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Almagro se entusiasma ao falar de Guga, ídolo que o levou às lágrimas

18 fev 2012 - 12h22
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Henrique Moretti
Direto de São Paulo

Nicolás Almagro chega para conversar com o Terra logo depois de uma conferência de imprensa burocrática, na qual o espanhol não mostrou muito interesse em falar e foi sarcástico em algumas respostas. Quando é avisado que o tema da entrevista seria a partida contra o brasileiro Gustavo Kuerten na primeira rodada de Roland Garros, em 2004, a expressão do tenista muda: "uou!", solta, em uma reação que indica surpresa e um pouco de animação.

Os detalhes daquela partida ainda estão vivos na memória de Almagro, que lembra número por número quais foram as parciais que definiram a vitória de Guga por 3 sets a 2: 7/5, 7/6 (7-2), 1/6, 3/6 e 7/5. A reportagem abre o laptop e confere os números citados na frente do tenista: estão certos.

Almagro, como ele mesmo admitiu durante a semana em que compete no Aberto do Brasil, gosta de "mostrar os sentimentos" quando está jogando. Ele vibra, grita, reclama, lamenta, gesticula... e chora. Esta última reação é bem mais rara, mas foi exatamente o que aconteceu em plena Quadra 2 de Roland Garros em 2004.

Na época, o espanhol tinha 18 anos, estava apenas em seu segundo ano como profissional, era o 130º colocado do ranking e não somava títulos da ATP. Com 5/4 de vantagem no quinto set, ele sacou para eliminar Guga, 27 anos, que era profissional desde 1995, ocupava a 30ª posição da lista e colecionava 20 títulos na carreira, incluindo três do Aberto da França. Mas não suportou a pressão.

O ex-número um do mundo virou e teve em Paris o seu último canto do cisne. Naquela época, ele já sofria com dores no quadril operado em 2002 e se submeteria a uma nova operação no local em setembro de 2004, apenas quatro meses depois de bater Almagro, o belga Gilles Elseneer, o suíço Roger Federer, o espanhol Feliciano López e cair diante do argentino David Nalbandian nas quartas de final de Roland Garros.

Depois daquilo, Guga jamais chegaria às quartas de torneio algum e só faria mais duas exibições no Grand Slam francês: em 2005 e 2008, esta a última de sua carreira, diante do tenista local Paul Henri-Mathieu.

O espanhol, agora com 26 anos, amadureceu e é o número 11 do mundo. Ele soma dez conquistas como profissional e a 11ª pode vir em São Paulo, onde enfrenta o compatriota Albert Ramos pela semifinal do Brasil Open a partir das 14h (de Brasília) deste sábado.

Caso conquiste o troféu, Almagro se tornará o único tricampeão da história do torneio que começou em 2001. Superará, assim, justamente Kuerten, campeão em 2002 e 2004.

"Não sirvo nem para toalheiro de Guga", disse o espanhol em entrevista coletiva na última quinta-feira, citando os garotos que levam as toalhas para os tenistas durante os jogos. Não se sabe se ele exagerou ou foi sincero, mas o fato é que a lembrança de uma derrota para o ex-atleta brasileiro realmente significa algo de importante na carreira do europeu.

Confira a entrevista exclusiva com Nicolás Almagro:

Terra: Você chorou depois daquela partida em Roland Garros contra Guga, se me lembro bem.
Nicolás Almagro: Sim, sim. Bom, foi minha primeira partida de cinco sets e ao ver a chave (do torneio) disse à minha equipe: "queria jogar com Guga". Creio que ter a oportunidade de jogar com um tricampeão de Roland Garros não é fácil. Eu tive a oportunidade de poder vencê-lo em um torneio que para Guga é muito especial e que para a Espanha é muito especial também. E bom, (foi) uma partida incrível, que recordarei por toda a minha vida. O primeiro set 7/5 Guga; o segundo set 7/6 Guga; o terceiro set 6/1 meu; o quarto set 6/3 meu; 4/0 Guga no quinto; 5/4 meu no quinto.

Terra: Com o saque.

Sim. Com o saque para (fechar) a partida. E bom... nervos por minha parte, Guga havia passado por muitas vezes essa situação, o público apoiando muito Guga, ficou tudo muito complicado, porém creio que as lágrimas vieram de uma mescla de felicidade porque eu havia mostrado que podia competir com um dos maiores da história no saibro. E de pena porque estive muito perto e no final não pude conseguir a vitória.

Terra: Vou ver as parciais para ver se estão corretas.

Nicolás Almagro: Sim, sim. Sim, sim. Olha! Olha! Olha!

O repórter checa o computador, que se localizava na mesma sala na qual ocorria a entrevista e que já estava ligado na página da ATP exatamente na seção do confronto direto entre Kuerten e Almagro.

Terra: Ahn... 7/5 Guga, 7/6 Guga, 1/6, 3/6 e 7/5 Guga no último. Está correto. E ontem você disse na conferência de imprensa que é um jogador que mostra suas emoções dentro da quadra. Naquela época você era mais jovem, essa tendência era maior ainda? Como foi chorar na quadra?
Nicolás Almagro: Creio que sim... bom, você com os anos vai amadurecendo, vai se dando conta realmente das coisas que vão acontecendo, começa a valorizar muito mais as situações. Bom, eu tinha se não me equivoco 18 anos e Guga me mostrou que podia estar jogando com os grandes, porém que ainda restava um longo caminho para percorrer. Creio que as lágrimas eram de felicidade porque eu tinha estado próximo de ganhar de um grandíssimo e de pena talvez por ter ficado não perto e não ter conseguido. Mas foi uma partida que me ajudou muitíssimo e sempre vou tê-la na memória.

Terra: Recordo que Guga lhe deu um abraço quando você começou a chorar. Lembra o que ele lhe disse?

Nicolás Almagro: Sim (sorri). Ele me deu muito ânimo. Creio que foi uma partida complicada para ele, que vinha sofrendo com problemas no quadril. E a partir daí creio que Guga para mim sempre foi pelo estilo, por sua forma de ver a vida e por tudo, sempre foi uma referência no mundo do tênis e é uma pessoa que é um exemplo a seguir para todos os tenistas mundiais.

Terra: Ele tinha a esquerda de uma mão, como a sua

Nicolás Almagro: Sim. Um revés muito bonito, um saque incrível, uma direita impressionante. E bom: um caráter ganhador e extrovertido que era o que o fazia diferente e o faz único.

Terra: O jogo foi na Philippe Chatrier (quadra central de Roland Garros)? Não, né?

Nicolás Almagro: Não. Foi na quadra número dois.

E sobre a participação de Guga naquele torneio? Bateu Federer...
Nicolás Almagro: (Interrompe) Bateu Feliciano López, ganhou de Federer em três sets.

Terra: Surpreendente, não? Porque Guga não estava bem fisicamente. Depois perdeu para Nalbandian. Crê que se tivesse batido Nalbandian... porque tinha um histórico bom com Gastón Gaudio e com Guillermo Coria jamais havia perdido até aquele momento. Crê que se tivesse batido Nalbandian talvez pudesse ter conquistado o quarto título?

Nicolás Almagro: Nunca se pôde saber o que teria acontecido. Porém o que sei e está claro é que Guga fez um torneio impressionante, derrotou grandíssimos jogadores apesar de não estar 100% e creio que seria um tenista a ser levado muito em conta e... bom. Poder saber o que teria acontecido nunca vamos saber. O único que sabemos é que Guga ganhou três vezes Roland Garros, o que creio que não está ao alcance de muitas pessoas.

O torneio foi vencido pelo argentino Gastón Gaudio, então o 44º colocado do ranking mundial, que superou David Nalbandian (oitavo) na semifinal por 6/3, 7/6 (7-5) e 6/0, e Guillermo Coria (terceiro) na decisão por 0/6, 3/6, 6/4, 6/1 e 8/6. Até maio de 2004, Gaudio havia disputado seis jogos contra Guga e ganhado três, mas havia sido derrotado um ano antes pelo brasileiro na terceira rodada de Roland Garros: 7/6 (7-1), 7/5, 5/7 e 6/3. Já Coria colecionava quatro derrotas em quatro encontros com Kuerten - o argentino só venceria pela primeira e única vez o rival em 2005, na primeira fase em Sopot, na Polônia: 6/3, 4/0 e desistência.

Veja a campanha de Gustavo Kuerten em Roland Garros 2004:

Primeira rodada: bateu Nicolás Almagro (ESP/130 do ranking): 7/5, 7/6 (7-2), 1/6, 3/6 e 7/5
Segunda rodada: bateu Gilles Elseneer (BEL/100): 6/2, 6/0 e 6/3
Terceira rodada: bateu Roger Federer (SUI/1): 6/4, 6/4 e 6/4
Oitavas de final: bateu Feliciano López (ESP/25): 6/3, 7/6 e 6/4
Quartas de final: perdeu para David Nalbandian (ARG/8): 2/6, 6/3, 4/6 e 6/7 (6-8)

Classificado à semifinal, o tenista de Murcia fará um clássico espanhol com Albert Ramos, 64º do ranking da ATP
Classificado à semifinal, o tenista de Murcia fará um clássico espanhol com Albert Ramos, 64º do ranking da ATP
Foto: Gaspar Nóbrega/Inovafoto / Divulgação
Fonte: Terra
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