Crimson Desert é desses jogos que quando te fisga, é difícil parar de jogar
Mundo aberto de Pywel é um dos mais incríveis já feitos; jogo já recebeu melhorias desde que saiu, mas há espaço para aprimorá-lo ainda mais
Crimson Desert, o mais novo game da desenvolvedora sul-coreana Pearl Abyss, vem dando o que falar desde que foi lançado. Inicialmente o título deixou alguns jogadores desconfiados por causa das notas que determinados sites deram para ele, e até estreou no Steam com avaliações Mistas, mostrando que havia uma divisão inicial entre jogadores que gostaram e que não gostaram do jogo.
Após quase duas semanas, tempo no qual passei também jogando Crimson Desert por dezenas de horas, já que o Terra Game On recebeu o jogo apenas no lançamento, a situação mudou totalmente, com a maioria dos jogadores agora apoiando o jogo, e o motivo disso é bastante simples: trata-se de um game que começa devagar e até de forma confusa, mas depois de algumas horas, ele engata a segunda marcha e não para de melhorar, fornecendo uma das experiências mais gratificantes da geração.
O fantástico mundo aberto de Pywel
A história de Crimson Desert ocorre em Pywel, com você jogando com o protagonista Kliff, um guerreiro de elite e líder de um grupo conhecido como Jubas Cinzentas. A narrativa começa com Kliff e seus companheiros descansando em um acampamento até serem emboscados por um grupo rival chamado Ursos Negros, levando à dispersão dos Jubas Cinzentas e ao que parecia ser a morte de Kliff.
Kliff sobrevive e reaparece em um lugar estranho conhecido como Abismo, que depois de ser atravessado por ele, o leva de volta ao mundo normal, tendo sido resgatado e então parte em busca de informações sobre os Jubas Cinzentas.
A situação se inicia com missões simples do tipo ajudar um mendigo ou resgatar o gato de uma criança, mas elas têm o propósito de te apresentar personagens importantes, incluindo nomes como Alustin e uma mulher conhecida como Corvo Branco, guardiã do Abismo, com ambos confiando em Kliff para restaurar o equilíbrio do Abismo.
O problema nessas horas iniciais do jogo é que a história começa confusa e desconexa, com ela levando muito tempo até melhorar. Isso ocorre quando você chega no Capítulo 3, que é justamente o momento onde Kliff passa finalmente a reunir os membros dos Jubas Cinzentas e preparar sua vingança contra os Ursos Negros, ao mesmo tempo em que ajuda a população de Pywel e explora os mistérios por trás do Abismo.
Boa parte das missões na campanha te ensinam algum aspecto novo da jogabilidade ou nova atividade que você pode fazer. No entanto, Crimson Desert não fornece ajuda na resolução de quebra-cabeças e não te guia passo a passo em muitas dessas tarefas, cabendo ao jogador prestar atenção aos seus arredores, usar o mapa, fuçar e se guiar sobre o que fazer e como chegar em determinados locais.
Eu achei isso fantástico, pois é um jogo que não trata um jogador como idiota fornecendo dicas o tempo inteiro ou usando tinta amarela para mostrar onde ele deve ir. Pelo contrário, ele respeita a inteligência do usuário, deixando que ele se vire, igual ocorria nos jogos de antigamente. Há puzzles que são fáceis e você resolve rapidamente, mas há alguns onde você passará minutos pensando até chegar na resposta, e isso ocorre sem o game te dar qualquer tipo de auxílio.
Embora eu considere isso positivo, há alguns pontos onde o jogo poderia, sim, ser mais claro ao jogador, como por exemplo o fato de que tocar os sinos nas cidades serve para revelar as áreas em volta dela no mapa, ou então que você precisa apenas segurar os botões de ataque para atacar, não sendo necessário ficar apertando eles repetidamente.
O mundo de Pywel é incrivelmente vasto, vivo e repleto de conteúdo, lembrando até mesmo os jogos da Bethesda, como The Elder Scrolls, e sendo até melhor nesse aspecto do que títulos como The Witcher 3 e Red Dead Redemption 2. Ele me parece uma espécie de Dragon’s Dogma melhorado, pois na franquia da Capcom você também não recebe muita ajuda e acaba tendo que se virar na maioria das situações.
Assim que você termina uma missão opcional, aparece alguma outra no mapa esperando por você. A melhor forma de rastreá-las, aliás, é utilizando o menu do Diário, pois nele elas ficam listadas nos grupos e facções que lhes dão elas. E acredite, são muitas. Muitas mesmo. Felizmente você tem uma montaria e pode até mesmo voar para se locomover, isso sem falar do uso de pontos de viagem rápida.
Você também pode explorar as moradias e as muitas paisagens do jogo em busca de segredos, com alguns estando muito bem escondidos. Há inclusive casas com passagens secretas e cofres contendo tesouros.
Além das missões, há minigames que você pode fazer para passar o tempo e obter recompensas, como disputa de braço de ferro, jogo de cartas (onde as cartas são bastões), torneio de arco e flecha, clube da luta, pescaria, e assim por diante. Isso sem falar de coisas como obter mascotes por meio de um sistema de confiança, que incluem cães e gatos, e equipá-los para que sigam você em suas aventuras. Por falar nisso, há uma vila secreta repleta de gatos, que você acessa apenas completando uma missão específica.
Falando mais do sistema de confiança, ele abrange todos os NPCs do jogo com os quais você pode interagir. Aumentar a confiança de alguns deles por meio de presentes, missões ou cumprimentando eles resulta em coisas como preços melhores nas lojas e itens exclusivos.
É tanto conteúdo opcional em Crimson Desert que isso acaba tirando a atenção da campanha, especialmente pelo fato dela não começar muito bem. Mas eu recomendo e muito que você jogue ela primeiro antes de desbravar com mais ímpeto o mundo do jogo, pois ela te oferece novas habilidades, armas e equipamentos que são muito úteis, além de te introduzir a muitos dos sistemas e mecânicas do jogo.
Por exemplo, há um sistema de mercenários que você só ganha acesso depois de muitas horas, servindo para que você envie seus companheiros dos Jubas Cinzentas em missões alternativas ou para limpar locais que estão infestados de bandidos, livrando você de ter de fazer isso.
Há também uma missão obrigatória no Capítulo 6 que te coloca no meio de uma guerra, com você tendo que ajudar seus aliados a enfrentar uma verdadeira horda de inimigos enquanto aumenta a moral deles, destroi os suprimentos do exército invasor e faz uso de artilharia pesada para derrubar torres inimigas. Há até mesmo tanques (sim, tanques) com formato de tartaruga e diversos canhões, cuja localização você marca com uma flecha especial para que a equipe de artilharia os destrua. E isso tudo culmina com uma luta contra um chefe poderoso em uma fortaleza, que ao ser derrotado avança a história e lhe dá recompensas.
Além disso, é progredindo na campanha que você libera dois personagens jogáveis adicionais - Damiane e Oongka - que têm suas próprias habilidades e podem ser utilizados no lugar de Kliff. Damiane é versátil e bastante rápida, e você libera ela até que bem rápido, enquanto que Oongka é a força bruta encarnada e demora um pouco mais até ficar jogável. Ambos, no entanto, não são tão fortes quanto Kliff. Vale ressaltar que o inventário dos três é compartilhado, o que facilita na hora de obter itens para cada um.
Não existe um sistema de nível ou de experiência em Crimson Desert, sendo necessário explorar o mundo do jogo e completar suas atividades para obter algo chamado Artefatos do Abismo para aumentar as habilidades, vida, vigor e espírito de cada personagem. Esses Artefatos também são obtidos de outras formas, como roubando NPCs com eles, derrotando inimigos e completando desafios.
O game também conta com um sistema de reputação em cada região, aumentando sempre que você ajuda os moradores ou conclui alguma missão para eles. Ele te dá pontos que podem ser trocados por itens em um lojista especial. No entanto, se for apanhado roubando ou atacando pessoas inocentes, ou até mesmo depredando propriedade pública ou privada, será eventualmente preso por isso.
Os combates são outro ponto do jogo que começam de forma confusa, mas melhoram muito com o passar das horas. Aliás, esse é um aspecto que se aprimorou bastante depois do lançamento, ficando mais fácil encarar grupos de inimigos e chefes desde então. A forma de abordagem dos combates é vasta, com as habilidades que você adquire se adequando ao tipo de arma que estiver usando, seja espada, lança, arma longa de duas mãos ou armas duplas, no caso de Kliff. Se quiser, dá até mesmo para lutar usando apenas as mãos nuas, por meio de golpes marciais e ataques dignos da luta-livre profissional.
Além de aparar ataques e desviar deles, também é possível realizar combinações de botões para efetuar golpes especiais, com alguns deles sendo consideravelmente fortes se bem executados. Golpes que usam elementos ajudam a quebrar a defesa do oponente para deixá-lo aberto a um ataque com armas. Nas lutas contra múltiplos inimigos, há ocasiões onde após vencer a maioria deles, o restante decide fugir, com você podendo ir atrás deles ou não.
Uma das builds que mais gostei de usar envolvia equipar duas espadas com poderes especiais. Uma delas permitia dar ataques com R1 que soltavam ondas de água nos inimigos e com a outra eu apertava R2 para efetuar golpes que evocavam corvos que atacavam inimigos próximos. São duas armas muito fortes e obtidas na campanha, por isso a importância de não ignorá-la. E acredite: como eu disse antes, ela passa a melhorar de forma substancial a partir do Capítulo 3.
Todas as armas, armaduras e acessórios podem ser aprimorados nos ferreiros, desde que você tenha os materiais necessários para isso. É algo essencial para aumentar sua defesa e ataque. Existem lojas onde você pode comprar equipamentos novos, os quais podem também ser obtidos de inimigos comuns, locais secretos, e mais.
Um aspecto interessante das lojas, aliás, é que nem tudo que elas vendem está no menu de interação com o lojista. Olhe na própria loja e verá itens expostos que podem ser comprados somente desta forma, com você interagindo diretamente com eles.
Você também pode colocar encaixes nas armas e armaduras, e anexar nelas os Equipamentos do Abismo, que são esferas que concedem diversos efeitos, incluindo novas habilidades. Trata-se de um sistema que pode ser acessado apenas através das Bruxas de cada região.
Cozinhar faz parte da jogabilidade e é essencial nas lutas, pois é com os alimentos que você vai se curar nas batalhas e ganhar incrementos temporários, que podem inclusive te proteger de condições climáticas extremas. Encarar um chefe com um estoque de comida no inventário pode fazer a diferença entre a vitória e a derrota.
Quanto ao inventário em si, existem lojas que vendem um item específico que aumenta o espaço nele, que também pode ser expandido completando certas missões. Além disso, um patch disponibilizado após o lançamento incluiu um baú onde você pode guardar as coisas sobressalentes que não esteja querendo vender. Dito isso, senti falta de uma forma de organizar melhor os itens por categorias.
Avançar na campanha vai lhe dando acesso a esses e outros recursos na jogabilidade. Dá até mesmo para fazer coisas como erguer um tronco pesado e usá-lo para atacar inimigos ou então usar um gancho em forma de garra chamado Força Axion para segurar os adversários. Esse gancho, aliás, também serve para agarrar e mover objetos.
Gráficos de cair o queixo
Outro aspecto de Crimson Desert que chama a atenção são os gráficos, que deixam o mundo do jogo incrivelmente vivo e detalhado. Tanto a parte artística quanto a técnica ficaram incríveis, oferecendo um verdadeiro espetáculo visual.
Isso fica ainda mais verdadeiro no PC, especialmente se você tiver como rodar o jogo usando Ray Reconstruction, que melhora ainda mais a iluminação, sombras e reflexos. Dito isso, não é necessário fazer uso desse recurso para contemplar os belíssimos visuais do jogo.
A otimização está excelente. Existem várias opções para customizar o gráfico do jogo, além do suporte para tecnologias de upscaling e Frame Generation. Caso você tenha um PC modesto, não recomendo fazer uso do Ray Reconstruction. A opção de iluminação também é bastante exigente, sendo algo que você pode reduzir a qualidade para ganhar mais performance.
O que ainda precisa melhorar
Crimson Desert é o tipo de jogo que só tende a ficar melhor com o passar do tempo, já que a Pearl Abyss está atualizando ele com frequência desde o lançamento.
Ao meu ver, ainda existem duas coisas essenciais que ela precisa olhar com mais atenção. Primeiro é a câmera nos combates, que ainda não está boa, com ela ficando em posições estranhas enquanto você se mexe, atrapalhando em alguns momentos tanto em chefes quanto nas lutas contra inimigos normais, especialmente se há vários deles te atacando ao mesmo tempo.
A outra é a forma como você interage com NPCs e objetos nos cenários. É extremamente incômodo ter de ficar segurando L1/LB e mirar onde você quer pegar um determinado item ou falar com um NPC. Isso precisa ocorrer de forma mais natural e rápida, inclusive dando a possibilidade de excluir as animações de coleta na hora que você pega materiais e itens no cenário.
Outros incrementos incluem o sistema de menu do jogo, que continua precisando de ajustes para facilitar a navegação nele. A localização em português já teve correções, mas ainda vejo alguns diálogos onde a tradução acabou ficando diferente demais daquilo que é dito na fala em inglês. Falando do inventário, ele precisa de uma forma melhor de organizar os itens dentro dele.
Também considero importante que seja incluído um botão que permita avançar as horas de jogo, sem a necessidade de usar uma cama ou fogueira para isso. Embora haja missões onde o próprio jogo te permite avançar até o ponto onde ela pode ser iniciada ou ter seu objetivo alcançado, há algumas onde isso não acontece, te forçando a achar uma cama ou fogueira para avançar o tempo, o que não é nada prático.
A iluminação e sombras do game às vezes ficam bugadas nos cenários e personagens quando você está em ambientes internos escuros e com pouca luz, ou em lugares externos durante a noite. Trata-se de algo que a Pearl Abyss também precisa remediar.
Por fim, o Frame Generation causa ghosting em elementos da interface quando você está se movimentando rapidamente. Outro defeito que tem de ser corrigido.
Considerações
Crimson Desert oferece uma das melhores experiências de mundo aberto que já vi, com uma mistura corajosa e funcional de inúmeros elementos diferentes e gráficos que estão entre os mais bonitos da geração. A história, exploração e a jogabilidade começam devagar, mas depois de algumas horas melhoram de forma drástica, dando aos jogadores momentos que vão ficar na memória deles por muito tempo.
No final das contas, apesar de ainda haver aspectos que podem ser aprimorados, é um título imperdível para quem preza por jogos que focam em dar muita liberdade ao jogador. São centenas de horas de conteúdo, com potencial para deixar você ocupado por meses até conseguir ver e fazer tudo.
Crimson Desert está disponível para Mac, PC, PlayStation 5 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no PC, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Pearl Abyss.