Giovane culpa transição acelerada por vexames recentes do vôlei masculino e pede volta do 'velho Bernardinho'
Bicampeão olímpico analisou transição de carreira e sobre como aborda a carreira --e seus desafios-- em palestras corporativas
Giovane Gávio foi um dos jogadores que levaram o torcedor brasileiro a se acostumar com as maiores glórias do vôlei. Depois de conquistar praticamente tudo com que um atleta pode sonhar --dois ouros olímpicos, um título mundial e o reconhecimento como melhor jogador do planeta--, ele passou a ocupar um papel diferente no esporte brasileiro.
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Aos 55 anos, um dos maiores atletas da história da seleção brasileira observa o momento de reconstrução do vôlei masculino com o olhar de quem viveu algumas das gerações mais vitoriosas da modalidade, ao mesmo tempo em que transforma essas experiências em palestras sobre liderança, gestão de equipes e alta performance.
Nos últimos três anos, a equipe de Bernardinho, tão acostumado com as glórias, passou a acumular recordes negativos. Primeiro, a inédita derrota para a Argentina no Sul-Americano, em 2023. No ano seguinte, na Olimpíada de Paris, a seleção masculina ficou fora da semifinal pela primeira vez no século. Em 2025, nova decepção, com o 17º lugar no Mundial, a pior posição do País na história da competição. E, nesta temporada, veio um novo baque ao ficar fora da fase final da Liga das Nações –foi apenas a segunda vez em 40 anos que isso aconteceu.
Para Giovane, o desempenho recente do Brasil na modalidade não pode ser explicado apenas pelos resultados. Na avaliação do bicampeão olímpico, a renovação aconteceu de maneira diferente daquela vivida por sua geração, quando os jovens eram inseridos aos poucos em grupos formados por jogadores experientes.
"Acho que esses jovens não tiveram, ainda, o tempo de maturação, ainda não jogaram em um nível no qual eles precisam jogar por mais tempo para poder conseguir tomar boas decisões. Talvez a gente não tenha feito esse processo de renovação com eles da forma como poderíamos ter feito, talvez eles tivessem que ter jogador mais para chegar lá na seleção", afirma.
Ao mesmo tempo, Giovane faz um alerta contra análises simplistas. Para ele, o voleibol internacional evoluiu, reduziu a distância entre as principais seleções e tornou o cenário muito mais competitivo do que nas décadas em que o Brasil dominava a modalidade.
"O mundo todo melhorou. Hoje, o nível é mais equilibrado lá fora. Recentemente, a gente viu um jogo das últimas rodadas da VNL (Liga das Nações de Vôlei), Polônia e Estados Unidos. Poxa, os Estados Unidos têm um dos melhores levantadores do mundo, um dos melhores atacantes, e perdeu de 3 a 0. Será que eles estão recebendo essa carga negativa que a gente está colocando em cima da seleção brasileira?", questiona.
Na opinião de Giovane, a análise sobre o atual cenário do vôlei brasileiro precisa considerar, também, um contexto diferente daquele vivido pelos campeões olímpicos de Barcelona-1992 e Atenas-2004: além da evolução técnica dos adversários, a presença das redes sociais ampliou a cobrança sobre jogadores e comissão técnica.
"Hoje, a torcida é muito mais ativa, mais presente. É óbvio que o passado da seleção é um passado de glórias, conquistas com jogadores fantásticos e isso, de certa forma, gera uma expectativa gigante em relação a resultados", acrescenta.
Liderança de Bernardinho
As reflexões sobre a seleção brasileira esbarraram, naturalmente, no episódio ocorrido durante a Liga das Nações, quando o líbero Maique Reis respondeu 'relaxa, é minha' durante uma discussão com o técnico Bernardinho, no duelo contra a Ucrânia. Na ocasião, o Brasil perdeu por 3 sets a 1.
O vídeo viralizou e gerou debates nas redes sociais, dividindo opiniões entre os torcedores. Giovane vê a discussão como algo que vai além de um momento isolado e diz respeito à forma como a liderança é exercida dentro de equipes de alta performance.
"É o tipo de atitude que para mim está fora. Eu não acho que esteja certo, para mim é falta de respeito com um dos caras mais importantes do vôlei brasileiro. Não é um ataque ao Maique e eu estou aqui fora, é muito mais fácil falar, lá dentro não é simples, mas são tipos de atitude que, para mim, não cabem", afirma.
O bicampeão olímpico afirma ainda que gostaria de ver Bernardinho resgatar características que marcaram sua trajetória nas gerações vencedoras. Na visão dele, o treinador continua sendo uma referência técnica e humana para o esporte brasileiro.
"A única coisa que eu falaria para o Bernardo é: 'Faz o que você fez com a gente'. Não sei se o momento permite ele fazer o que fez com a gente, não que tenha feito algo de errado com a gente, pelo contrário. É um cara extraordinário. A gente precisa de bons líderes. Ele e Zé Roberto (Guimarães), são caras diferenciados. Mas talvez o Bernardinho esteja mudando um pouco as características dele, que eu acho que são importantíssimas e, poxa, faziam uma diferença enorme para a gente.”
Das quadras aos palcos
Essa capacidade de enxergar o esporte além do placar passou a definir, também, a rotina de Giovane fora das quadras. Desde 2021, ele constrói uma nova carreira como palestrante, compartilhando com as empresas as lições acumuladas em mais de quatro décadas no alto rendimento. A mudança nasceu depois de uma conversa que mudou sua forma de enxergar o próprio legado.
"Eu era o técnico do time do SESC Rio de Janeiro, a pandemia começou a ficar um pouco mais forte. Nesse meio, a diretoria do SESC, a Regina, me liga e fala que o time acabaria. A boa notícia é que eu poderia continuar com eles como uma figura de embaixador e de inspiração para os jovens", conta.
"E ela me fez uma provocação, me perguntou quantas pessoas eu treinava. Falei que era uma média de 16 atletas, e ela falou: 'Poxa, acho que você deveria pensar em treinar 16 milhões'. Naquela hora, deu um negócio em mim e falei: 'É isso, já fui um jogador bem-sucedido, treinador bem-sucedido, talvez seja minha última fase profissional, vou virar um treinador de pessoas'. E foi dali em diante que a gente começou a pensar nas palestras, nos treinamentos corporativos, demos mais ênfase ao Instituto Giovane Gávio, fazendo os projetos sociais e os projetos de vôlei, essa foi a grande virada de chave", revela.
Nas apresentações, o ex-jogador aproxima o universo esportivo do ambiente corporativo. Liderança, preparação, trabalho em equipe e desenvolvimento de talentos aparecem como conceitos centrais, mas sempre acompanhados por relatos pessoais, tanto das conquistas quanto dos momentos de dificuldade.
Um dos momentos mais marcantes diz respeito ao período posterior ao ouro olímpico de Barcelona e ao prêmio de melhor jogador do mundo. A pressão por manter o nível de desempenho acabou desencadeando problemas de saúde que, hoje, Giovane trata com naturalidade.
"Uma pressão gigantesca que eu não aguentei, tive consequências importantes. Em função disso, tomo remédio para pressão, já tive labirintite, tive síndrome do pânico. Ali, em 1996, eu não consegui pedir ajuda. Resolvi, por conta própria, fugir e procurar um novo ambiente. Fui para o vôlei de praia, fiz uma enorme confusão na minha vida para entender que sozinho não dá", conta.
Essa mesma visão aparece quando fala sobre liderança dentro das quadras. Giovane defende que autoridade é construída pelo exemplo e pelo respeito mútuo --princípios que também orientam suas palestras.
Mesmo com a agenda voltada ao mundo corporativo, o bicampeão olímpico segue próximo do esporte por meio do Joinville Vôlei e acompanha atentamente o processo de renovação da seleção brasileira. É um olhar de quem conhece os bastidores da formação de equipes, mas que hoje prefere compartilhar aprendizados em vez de apenas analisar resultados.
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