O futebol, ao modo americano, está vivo na França
A National Football League (NFL), organização que gere o futebol americano profissional dos Estados Unidos, abandonou sua tentativa de desenvolver uma versão internacional do esporte dois anos atrás, mas isso não significa que os europeus tenham desistido do jogo. Na França, ao contrário do que se poderia esperar, futebol não quer dizer só futebol.
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Ligas semiprofissionais de futebol americano são comuns há um bom tempo no continente, e jogadores americanos menos conhecidos muitas vezes encontram espaço em seus times e, dessa maneira, conseguem encontrar um caminho transatlântico para um contrato com equipe da NFL.
"É futebol americano de verdade", diz John McKeon, 25, um corpulento bloqueador ofensivo que ostenta mãos largas como patas de urso e uma mandíbula forte e determinada. McKeon, que era bloqueador defensivo titular na equipe da Universidade Estadual da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, é um dos dois americanos que fazem parte do elenco do Le Flash de Courneuve, a equipe de futebol americano que costuma papar todos os títulos franceses do esporte. No sábado, o time enfrentou o Swarco Raiders, do Tirol, na Áustria, na disputa do 23° Eurobol, na cidade austríaca de Innsbruck.
Depois de uma recente vitória do Flash em uma partida disputada no sábado, em uma cidade vizinha a Paris, o vestiário localizado por sob as arquibancadas do Stade de Marville ribombava ao som das risadas e dos gritos de comemoração. Bloqueadores, recebedores, defensores, corredores dançavam quase sem roupa, e trocavam toalhadas brincalhonas.
Demonstrando bem menos entusiasmo, um jogador que estava vestindo uma camiseta puída apanhou alguma coisa dentro de seu armário; ele tirou um cigarro do maço, acendeu, e deu uma tragada longa e lenta. "O armador reserva", disse McKeon, com uma expressão de "o que se pode fazer?" Estamos na França, afinal, e não é mais surpresa para ele ver colegas de equipe fumando durante uma partida.
Ainda que o futebol americano não tenha até agora conquistado prestígio semelhante ao do futebol convencional e do rúgbi, cujos campeões são considerados herois nacionais na França, alguns poucos dos times franceses contam com torcidas leais e interessadas.
Os torcedores lotam as arquibancadas de pequenos estádios municipais para assistir às partidas, e gritam lemas de batalha em inglês precário, enquanto cantam sucessos de John Mellencamp ou do grupo Lynyrd Skynyrd. A comida preferencial da torcida são hot dogs e queijo nacho - servidos acompanhados por maionese, em pão tipo baguete -, e a bebida obrigatória é cerveja de torneira, servida em copos plásticos.
Bem parecido com os Estados Unidos, ou pelo menos é essa a intenção. "Quando comecei, eu achava que futebol fosse um esporte que se joga com os pés", diz Bruno Lacam-Caron, antigo jogador e hoje diretor geral do Flash. Ele foi um dos fundadores da equipe, em 1984.
Desde então, o Flash e algumas outras equipes europeias vêm recrutando jogadores estrangeiros como McKeon, para reforçar seus elencos com atletas americanos de segunda linhas mas que conhecem bem o esporte. Em sua maioria, eles são antigos jogadores universitários que não conseguiram vagas nas equipes profissionais da NFL, mas continuam a ter a esperança de um futuro no futebol americano. (Nos Estados Unidos, apenas uma pequena porcentagem dos milhares de atletas do futebol americano universitário consegue se profissionalizar).
Mas poucos desses aspirantes a uma carreira profissional no futebol americano conseguiram conquistar espaço na NFL por intermédio da Europa. A NFL havia criado um sistema de desenvolvimento de jogadores por meio de conexões internacionais, que veio a ganhar o nome de NFL Europa.
Concebido no início dos anos 90, esse sistema veio a resultar em alguns jogadores de primeira linha para a NFL, entre os quais dois armadores que chegaram ao jogo das estrelas, Jack Delhomme e Kurt Warner, depois de terem no passado disputado a posição de titular no Amsterdam Admirals, o mesmo time no qual também começou o chutador Adam Vinatieri, um dos melhores atletas do futebol americano em sua especialidade.
O recebedor Dante Hall jogou uma temporada pelo Scottish Claymores, e o armador Brad Johnson passou pelo London Monarchs. Apesar desses sucessos, a NFL decidiu cancelar o projeto em 2007, depois de acumular prejuízos da ordem de US$ 500 milhões com sua versão europeia.
"Eu nem fazia ideia de que existisse futebol americano competitivo na Europa", diz McKeon, que já havia disputado uma temporada com o Helsinki Roosters, em 2008, depois que lesões abalaram suas esperanças de um futuro na NFL. "Adoro futebol americano acima de tudo", ele acrescentou. "Mas jogar a sério nos Estados Unidos é algo que provavelmente não serei mais capaz de fazer".
La Courneuve, o subúrbio em que ele joga, não é o mais agradável dos lugares. Trata-se de uma cidade periférica nos subúrbios ao norte de Paris; os conjuntos decrépitos de habitação pública que caracterizam a região foram um dos epicentros dos tumultos urbanos que incendiaram a França em 2005.
Mas, com um quarto em um desses dilapidados conjuntos de apartamentos de três pavimentos, um passe de trânsito, um salário mensal da ordem de 800 euros (US$ 1,1 mil) e a oportunidade de continuar jogando futebol americano enquanto viaja pela Europa, McKeon diz que tem tudo de que precisa.
"Eu não ligava muito para os 65 mil torcedores que nos acompanhavam no estádio, o marketing, o fato de que as pessoas soubessem quem eu era", ele conta, relembrando seus dias de universidade. Ainda que o nível do esporte tal qual praticado na França seja semelhante ao que ele estava acostumado a enfrentar na Carolina do Norte - diversos de seus atuais colegas de time jogaram por diferentes equipes universitárias americanas -, os detalhes diferem.
Os jogos do Flash em seu estádio não contam com animadoras de torcida, fogos de artifício ou comerciais, replays instantâneos ou imagens aéreas. Com exceção dos americanos, os jogadores são amadores - operários, trabalhadores de escritório, eletricistas e seguranças, alguns dos quais dotados de poderosos bíceps e músculos peitorais, mas outros ostentando barrigas flácidas e pernas finas. Durante os jogos, a maioria deles prefere batatas chips a Gatorades.
E todos os comandos gritados das laterais por Patrick Esume, o feroz técnico do Flash, que só fala inglês, precisam ser traduzidas para o francês. "Vinte e um!", gritava Esume recentemente em uma partida da equipe em casa, para pedir por uma variação ofensiva. "Vingt-et-um", surgiu logo o eco obrigatório pronunciado por diversos jogadores bilíngues.
No intervalo, alguns dos jovens locais brincavam com uma bola de futebol americano, mas a estavam passando como no rúgbi, ou lançando-a por sobre a cabeça como em um arremesso lateral no futebol. Ao final da partida, com o Flash mantendo uma vantagem mínima, o coordenador defensivo, Charles Morgan Jones Jr. - um americano de voz roufenha conhecido como Yogi, vestindo boné, óculos escuros e um agasalho de nylon preto - gritava: "Allez ataque, allez, baby! Vamos lá!".
O Flash derrotou o Graz Giants, da Áustria, por 35 a 33. "Na semana que vem, dominaremos a França", disse Esume à equipe (eles conquistaram seu quinto título nacional consecutivo uma semana depois). "E em julho", prosseguiu, quase se esquecendo de parar para a tradução, "nós vamos conquistar a Europa".
Tradução: Paulo Migliacci ME.