Marathon encontra seu espaço mesmo em meio às polêmicas
Boa construção de mundo e ideias interessantes esbarram em decisões que travam o ritmo
A Bungie resolveu entrar de vez no gênero de extração, um espaço que vem crescendo nos últimos anos e que já tem nomes bem estabelecidos. Conhecida por construir experiências marcantes no multiplayer, a desenvolvedora tenta aqui encontrar um novo caminho, apostando em uma proposta mais tática e menos acelerada do que seus trabalhos anteriores.
Marathon surge justamente nesse cenário, tentando equilibrar narrativa, exploração e confrontos em partidas onde cada decisão importa. Mesmo com uma base interessante e um universo bem construído, já nos primeiros momentos dá para perceber que nem todas as escolhas funcionam tão bem quanto deveriam.
Corra para sobreviver
Por mais que seja um jogo com foco na experiência online, Marathon ainda traz uma explicação sobre o porquê de tudo aquilo estar acontecendo. Seguindo a mesma linha da trilogia anterior, a trama gira em torno da colônia Tau Ceti IV, que serve de palco para o conflito entre os corredores rivais, os personagens que podemos escolher, e a tropa de segurança da UESC, responsável por manter a ordem nas zonas onde esses confrontos acontecem. A grande questão é que ninguém sabe exatamente o que aconteceu quando a expedição Marathon desapareceu, e cabe a nós, com o tempo, ir descobrindo fragmentos desses eventos e entendendo mais sobre o passado daquela colônia.
Mesmo com a ausência de cenas mais diretas para conduzir a narrativa, o jogo entrega boa parte da história por meio dos contratos que vamos desbloqueando. Ao cumprir objetivos específicos, liberamos novos fragmentos no códice, que aprofundam o universo, as facções e os próprios corredores.
É interessante ver um jogo focado no online trazer uma história tão detalhada. Desbloquear essas partes do códice exige dedicação, mas a leitura acaba sendo recompensadora. Um ponto que merece destaque é a dublagem, que ajuda a dar ainda mais peso à narrativa. Tanto os corredores quanto os líderes das facções contam com vozes de dubladores conhecidos, como Fernanda Bullara e Francisco Júnior.
Vou ser sincero que nunca fui muito fã de jogos de extração, mas por ser um título da Bungie, e com Halo 2 e Destiny entre os jogos em que mais investi tempo, resolvi dar uma chance ao Marathon. Pelos trailers, o jogo parecia interessante, principalmente pela direção de arte e pela qualidade de jogabilidade que a Bungie costuma entregar, mas dessa vez, aquela pegada mais frenética e cheia de ritmo acabou ficando um pouco de lado.
Marathon traz uma jogabilidade mais cadenciada quando comparado a outros títulos da Bungie, o que até faz sentido dentro da proposta de extração. Os corredores possuem limite de stamina para correr, além de vários cooldowns ao usar habilidades de movimentação, como dash e deslize. Isso mostra uma tentativa de criar algo mais estratégico, mas também pode afastar quem espera uma experiência mais direta e dinâmica.
Por outro lado, os confrontos com a UESC e outros jogadores são ao mesmo tempo um destaque e um problema. Cada encontro traz a dúvida se vale ou não entrar em combate, já que enfrentar inimigos controlados pelo jogo pode ser até mais punitivo do que encarar outros jogadores focados em roubar nosso loot. Mas é justamente essa incerteza que revela um ponto que a desenvolvedora precisa melhorar, já que é bastante difícil distinguir quando estamos enfrentando um jogador ou as máquinas.
Para fugir da mesmice do gênero, o jogo oferece sete personagens com habilidades distintas. Cada um deles atende a um estilo de jogo diferente. Destruição é voltado para quem quer confronto direto, com habilidades ofensivas mais agressivas, enquanto Reconhecimento e Rook são mais indicados para quem prefere jogar de forma mais estratégica, principalmente em solo.
Esse elenco funciona bem pela variedade, e o mesmo vale para o arsenal do jogo. As armas fogem do padrão tradicional, mesmo dentro das categorias conhecidas. Muitas têm um visual que lembra algo saído de uma impressora 3D, algo que se reflete até nas animações de recarga, com soluções bem diferentes do convencional.
Entre as opções de mapas, como o Perímetro, que tem o nível de ameaça mais baixo, e o Pântano Lígubre, que já apresenta um desafio maior, existe também o Crioarquivo, que ajuda a explicar por que a Bungie pediu para que as análises não saíssem no dia do lançamento.
O Crioarquivo reúne o que a Bungie fez de melhor com as raides de Destiny. Ele funciona como um conteúdo de endgame, exigindo um certo nível de progressão e equipamentos mais fortes para ser acessado. A dificuldade é alta, o que torna essencial jogar em grupo e manter uma boa comunicação. Mesmo com poucos mapas, cada partida consegue ser diferente, e fica a expectativa por uma evolução de conteúdo semelhante ao que Destiny 2 teve em seu auge.
Apesar das polêmicas envolvendo a direção de arte, com acusações de plágio, é inegável que o trabalho visual chama atenção. Os personagens têm visuais bem marcantes, e o uso exagerado de cores cria uma identidade única dentro do gênero, principalmente quando comparado a jogos como Escape from Tarkov e Arc Raiders.
Essa estética também ajuda a reforçar a identidade das facções. Cada uma delas tem sua própria apresentação, quase como um comercial futurista. Um exemplo é a NuCaloric, que utiliza o rosa como cor principal e faz parte de uma grande farmacêutica dentro da história, interessada em entender o colapso da humanidade após os eventos dos primeiros Marathon.
Por fim, mesmo jogando no Xbox Series S, o desempenho é bastante sólido. O jogo mantém boa qualidade visual, com momentos que lembram o uso de ray tracing, e consegue segurar bem os 60 quadros por segundo, mesmo em situações com muitos inimigos. É um trabalho técnico bem competente da Bungie.
Considerações
Marathon tem ideias muito boas, principalmente na forma como constrói seu mundo e dá identidade para cada facção, personagem e elemento visual. A narrativa fragmentada funciona para quem gosta de explorar o lore, e o sistema de personagens ajuda a dar variedade para as partidas, principalmente ao adaptar diferentes estilos de jogo.
Por outro lado, o ritmo mais lento, a dificuldade em distinguir inimigos e algumas decisões de design acabam pesando na experiência. Ainda assim, existe uma base interessante aqui, e com ajustes no balanceamento e mais conteúdo ao longo do tempo, o jogo pode encontrar um espaço sólido dentro do gênero.
Marathon está disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no Xbox Series, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Bungie.