Game On conversa com criadores de Outlive sobre retorno da franquia após 25 anos
Desenvolvedores comentam a respeito da remasterização, mudanças no RTS e adaptação para os dias de hoje
Voltar para um jogo depois de tanto tempo envolve mais do que atualizar gráficos. No caso de Outlive 25, a ideia foi revisitar a experiência original e ajustar o que fazia sentido para o cenário atual, mantendo o que marcou quem jogou lá atrás.
Conversamos com Rafael Dolzan e Rodrigo Dal’Asta, criadores do game original, sobre esse processo. Eles explicam como foi retomar o projeto com a equipe original, o que mudou na jogabilidade e como enxergam o espaço dos jogos de estratégia hoje.
Terra Game On: Outlive marcou época quando foi lançado originalmente. Em que momento vocês perceberam que era a hora certa de revisitar esse universo depois de tanto tempo?
Rodrigo Dal’Asta: Bom, na verdade a gente teve diversos ensaios. A gente pensou em voltar algumas vezes durante esse período, sempre muito motivado pela empolgação dos fãs que continuaram mantendo o jogo vivo, jogando e dando seus pulos.
Como a gente não dava mais suporte, o pessoal usava outros aplicativos para emular e jogar multiplayer. A gente tentou algumas vezes, mas não conseguimos reunir os cinco sócios originais com tempo suficiente. No ano passado, que por coincidência era o aniversário de 25 anos do lançamento original, a gente conseguiu reunir todo mundo com tempo para se dedicar ao projeto. E aí foi quando a coisa andou.
Rafael Dolzan: Só complementando, é interessante isso. Há um ano, na gamescom, a gente anunciou que estava voltando com Outlive. E agora, um ano depois, a gente consegue lançar e entregar o jogo. Pra gente é motivo de orgulho e satisfação, e também de agradecer muito à comunidade que participou de todo esse processo com a gente.
Terra Game On: Como foi o processo de reencontro criativo entre vocês? A dinâmica de trabalho mudou em relação à época do jogo original?
Rodrigo Dal’Asta: Na verdade somos os cinco sócios originais, então a gente voltou com o mesmo grupo. Mudou porque, naquela época, a gente trabalhava todo mundo no mesmo lugar. Hoje isso não é mais necessário. Cada um ficou no seu ambiente, em casa, desenvolvendo suas tarefas. E como é uma remasterização, o foco foi mais em aperfeiçoamento do que em criar tudo do zero.
A gente trabalhou muito em modernizar algumas dinâmicas. É um jogo de estratégia, um gênero mais nichado hoje, então a ideia foi trazer isso de volta com um ritmo mais atual. A parte gráfica também foi toda retrabalhada. Renderizamos tudo novamente em uma qualidade maior. As campanhas foram revisitadas com novos recursos para contar a história de forma mais dinâmica. No geral, a gente se organizou com reuniões frequentes e o processo fluiu bem. Tanto que em um ano conseguimos finalizar.
Rafael Dolzan: E uma coisa interessante dessa dinâmica é que, além dos cinco sócios originais, a gente também contou com uma nova geração. Tem o meu filho, o filho do Rodrigo e o filho do Daniel trabalhando com a gente. Então viramos uma equipe de oito pessoas. Cinco originais e três da família. Isso trouxe um olhar novo. Eles jogam bastante, sabem o que o público atual busca, um ritmo mais rápido, experiências mais dinâmicas. Isso agregou muito ao projeto e foi importante nesse processo de remasterização.
Terra Game On: O gênero de estratégia em tempo real passou por altos e baixos ao longo dos anos. Como vocês enxergam o espaço atual dos RTS e onde Outlive 25 se encaixa nesse cenário?
Rodrigo Dal’Asta: Ainda existem jogos que se mantiveram fortes, como a série Age, que continua com um público grande. Outros acabaram perdendo espaço ao longo do tempo. Isso acaba criando um espaço interessante para novos projetos. Existe um vazio que pode ser preenchido.
A nossa ideia é justamente tentar modernizar um pouco o gênero, deixar ele mais dinâmico e mais acessível para uma geração que está acostumada com jogos mais rápidos.
Rafael Dolzan: E quando a gente fala em remasterização, não é só pegar o jogo antigo e fazer rodar nas máquinas de hoje. A ideia foi renovar. Manter a essência, aquele sentimento de quem jogou lá atrás, mas trazendo melhorias nas dinâmicas, novas possibilidades de jogabilidade e mais variedade nas estratégias. Quem jogou o original vai perceber várias mudanças. Não é só visual. A jogabilidade também evoluiu.
Terra Game On: Pensando em novos jogadores que nunca tiveram contato com o Outlive original, o que vocês fizeram para tornar essa nova versão acessível?
Rodrigo Dal’Asta: Isso passa muito por deixar o jogo mais dinâmico. A nova geração tem menos paciência para aquele estilo mais clássico de estratégia. Então esse novo ritmo já é um primeiro passo. E a ideia é continuar evoluindo com base no feedback da comunidade, ouvindo quem joga para melhorar ainda mais a experiência.
Terra Game On: Houve alguma mecânica clássica do Outlive original que vocês consideraram cortar, mas decidiram manter por respeito à identidade do jogo?
Rafael Dolzan: O processo foi bem interessante porque a gente recebeu muito feedback da comunidade. Tivemos reuniões com jogadores mais envolvidos, que trouxeram sugestões e ideias.
Um exemplo foi o rush de unidades logo no começo da partida, que podia decidir o jogo muito rápido. A gente criou ajustes para evitar isso e abrir mais possibilidades estratégicas. Não diria que cortamos algo, mas sim que melhoramos pontos que eram mais frágeis. Hoje o jogo está mais robusto, com mais variação entre as partidas.
Outra coisa é o humor. O jogo sempre teve isso nas unidades, na dublagem feita pela própria equipe. Algumas piadas hoje poderiam até ser vistas de outra forma, mas fazem parte da identidade do jogo, então decidimos manter.
Terra Game On: Outlive teve uma importância grande para o cenário brasileiro na época. Vocês sentem algum tipo de responsabilidade extra ao trazer a franquia de volta hoje?
Rodrigo Dal’Asta: Não sei se diria responsabilidade, mas a gente entende que o que fizemos lá atrás, numa época em que o mercado praticamente não existia, acabou inspirando algumas pessoas. Foi um momento em que não tinha apoio, não tinha estrutura, e mesmo assim conseguimos lançar um jogo com distribuição internacional. Isso traz uma sensação muito boa, de ver que de alguma forma a gente contribuiu. E dá orgulho poder revisitar isso agora.
Terra Game On: O lançamento de Outlive 25 pode ser visto como um recomeço para a franquia. Já existem planos ou ideias para expandir esse universo daqui pra frente?
Rodrigo Dal’Asta: Ideias existem. Planos mais concretos ainda precisam ser trabalhados. Mas a gente sempre teve vontade de expandir esse universo. É uma temática que continua atual. Fala de robôs, engenharia genética, exploração de recursos, espaço. Tudo isso ainda conversa com o público hoje. Então existe sim a possibilidade de novos projetos dentro desse universo, mas ainda nada fechado.
Rafael Dolzan: Exato. Ainda não dá pra falar em datas ou projetos específicos, mas é uma vontade da equipe continuar trabalhando com a franquia e levar isso adiante.
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