Uma década após provocação de Leão, William celebra artilharia do País
"Há males que vêm para o bem". A frase utilizada em sua grande maioria por pessoas otimistas e confiantes retrata muito bem a trajetória de William como jogador de futebol. Revelado pelo Santos junto com os "parceiros de pelada" Robinho e Diego, o atacante sofreu nas mãos de Emerson Leão no início da carreira, quando passou por problemas constrangedores. Mas não se abalou. Se apegou a Deus e a família para superá-los e hoje, na Ponte Preta, planeja um 2013 praticamente perfeito. Com 26 gols marcados desde janeiro, é o principal goleador do País entre os clubes da primeira divisão.
Há exatos dez anos atrás, William foi convocado para defender a Seleção Brasileira no Pan-Americano realizado em Santo Domingo. Durante a competição, o técnico de vôlei, Bernadinho, deu uma palestra que "mudou a vida" do atacante. Emerson Leão ficou incomodado com os elogios feitos e passou a pegar no pé do artilheiro. Logo que voltou da Seleção, recebeu uma bola de vôlei do treinador e depois, por diversas vezes, ouviu que a camisa do Santos estava apenas emprestada para ele.
Problemas superados, William diz não guardar rancor de Leão, mas revela que as "brincadeiras" feitas pelo treinador o abalaram naquele momento. Depois de ter passagens sem muito sucesso no Exterior, o atacante viu sua carreira deslanchar em 2008, defendendo o Avaí. Passou por Grêmio, Atlético-GO e Vitória. Agora, na Ponte Preta, ele é o principal artilheiro do Brasil no ano, ao lado de Magno Alves (Ceará), com 26 gols, e está na briga também pela Artilharia do Campeonato Brasileiro. O feito já foi alcançado no Paulista, quando terminou na frente de Neymar, Luis Fabiano, Alexandre Pato, entre outros, com 13 gols.
Em entrevista exclusiva ao Terra, William conta sobre o momento delicado que passou nas mãos de Emerson Leão e também suas passagens pelo futebol europeu, para onde ainda pretende voltar. O atacante também conta que o apelido de "Batoré" foi dado pelo apresentar Milton Neves, mas deixa que prefere ser chamado de William, em respeito a escolha de seu pai. Por fim, planeja uma temporada perfeita, conquistando a artilharia do país e comemorando a permanência da Ponte na elite do Brasileiro.
Confira a entrevista com William
Terra - Quais as características principais que o fazem ser o artilheiro do Brasileiro?
William - É muita dedicação. Sempre procuro ser um ser um dos primeiros a chegar e o último a ir embora dos treinamentos. Procuro me aprimorar, mas quando eu tenho tempo, o que está difícil hoje em dia por causa da sequência de jogos. Treino muita a finalização, porque todo atacante precisa saber chutar, é um dos meus pontos fortes.
Terra - Por que você dá tão certo na Ponte Preta?
William - É um lugar em que a torcida sempre me apoiou, as diretorias também, nas minhas duas passagens aqui, sempre me receberam bem. Então é isso. Um atleta precisa ter essa confiança para conseguir desempenhar seu papel dentro de campo, precisa ter essa tranquilidade.
Terra - Quais os motivos de você não ter dado certo nas duas principais equipes em que passou (Santos e Grêmio)?
William - Aí eu discordo. Ganhei dois títulos importantes no Santos, vivi um momento maravilhoso lá. Naquela época todas as atenções estavam voltadas para Robinho e Diego. Ainda era novo, não jogava muito, mas fiz gols importantes pelo Santos, em clássicos. Já no Grêmio não consegui ter uma sequência de jogos por causa de seguidas lesões. Cheguei machucado, não fiz pré-temporada e em algumas partidas joguei no sacrifício.
Terra - O Santos sempre foi conhecido por revelar jogadores que ganham destaque no cenário mundial. Parte desse sucesso dos últimos anos se deve a geração de 2002 na qual você faz parte. Qual o segredo da base do Santos?
William - Não sei muito o que falar sobre isso. O clube também tem que ter sorte de aparecer um Neymar, um Robinho, um Lucas do São Paulo. São poucos clubes que conseguem revelar jogadores diferenciados. E o Santos deu sorte com Diego e Robinho.
Terra - Como é sua relação hoje em dia com o Robinho e com o Diego? Como você vê o momento da carreira dos dois?
William - Acabamos perdendo um pouco de contato, porque são horários diferentes, então tenho dificuldade até mesmo para acompanhar os jogos dos dois, mas sempre que dá procuro assistir. Quando eles vêm de férias e chamam para as peladas que eles organizam, mas acaba coincidindo com a época de jogos aqui no Brasil.
Terra - Na equipe santista, você viveu um entrevero com o Emerson Leão após voltar do Pan-Americano de Santo Domingo após declarar que uma palestra do Bernardinho o motivou. Você pode explicar melhor o episódio?
William - No Sul-Americano tive uma palestra com o Bernardinho e foi algo que me ajudou muito, me motivou naquele momento e ele não gostou. Acabou fazendo uma brincadeira... nem digo que isso foi uma brincadeira. Entregou uma bola de vôlei e o próprio grupo nosso repudiou aquilo. Me afetou no momento, mas graças a Deus não fez efeito na sequência da minha carreira. Eu voltei fazendo gols e ele falava que a camisa do Santos estava apenas emprestada para mim. Mas não guardo rancor do Leão. Torço para que ele ainda volte para um clube grande.
Terra - Como surgiu o apelido de Batoré? De quem veio? Acha que ele te prejudicou em alguma coisa na carreira?
William - Quem começou como tudo isso foi o Milton Neves, foi ele quem me apelidou de Batoré. E não é que eu não goste do apelido, porque na minha vida não faz diferença. Sou casado, tenho dois filhos maravilhosos. Só que como meu pai me chamou de William, eu gosto de ser chamado pelo nome, senão meu pai teria dado o nome de Batoré. Meus companheiros de time, as pessoas, me chamam assim e eu não ligo, dou risada.
Terra - Durante este ano na Ponte Preta, você recebeu propostas de clubes grandes do Brasil ou estrangeiro? Se sim, por que optou ficar na Ponte?
William - Tive duas propostas do Catar, uma da China, uma sondagem do Palmeiras no meio do ano, que a Ponte falou que não me liberava, e teve uma do Avaí agora. É claro que eu tenho vontade de ir para fora novamente, mas eu dei minha palavra e não vou sair da Ponte neste momento complicado. Muita gente ainda vai ficar surpreendida com o que a Ponte ainda vai fazer neste Brasileiro.
Terra - O que você pode contar de situações difíceis que passou no futebol coreano? E das experiências em Portugal e na França?
William - Quando estava no futebol sul-coreano sofri três fraturas no pé e passei por duas cirurgias. Esse foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Mas aprendi muito também com as experiências na França, em Portugal. São outras culturas, estilos de jogos diferentes e isso me ajudou muito na carreira.
Terra - Por que a Ponte caiu tanto de produção no Brasileiro depois de ter feito um excelente Paulista?
William - Não adianta ficar falando. Somos nós, jogadores, que temos que fazer o trabalho dentro de campo. Claro que quando muda o comando dá uma instabilidade no grupo, pois são formas diferentes de jogar, cada um gosta de um estilo. Mas agora o Jorginho chegou e está dando um padrão para nosso time. Teve alguns jogos que perdemos por bobeira nossa e estamos conseguindo resultados melhores.
Terra - Você trocaria os 26 gols pela permanência da Ponte na elite?
William - Eu não trocaria, porque eu falaria de outra forma. Tenho certeza que a Ponte Preta vai permanecer na primeira divisão e que eu vou terminar como artilheiro do Brasileiro e também o maior goleador do país.