Após se esconder na Vila, psicóloga se abre e defende narcisismo de Neymar
A psicóloga Sonia Román trabalhou durante uma década nas categorias de base do Santos - sem que quase nenhum torcedor soubesse. Os técnicos de Robinho, Diego e Neymar não tiveram interesse em expor a mulher que preparou emocionalmente as últimas duas gerações vitoriosas de Meninos da Vila. Para driblar treinadores "narcisistas", como ela define, a profissional precisou até esconder as suas consultas em concentrações e na Vila Belmiro.
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Não são apenas os treinadores do Santos que se preocupam com as suas imagens. Sonia Román admite que o astro Neymar gosta de chamar a atenção com o cabelo moicano com luzes, as chuteiras coloridas e a cobiça por automóveis luxuosos. Na condição de "futuro melhor jogador do mundo", no entanto, ele tem o aval de sua antiga psicóloga para usar a criatividade para se diferir dos demais atletas também fora de campo.
Neymar foi um dos jogadores do Santos que mais cativaram Sonia Román. Embora jamais tenha apresentado problemas emocionais, o atacante aprendeu com ela a lidar melhor com a ansiedade e até com a sexualidade. Outros garotos, ao contrário, enfrentaram adversidades graves: um deles não conseguia comer porque se ressentia da fome da família, um segundo teve o pai preso e muitos mais enfrentaram quadros de depressão. Nem todas as últimas revelações do Santos, contudo, consultaram-se com Sonia Román. Paulo Henrique Ganso foi um dos que não passaram pelas mãos da profissional, já que acabou integrado rapidamente à equipe principal santista. Para a psicóloga, as lesões do meia não seriam tão recorrentes se ele tivesse se submetido à análise de um especialista. Já o jovem Jean Chera, que rumou precocemente para o italiano Genoa, rejeitou as sessões - e tem uma carreira tortuosa pela frente, na previsão pessimista da psicóloga.
Demitida na gestão do presidente Luis Álvaro de Oliveira Ribeiro, há exatamente um ano, Sonia Román abordou alguns desses casos no livro "Estou mais leve", lançado no mês passado como um guia para técnicos, professores e alunos.
A psicóloga literalmente sentou no divã para, entre outros assuntos, enaltecer Neymar, detectar um problema de personalidade em Robinho, defender o "meigo" zagueiro Domingos, elogiar o técnico Celso Roth e atacar Antônio Lopes, além de opinar sobre Seleção Brasileira e criticar a religiosidade de Kaká.
Interessada pela psicologia esportiva desde 1995, Sonia contou como o Santos apareceu em sua vida. "Primeiro, acabei me especializando na área esportiva. Em 2000, a minha irmã me contou que o Santos estava selecionando currículos de psicólogos para o seu departamento profissional de futebol, que era comandado pelo técnico Giba. Mandei o meu currículo com uma proposta de trabalho, o que chamou a atenção da pessoa encarregada da seleção, o doutor Evandro Trocoli. Ele me perguntou: "Você consegue vender o seu serviço diretamente para o Giba? Consegue mesmo? Então, vamos lá agora". E eu fui, com outro candidato. Mostrei tudo o que queria fazer no clube, e o Giba me aceitou na hora", disse.Apesar de nova, na época, Sonia garante que o trabalho com os jogadores foi tranquilo e gratificante. "É muito fácil trabalhar com os jogadores. Como a concorrência nesse meio é enorme, só ficam os bons desde as categorias de base dos clubes. Esse processo seletivo me parece até selvagem, mas ajuda o meu trabalho. Não é qualquer um, por exemplo, que joga em um time sub-15 do Santos. Com a triagem natural, a psicologia se torna simples, simples, simples. Você consegue trabalhar com muita clareza, já que os meninos chegam previamente preparados. É possível fazer verdadeiros milagres em termos de motivação.
Responsável pelo trabalho e preparo psicológico dos Meninos da Vila revelados na época de Diego e Robinho, a psicóloga conta detalhes sobre o tempo em que cuidou dos dois.
"Era a geração de ouro. Sabia que poderia mudar as cabeças desses meninos assim que cheguei ao Santos. Só não imaginava que fosse possível realizar um trabalho tão rico. Em um clube grande, um menino de dez anos já é um jogador profissional. O Robinho e o Diego eram vistos assim e deveriam agir dessa forma. Aprendi muito sobre compromisso quando entrei em contato com esses garotos. Nunca vi um deles sequer faltando a um treinamento. Não existiu um jogo em que um treinador, um massagista ou um preparador de goleiros tenha deixado de ir por algum problema. Isso me chamou a atenção. Na época, pensei: "Aqui, no futebol, estão os perfeccionistas, as pessoas mais obsessivas". Essa dinâmica começou a me apressar. A minha psicologia deveria ser muito dinâmica, sem grandes anamneses entrevistas para diagnosticar os pacientes. A psicanálise é boa para outras coisas, não para o futebol.
Como também trabalhou na criação de Neymar para o futebol, Sonia garante que existe uma diferença entre a jovem revelação do Santos e Robinho, que atualmente está no Milan.
"Os dois têm um talento nato, uma capacidade de criar lances novos. Robinho e Neymar possuem qualidades cogenéticas. Ponto. A partir daí, no entanto, entra a personalidade de cada um. É um fator que pode deixá-los mais ou menos motivados, indo até a zona de conforto, e o meu trabalho sempre foi controlar essa questão. As diferenças entre Robinho e Neymar residem nas mentes deles", disse. "O Robinho funciona à base da pressão. Se ele vai para o banco de reservas, fica muito chateado e consegue voltar poderoso ao time. O triste é que ele não precisava ter ficado em baixa para conseguir jogar melhor. Com o Neymar, isso não acontece. Ele não precisa ir para o banco de reservas. O trabalho do Neymar é uniforme, com uma motivação constante. Por isso, o Neymar será o melhor jogador do mundo. Se o Robinho tivesse um pouco mais de malícia mental e menos oscilações, ele também poderia ter sido", completou.
Quando questionada sobre os diferentes desejos entre ambos os craques revelados pelo Santos de ir para o futebol europeu, Sonia foi direta. "Para ser bem sincera, independentemente do modo de se portar com a situação, acho que está na hora de o Neymar ir embora para a Europa. Não há mais espaço para ele no Brasil. Ah, não. Aqui, ele já conquistou tudo. Ele é o futuro melhor jogador do mundo, e acho muito mais difícil que consiga isso continuando no Santos. É importante partir para conquistas maiores, pois tudo passa muito rapidamente no futebol. O Neymar também precisa de um intercâmbio cultural para crescer como homem, saber outros idiomas - e os atletas aprendem as diferentes línguas com facilidade. Jogadores de futebol são inteligentes, abertos, puros...", disse.
Outro fator importante citado por Sonia foi a obsessão dos jogadores de futebol por carros importados. E ela usou Neymar como um exemplo claro desse desejo. "A vontade de ter carrões é normal nos meninos. Aceito incondicionalmente. Os primeiros carros que os atletas têm são os tênis. Eles compram pares de tênis alucinadamente. Como ainda não podem dirigir antes dos 18 anos, a fixação são os calçados. É um par mais lindo do que o outro. Depois, os objetos de cobiça passam a ser os carros. Isso é deles. Os jogadores de futebol têm poucas folgas para passar em casa. Na maior parte do tempo, estão dentro dos seus automóveis, indo e voltando. Nos carros, a gente encontra o mundo deles: o aparelho de som, os pagodes... Você vê: o Neymar foi para o Rock in Rio logo depois de um jogo e já voltou a treinar no dia seguinte. É corrido. Portanto, que sejam bem-vindos os carros luxuosos. Por que não seriam? Eles têm dinheiro para comprar, e os carros estão no mercado. E, se não me engano, o pai do Neymar só libera os carros mediante a construção da carreira no Santos e na Seleção Brasileira".
E ela ainda explica como funciona o plano de carreira criado pelo pai de Neymar, pessoa responsável pelos gastos do jogador. "O Neymar tinha um Volvo. Para trocar de carro, ele precisava ganhar com a camisa da Seleção Brasileira, fazer isso e aquilo. É um plano de carreira: você vai crescendo e ganhando carros. Isso é fenomenal, não? É lindo. Conheço outra história sobre esse lado, que não sei se é real. Quando o Neymar era pequenininho, com uns oito anos, ele ficava com preguiça de jogar nas manhãs chuvosas. Aí, resmungava: "Ah, pai, está chovendo, fazendo frio. Ninguém vai jogar". E o pai dizia: "Filho, você é o Neymar. Você é diferente dos outros. Precisa ir". Talvez essa estabilidade motivacional que o Neymar possui venha do pai".
Com a parte financeira resolvida, Sonia explica outro lado preocupando: o da fama "Sempre procurei mostrar que a nossa vida é como uma pizza, toda fatiada. Se a fatia de sexualidade, de namoro, for maior do que a profissional, você não vai dar certo no futebol. Mas o assédio feminino aos atletas já está intrínseco na nossa cultura. Jogador de futebol é querido. As meninas gostam deles. Isso até pode acarretar em problemas na escola, como ciúmes por parte de outros meninos, rejeição de gangues. Até porque, mesmo não sendo um craque como o Neymar, os atletas são muito procurados pelas mulheres. O próprio clube não sabe colocar um limite muito claro nessa questão. Vejo meninos com 12, 13 anos ouvindo de empresários e pessoas que estão em volta: "Você vai ter tudo, será o cara, conseguir o que quiser". A gente corre o risco de criar narcisistas dessa forma.
E o visual excêntrico do Neymar, segundo Sonia, tem relação com o que ela explicou. "Isso também é dele. Uma pessoa comum não tem a arte dos jogadores de futebol. Os comuns somos o meu vizinho, eu... O Neymar foge do comum. Atletas como ele têm alma de artista, criatividade, enriquecimento intuitivo. Eles são, como posso dizer... Existe uma palavra para definir bem...".
Outro episódio abordado por Sonia foi a briga de Neymar com o Dorival Júnior, que impediu o jogador de cobrar um pênalti em uma vitória sobre o Atlético-GO. Na época, o técnico Renê Simões disse que o jogador do Santos estava sendo criado como um "monstro". E ela respondeu o treinador.
"Não vi problema nenhum naquele episódio. O Neymar era um menino, um craque, com a vaidade pessoal dele. Se você tira a bola de alguém assim, ele responde sem ser passivo. Todos os craques fariam o mesmo. O técnico do Santos deveria ter definido o cobrador do pênalti antes do jogo. Se o Neymar não estivesse preparado para bater, que tivesse sido avisado. Não era necessário passar por aquele constrangimento em campo. Ele poderia ter sido instruído a treinar mais penalidades. Porque isso é técnica, e não talento. Foi um pouco de ingenuidade do técnico. Penso assim. Ingenuidade. E pronto", disse.
Defendendo Neymar desse caso, Sonia ainda garante que ele, ao lado de Diego, foram os jogadores com quem ela senhora trabalhou no Santos, que são os mais bem preparados para enfrentar a ansiedade. "Entre os que complementaram os lados do ídolo e do talento com o caráter e a personalidade, cito Diego e Neymar. Eles são preparados por inteiro. Falo muito do Neymar, mas o Diego sempre foi amoroso com a psicologia. Ele vinha até mim, conversava, pedia conselhos. A maioria dos jogadores sente vergonha".
Ao contrário dos dois citas, Sonia diz que Paulo Henrique Ganso, que não trabalhou com ela, tem alguns problemas que poderiam ter sido resolvidos antes. "Algumas coisas do Paulo Henrique Ganso podem ser melhoradas. Ele é instável. Consegue fazer uma partida magistral em um dia, o que é a verdade dele, mas se mostra apagado no jogo seguinte. Tudo o que um atleta aprendeu tecnicamente fica gravado no cerebelo, na caixa da coordenação motora. Então, se o Ganso tem técnica e habilidade, isso está guardado lá dentro. Não pode ser roubado. Portanto, se ele joga tão bem em uma partida e mal na outra, só pode ser problema psicológico. Se ele tivesse batido com o carro e machucado a cabeça, tudo bem, o armazenamento técnico poderia ter sido afetado. Mas, não. Desse jeito, só sobra a psicologia para explicar".
Além de Ganso, cuja Sonia não trabalhou por ele ter ido direto para o time profissional, existem jogadores que rejeitaram seu trabalho, como é o caso do jovem Jean Chera. Atualmente no Genoa, da Itália, o jogador sequer conversou com a psicóloga. "O Jean Chera é um dos poucos meninos com quem nunca falei. Sempre acharam que não precisava. Respeitei", disse. "Não vejo para o Jean Chera a mesma luz que enxergo para o Neymar, por exemplo, tem futuro na Europa, pois conta com excelentes pais, batalhadores, humildes e receptivos à psicologia".
Além dos jogadores, existiam técnicos que preferiam não aproveitar o trabalho dela. "Houve técnico que me falou o seguinte: "Se a senhora fosse importante, já teriam me apresentado". E você tem que olhar para ele e dizer: "Sim, senhor, professor". Porque eu seria despedida na hora se respondesse: "O que você está pensando?". E eu não queria largar os meninos. Tive percalços grandiosos, situações em que fiquei de cabeça baixa diante de treinadores narcisistas. Eu sabia que, contra técnicos narcisos, perderia uma disputa na hora. Fiquei de cabeça baixa para eles. Sem pudor nenhum", disse. "Existem muitos técnicos assim, na verdade. Houve um que me pediu para viajar com o time do Santos: "Você vai com a gente, viu? Pode se aprontar". Aí, ele mandou o ônibus sair mais cedo e me deixou na concentração, de malas prontas. Sem falar de um técnico que depois ficou famoso e, dois jogos antes de ganhar um título, dispensou o meu trabalho para eu não aparecer na festa da conquista", completou.
Questionada se, depois de uma década de trabalhos prestados ao Santos, não houve um técnico sequer que foi receptivo, ela garante que foram poucos. "Tivemos um técnico maravilhoso: Celso Roth. Ele me deixava ir ao hotel do Santos. Os meninos me chamavam, eu atendia e ia embora. O Celso Roth foi o único que me deixou livre para trabalhar. Por outro lado, quantos técnicos passaram pelo clube e quantos estão famosos até hoje, com constância de resultados? Campeonatos ocasionais não provam a capacidade de um profissional. É aí que questiono: será que, se tivessem me dado abertura, não estaríamos todos fazendo mais sucesso? Eu, por ter conseguido uma janela maior. E eles, por escutarem aquilo que acho que devo falar. Ou melhor, aquilo que tenho que falar".