Choque cultural árabe tem sacrifício, proibição e pôquer
Adaptação de brasileiros nas quadras de vôlei é tranquila, mas fora dela sobram episódios curiosos e proibições "estranhas"; convívio com compatriotas ajuda
As dificuldades do mercado do vôlei no Brasil fizeram com que uma nova frente internacional fosse aberta para os jogadores brasileiros: o Oriente Médio. Com estabilidade financeira e propostas vantajosas, muitos têm apostado na troca de país para sobreviver do esporte. Se o nível da modalidade no mundo árabe é reconhecidamente baixo, as maiores dificuldades vividas são na adaptação fora das quadras, o que acaba causando casos curiosos envolvendo sacrifício animal, proibições incomuns e rodadas de pôquer.
Segundo o empresário Rodrigo Canhoto, responsável por negociar muitas das transferências para o Oriente Médio, os brasileiros perderam a resistência quanto à mudança bruta de cultura. “Tempos atrás tinha um receio, mas como vários grandes jogadores acabaram indo para essas ligas, acabaram servindo de espelho, e os caras ficam mais seguros de ir para lá. Hoje, não vejo empecilho. O pessoal até gosta”, afirmou, em entrevista ao Terra. A vida pode ser muito boa e curiosa no mundo árabe.
Isso pode ser atestado pelas postagens dos atletas que por lá estão em seus perfis nas redes sociais: paisagens paradisíacas, culinária típica, sítios históricos, carros de última geração, arranha-céus, falcoaria, deserto, camelos e animais em geral fazem parte da experiência, além, obviamente, do dia-a-dia do vôlei. As eventuais dificuldades não são associadas à relação com o morador local. “Fui acolhido muito bem nos Emirados Árabes. O pessoal daqui foi muito receptivo e faz de tudo para eu me sentir em casa”, afirmou o ponteiro Thiago Sens, que atua pelo Al Jazeera.
Há algumas especificidades, no entanto. O levantador Matheus Veloso, por exemplo, encarou sua primeira viagem internacional ao acertar com o Al-Gharafa, do Catar. "A diferença cultural foi bem chocante, com algumas tradições como comer arroz com a mão ou ter cuidado para não mostrar a sola do pé para ninguém caso cruzasse as pernas, porque é falta de respeito para eles", contou. Algo parecido ocorreu com o técnico Carlos Schwanke, que comanda o Ah-Hilal, da Arábia Saudita.
O treinador foi a um shopping de Riyadh, capital do país, usando bermuda e acabou colocado para fora por não estar com vestimenta adequada. "Vivendo e aprendendo. Daquele dia em diante, só calça", disse Schwanke, que encontrou na Arábia Saudita costumes rígidos, principalmente ligados à religião – 97% da população local é muçulmana. Nada que o desencorajasse, no entanto. "Minha família veio para cá me visitar, e eles adoraram este mundo árabe", afirmou.
A situação mais curiosa, sem dúvida, foi vivida pelo oposto Leandrão. Atualmente no Taubaté, ele jogou na temporada 2012/2013 no Pishgaman, do Irã, segundo maior país do Oriente Médio. "Eles mataram uma cabra antes de um jogo primordial. Fiquei meio chocado com isso. Foi na frente de todo o ginásio antes de um jogo contra a equipe campeã”, contou. No geral, no entanto, a experiência foi boa: “a gente respeita a cultura deles e eles respeitam a nossa. Tem as diferenças culturais, mas a educação e o respeito vêm em primeiro lugar no mundo inteiro".
Os eventuais problemas são superados com a ajuda do número cada vez maior de brasileiros nos países do Oriente Médio. “Já conheci alguns e isso vem me ajudando bastante na adaptação ao local”, disse Thiago Sens. Carlos Schwanke, por sua vez, dribla a falta de opções de Riyadh com rodadas de pôquer. “A gente costuma jogar um pôquer na casa de um, faz uma janta na casa de outro, e assim vai conhecendo os brazucas. O Thiago Neves e o Digão jogam futebol no Al HIlal, encontro mais vezes com eles e, de vez em quando, fazemos uma mesa de pôquer para sair da rotina”, contou.
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