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Time de beisebol inicia série de 37 jogos fora de casa

2 mar 2009 - 15h55
(atualizado às 15h56)
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Dois dias depois de deixar a cidade de Presque Isle, Maine, na fronteira do Canadá, o ônibus transportando os 14 jogadores, dois técnicos e um dirigente chegou ao estacionamento do campo de beisebol do Ferrum College, na Virgínia Ocidental. A viagem levou 22 horas, mas era o final da estrada para essa equipe de beisebol universitário. Ou seria apenas o começo? A partida dupla contra o Ferrum naquele dia de fevereiro seria o primeiro dos 37 jogos consecutivos que a equipe da Universidade do Maine em Presque Isle jogará fora de casa este ano.

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Como no norte do Maine o inverno pode durar até maio, Presque Isle costuma jogar toda sua temporada fora de casa. Com um campus localizado 640km ao norte de Boston, a o Presque Isle Owls não joga uma partida em casa desde 2005, quando houve dois jogos em seu estádio. "Podemos ou nos queixar que o campo de beisebol está coberto por dois metros de neve ou viajar para onde se pode jogar", disse Taylor Delaney, aluno do segundo ano e membro do time. "Não nos queixamos".

Esperando pelo momento de treinar no Ferrum, os jogadores que estavam no ônibus - nenhum dos quais já jogou uma partida em casa - estavam abotoando seus agasalhos e calçando as meias de jogo quando uma mulher se aproximou e bateu na porta. Há uma mensagem de duas ilhas na porta do veículo: "Universidade do Maine em Presque Isle. Ao norte do lugar comum". Quando ela entrou no ônibus, perguntou: "Mas onde fica lugar comum"?

As universidades famosas por suas equipes de basquete e futebol americano ocupam espaço permanente na televisão; são empreitadas dispendiosas onde o excesso é a norma. Menos vistos, mas integrantes da mesma comunidade do esporte universitário temos times como o de Presque Isle, que sacolejava pelas silenciosas estradas rurais da Virgínia em busca de um jogo.

"Podem acreditar: sabemos a diferença entre eles e nós", disse D. J. Charette, jogador de primeira base, enquanto o ônibus percorria a interestadual 81. "Para eles, o esporte valeu bolsas acadêmicas, e eles podem pensar em fazer carreiras como atletas. Não é esse o nosso mundo. Só queremos jogar", diz.

Presque Isle tem um time de beisebol desde pelo menos a década de 1940, quando o exército construiu um campo de pouso no local, do qual centenas de caças partiram em seus vôos de transferência para a Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Os times de beisebol de Presque Isle sempre jogaram fora. Mas em uma era de superfícies de jogo resistentes ao clima e de complexos esportivos universitários cobertos, a equipe talvez seja a única dos Estados Unidos a regularmente jogar a maioria de suas partidas fora de casa.

A universidade, conhecida como UMPI, tem equipes na divisão III da Associação Nacional do Esporte Universitário (NCAA) e na Associação Nacional de Atletismo Interuniversitário. Representantes de cada organização disseram que eles não têm registro de outras equipes de beisebol que joguem temporadas inteiras sem ao menos uma partida em casa.

Mas os jogadores de inverno de Presque Isle continuam a jogar, e riem quando equipes adversárias zombam deles pelo frio ou perguntam se carregam neve com ele no ônibus do time. A única instalação para treino de inverno em Presque Isle é o ginásio de basquete, e isso torna o treinamento uma aventura. Pelo fato de todo o dinheiro extra conseguido pelo time ser transferido para o extenso orçamento de viagem, não há verba para tacos tecnologicamente avançados. Os capacetes também são claramente velhos.

Os jogadores recebem uma diária de alimentação de US$ 15. Ficam em hotéis econômicos, quatro jogadores por quarto a uma diária de US$ 60, em hotéis da cadeia Howard Johnson a preços do mês passado. Não há bolsas esportivas, e o ônibus da equipe não tem banheiro. Eles estão, literal e figurativamente, a muitos quilômetros de distância do mundo caro e artificial do beisebol profissional.

"Nós o fazemos por amor ao esporte", diz Brandon Elie, um aluno de quarto ano. "Nós o fazemos porque jogamos desde crianças, e não desejamos parar". Charette diz que "ninguém precisa ter pena de nós. É divertido. Lamento pelas pessoas que não têm a oportunidade de jogar beisebol universitário".

O céu do final de tarde era uma mistura de neve e granizo quando o ônibus de Presque Isle deixou o Maine para iniciar a viagem à Virgínia. A equipe poderia ter partido mais cedo, antes da tempestade, mas o técnico Leo Saucier não queria que qualquer dos jogadores tivesse de perder aulas. A despeito de todas as viagens, os jogadores que ele comanda trabalham em colaboração com os professores da universidade a fim de minimizar as faltas e compensar as tarefas devidas, ou realizar exames com antecedência, mesmo que isso signifique estudo adicional e antecipado.

A primeira parada da viagem aconteceu em Boston. O segundo dia envolveu mais 15 horas de estrada, incluindo diversas paradas para alimentação e ir ao banheiro. Quando o time chegou ao seu hotel na Virgínia, às 23h, os jogadores descarregaram suas malas e equipamento, uma carga suficiente para encher um pequeno reboque. Quando os jogadores entravam no hotel, tiravam seus bonés ou gorros, em respeito a uma regra da equipe que todos eles seguem.

"Queremos demonstrar respeito aos hotéis e restaurantes que visitamos", disse Andrew Parker, jogador de primeira base, mais tarde. "Não queremos que as pessoas falem mal daquele time do Maine que receberam um dia".

A equipe do Maine perdeu as duas partidas da rodada de abertura contra o Ferrum College, e no dia seguinte, contra o Lynchburg College, uma das potências do beisebol da divisão III, estava perdendo por 15 a um no final do quinto período.

No dia seguinte, disputando sua quarta partida em três dias - depois de cerca de nove meses sem jogos oficiais -, os arremessadores de Presque Isle pareciam estafados, em uma derrota por 18 a zero contra o Roanoke College.

"Ninguém gosta de perder, mas admiro esses garotos e o que eles precisam encarar para jogar", disse Larry Wood, o técnico da equipe adversária. "Nós formamos fila para os cumprimentos depois da partida, e todos eles nos olhavam nos olhos e nos desejavam boa sorte com sinceridade. Não se pode dizer o mesmo sobre muitos times".

Depois do jogo, a equipe encontrou um local para estacionar perto de um Sonic, de um Burger King e de um Pizza Hut. Os jogadores se espalharam entre os três estabelecimentos, carregando o dinheiro da refeição.

"Quando você treina em um ginásio de basquete, não faz sua primeira viagem contando com oito vitórias", disse Saucier, que esperava os jogadores no estacionamento. "O objetivo é nos preparar para o resto da temporada e realizar aquilo que o programa atlético supostamente deve - ensinar o valor dos colegas de equipe, ensinar responsabilidade e talvez algumas outras lições de vida".

A equipe de beisebol de Presque Isle venceu cinco e perdeu 20 partidas na temporada passada, o que representa um grande avanço ante duas temporadas com zero vitória em anos anteriores. Analisando o calendário da equipe contra equipes da Nova Inglaterra e Nova York, Saucier disse acreditar que, neste ano, o time possa passar das 10 vitórias.

Por volta das 21h, o ônibus estava de volta ao hotel da equipe. Alguns jogadores imediatamente saíram à procura da lavanderia, carregando sacos de meias sujas. Alguns fizeram tarefas da universidade. Alguns fizeram as duas coisas. A maioria caiu no sono, diante de televisores ligados na programação esportiva.

No dia seguinte, a partida seria contra a Universidade de Shenandoah. Ironicamente, o jogo quase foi adiado por causa de uma nevasca, mas terminou sendo apenas postergado por algumas horas.

Conversando sobre o sonho de jogar por uma grande universidade, viajar de avião e se hospedar em hotéis lotados, Elie disse que "eu ficaria feliz em jogar em algum lugar a que meus pais pudessem ir". Delaney acrescentou que "é preciso mais paixão para jogar em nosso nível". Um novato, Caleb Hale, ironizou: "Bem, eu gostaria de ter jogos transmitidos pela TV, uma bolsa de estudos e alguém que fizesse meus trabalhos de faculdade". A equipe toda riu. "Isso lá é verdade", reconheceu Delaney.

Tradução: Paulo Migliacci ME.

The New York Times
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