O que explica a eliminação histórica do Brasil no Mundial de Vôlei?
Vitória da República Checa sobre a China faz com que seleção não avance ao mata-mata do torneio disputado nas Filipinas
A seleção brasileira masculina de vôlei está eliminada do Mundial. Nesta quinta-feira, a vitória da República Checa sobre a China, somada à derrota do Brasil diante da Sérvia, por 3 sets a 0, impediram que a seleção avançasse para o mata-mata da competição, disputada nas Filipinas neste ano. É a pior campanha do time nacional, considerando os resultados das seleções masculinas e femininas.
O desempenho em quadra neste ano não esteve nos mesmos níveis de outras edições. Não à toa, esta é a primeira vez desde 2002 que a seleção masculina não termina o torneio com o pódio. Na última edição, já havia sido eliminada nas semifinais.
O pior tropeço da seleção em Mundiais se deu justamente na partida contra a Sérvia — resultado que se somou a fatores extracampo. A delegação brasileira chegou ao confronto abalada com a morte de Maria Ângela Rocha Rezende, mãe de Bernardinho, aos 90 anos. Do outro lado do mundo, o treinador não pôde estar ao lado da matriarca e, antes do jogo do Mundial, desabou em lágrimas durante o hino nacional.
Essa foi a única derrota do Brasil na fase de grupos. Em outros anos, pelo regulamento, avançaria para o mata-mata. Até a última edição, os melhores terceiros colocados também garantiam vaga. Sérvia, República Checa e seleção brasileira terminaram empatadas em pontos no Grupo H, com seis cada. A eliminação se deu nos critérios de desempate, já que o Brasil foi a única equipe que perdeu um set para a China neste ano, na vitória por 3 a 1.
Regulamento e a fatalidade com Maria Ângela não eximem, no entanto, Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) das decisões tomadas no comando técnico ao longo dos últimos anos. Bernardinho foi chamado de última hora, a menos de um ano da Olimpíada de Paris, para assumir a posição deixada por Renan Dal Zotto, logo após a classificação da seleção para os Jogos.
Dal Zotto foi o nome escolhido pela confederação após Bernardinho deixar o cargo vago com a medalha de ouro em Rio-2016. O treinador assumiu em 2017, com a missão de iniciar uma transição entre as gerações. Durante seu trabalho, promoveu a estreia de Alan nos Jogos de Tóquio, oposto que é um dos homens de confiança de Bernardinho no elenco atual. Também foi sob seu comando que Leal, cubano naturalizado brasileiro, pôde estrear e ganhar destaque na seleção.
O treinador renunciou alegando problemas de saúde. Em 2021, precisou ser entubado e ficou 36 dias internado em decorrência de uma infecção pelo vírus da covid-19. "Tomei a decisão esta semana, falei com minha mulher. É hora de dar uma pausa. Foi uma decisão familiar, vou me afastar da seleção brasileira, mas não do vôlei. Uma orientação médica também, por tudo o que passei em 2021?, afirmou Renan à época.
O trabalho de Dal Zotto era questionado. Sob seu comando, o Brasil terminou em quarto nos Jogos de Tóquio e ficou fora do pódio pela primeira vez desde 2000, em Sydney, quando caiu em sexto. Também passou em branco no Mundial, mas conquistou a Liga das Nações em 2021. Bernardinho, que não tinha planos de retornar à seleção, foi pego de surpresa com o convite da CBV e precisou encontrar caminhos para recolocar a seleção nos trilhos.
Essa mudança na comissão auxilia a entender também o oitavo lugar brasileiros nos Jogos de Paris. Em dezembro de 2023, o cenário de desconfiança sobre as seleções masculina e feminina fez com que a CBV dobrasse a aposta para manter Bernardinho e Zé Roberto Guimarães, independentemente do resultado que o vôlei brasileiro registrasse em Paris.
A missão de entregar uma nova geração brasileira, pensando também em Los Angeles-2028, recaiu sobre o colo do experiente treinador. O elenco atual ainda não tem a mesma experiência do período de ouro do vôlei brasileiro, que contou com nomes como Giba, Serginho, Bruninho, entre outros. Mas provou, na Liga das Nações deste ano, que poderia ir além no Mundial.
O enfraquecimento da Superliga desde 2020, em função da realidade financeira e da pandemia, também teve efeito sobre o elenco. A queda do retorno com a competição, em interesse do público, audiência e fortalecimento do elenco, pensando para os Jogos.
A tendência é que Bernardinho continue no comando da seleção masculina até Los Angeles-2028. O mesmo vale para Zé Roberto Guimarães, que também lidera um processo de rejuvenescimento na equipe feminina — mas que, diferentemente de seu colega de profissão, terminou com o pódio no Mundial deste ano.
A análise da CBV, agora, passa por um entendimento de que o resultado desta quinta-feira seja fruto de um acaso ou por qualquer erro de avaliação na comissão de Bernardinho. O mais provável, também, é que se siga a aposta no treinador, com base no resultado na Liga Mundial.