação do Super Compact foi uma resposta direta à perda de espaço do Master System para o Mega Drive. Segundo ele, a empresa precisava inventar algo diferente para manter o console relevante.

E então apareceu o Master System Girl

Se o Super Compact já era incomum, a Tectoy decidiu dar mais um passo. Surgiu o Master System Girl. O conceito era simples: pegar o Super Compact, pintá-lo de rosa e apresentá-lo como um produto voltado para meninas.

O console vinha acompanhado de uma alça para que pudesse ser carregado como se fosse uma bolsinha e trazia na memória jogos de apelo popular para o público jovem da época, como Mônica no Castelo do Dragão e, na sua segunda versão, com Sonic the Hedgehog na memória mais o cartucho da Turma da Mônica em O Resgate.

É um dos itens mais raros e disputados por colecionadores de retrogaming hoje em dia - e foi genuinamente brasileiro.

O Master System que cabia na mão

Foto: Reprodução

A Tectoy não parou no Super Compact. Em 2004, quando o Master System já era uma plataforma extremamente antiga para os padrões da indústria, surgiu o Master System Handy. E aqui a ideia ficou ainda mais radical.

Em vez de tentar reproduzir o console tradicional, a Tectoy transformou o Master System em um console em formato de controle, conectado diretamente à televisão. Não havia entrada para cartuchos.

O aparelho trazia 27 jogos na memória, sendo 20 deles provenientes da coletânea 20 em 1, formada por jogos produzidos pela própria Tectoy. Era o Master System entrando oficialmente na era dos consoles plug and play.

Enquanto fabricantes internacionais já começavam a olhar para máquinas retrô como produtos de nostalgia, a Tectoy havia encontrado uma maneira de manter seu velho console vivo no varejo brasileiro.

Master System 3 Collection: O fim dos cartuchos

Foto: Reprodução/VGDB

A transformação seguinte era inevitável. Se o público queria praticidade e preço baixo, por que continuar usando cartuchos?

A pergunta, curiosamente, continua bastante atual. Recentemente, a Sony anunciou que deixará de produzir discos físicos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. A partir dessa data, os lançamentos chegarão às lojas apenas em formato digital, inclusive por meio de revendedores que comercializarão códigos de download.

A decisão reacendeu uma discussão que acompanha a indústria há anos: o que acontece quando o videogame deixa de ser um produto que podemos guardar na estante e passa a existir apenas como conteúdo armazenado digitalmente? A Tectoy já havia começado a experimentar uma versão dessa transformação muito tempo antes.

A partir dos anos 2000, a empresa passou a utilizar versões de hardware baseadas em System on a Chip, substituindo boa parte dos componentes originais por soluções integradas. Foi assim que surgiram aparelhos como o Master System 3 Collection, que abandonavam a ideia tradicional de um videogame dependente de cartuchos para se transformar em uma máquina dedicada a reproduzir jogos armazenados internamente.

Os primeiros modelos traziam dezenas de títulos na memória. Depois vieram versões com 105, 112 e 120 jogos, até chegar ao modelo de 131 jogos, lançado na década de 2000. Era o começo de uma nova fase.

Master System Evolution: o console que se recusava a morrer

E então chegamos ao Master System Evolution. Lançado em 2011, o aparelho representava quase duas décadas de adaptações.

O desenho já não tentava reproduzir fielmente o Master System original. O hardware utilizava uma solução integrada, sem entrada para cartuchos, e os jogos ficavam armazenados diretamente na memória.

A versão lançada naquele ano trazia 132 jogos, dois controles e conexão A/V. Entre os títulos estavam clássicos como Sonic the Hedgehog, Alex Kidd in Miracle World, Altered Beast, Golden Axe, Shinobi, Shadow Dancer e Hang-On.

Em 2011, o PlayStation 3 e o Xbox 360 estavam no auge. O Nintendo 3DS acabava de chegar ao mercado. Os smartphones já começavam a transformar a indústria. E a Tectoy estava vendendo um Master System.

Não era uma máquina para competir tecnicamente com os consoles modernos. Era outra coisa. Era nostalgia transformada em produto.

Por que o Master System sobreviveu aqui?

Foto: Reprodução/VGDB

A explicação não está apenas na nostalgia. O Brasil tinha uma combinação particular de fatores. Os consoles da nova geração eram caros. A renda média era menor que a dos grandes mercados consumidores. A distribuição de produtos importados era complicada. E, acima de tudo, a Tectoy havia conseguido construir uma marca forte em torno da Sega.

Quando o Mega Drive chegou oficialmente ao Brasil, em dezembro de 1990, seria natural imaginar que o Master System perderia completamente seu espaço. Aconteceu o contrário. A Tectoy reposicionou o aparelho.

Ele passou a ser uma alternativa mais barata para famílias que não podiam — ou não queriam — pagar pelo console de 16 bits. O Master System deixou de ser simplesmente um produto da geração anterior. Virou o videogame barato da Sega. Essa estratégia ajudou a manter o console vivo durante décadas.

O Master System que virou brasileiro

Foto: Reprodução/VGDB

É difícil encontrar outro exemplo tão curioso de regionalização na história dos videogames. A Sega criou o Master System, mas foi a Tectoy que descobriu como mantê-lo vivo no Brasil por décadas.

A empresa reduziu o tamanho do aparelho, retirou componentes, criou versões sem fios, transformou console em um controle, lançou uma edição rosa, eliminou os cartuchos e colocou dezenas de jogos na memória. Em determinado momento, o Master System deixou de tentar acompanhar a indústria. Ele simplesmente criou um mercado próprio.

Mais do que o encerramento de uma linha de produção, o fim do Master System Evolution — o modelo final equipado com 132 títulos — simbolizou o término definitivo de uma era. A aposentadoria do videogame selou o fim da histórica aliança entre Sega e Tectoy atualmente, colocando um ponto final em um dos capítulos de mercado mais atípicos e duradouros já vistos na indústria global de games.

É um destino simbólico para uma máquina que passou mais de três décadas se reinventando. A Tectoy transformou um videogame de 8 bits em algo que a própria Sega provavelmente jamais teria imaginado: um produto capaz de atravessar gerações, mudar de formato várias vezes e continuar encontrando espaço nas lojas muito tempo depois de ter deixado de ser relevante nos principais mercados internacionais.

Hoje, mais de três décadas depois, o Master System sobrevive principalmente na memória de quem cresceu com ele — e nos aparelhos que a Tectoy criou para prolongar sua vida.

Fonte: Game On
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