Morte revive debates sobre brigas no hóquei
Um defensor novato no Whitby Dunlops, renomado time amador de hóquei sobre o gelo de Whitby, um subúrbio de Toronto, Donald Sanderson impressionava seus colegas de equipe por seu ardor competitivo e dedicação.
A cada vez que o disco entrava em jogo, Sanderson, 21 anos, deixava de lado sua personalidade em geral brincalhona e se concentrava completamente no jogo. Os colegas dizem que ele era o tipo de sujeito que parecia se preocupar mais com a equipe do que consigo mesmo.
"Ele era feroz", diz Matt Armstrong, assistente técnico do time. "Fazia tudo que fosse necessário para vencer um jogo".
Com 1,88 metro e 90 quilos de peso, Sanderson compreendia que "fazer todo o necessário" muitas vezes significava se chocar com um adversário nas laterais do rinque, para proteger sua equipe no gelo. Também significava tirar as luvas e entrar na briga caso o outro time estivesse recorrendo a jogadas desleais contra as astros do Dunlops.
"Nós jamais pedimos que ele fizesse qualquer coisa", disse Armstrong. "Mas ele achava que era sua responsabilidade. Caso o pique do jogo tivesse de ser revertido, ele reconhecia e agia".
Sanderson morreu em 2 de janeiro, de ferimentos sofridos ao cair no gelo e bater a cabeça durante uma briga, em 12 de dezembro. Ele passou três semanas em coma. Foi sua quarta briga em 11 jogos com o Dunlops, um time amador muito competitivo formado por jogadores com mais de 21 anos. Ainda que o incidente tenha de muitas maneiras se devido ao azar - o capacete de Sanderson se soltou durante a confusão e os jogadores caíram juntos no gelo -, sua morte gerou manchetes em todo o Canadá e resultou na retomada do debate sobre o papel que as brigas devem - ou não devem - ter no hóquei.
Um tributo a ele durante um jogo do Dunlops, sábado, atraiu diversos notáveis do esporte, entre os quais Walter Gretzky, pai do astro do esporte Wayne Gretzky. Na semana passada, a Ontario Hockey League, uma liga amadora que fornece jogadores ao hóquei profissional da NHL, adotou regras mais severas, ordenando suspensões de um jogo para atletas que tirem os capacetes antes de entrar em uma briga.
"É uma tragédia para o nosso esporte", disse Bill Daly, vice-comissário da NHL. Ele afirmou que a morte de Sanderson - e a possibilidade de que ela leve a mudanças nas regras do hóquei profissional - seria discutida na reunião dos dirigentes de equipes da liga, em março. "Quando uma coisa como essa acontece, gera reflexão", disse Daly.
Apesar de todas as discussões sobre brigas no rinque que a morte de Sanderson gerou, familiares e amigos dizem que ele pouco tinha em comum com o estereótipo de brutalidade do esporte. Sanderson foi descrito como um jovem cortês, sensível e intelectualmente curioso, fora do gelo. Ainda que no passado tenha sonhado em jogar hóquei profissional, ele recentemente havia decidido se tornar professor e técnico, e estava estudando cinesiologia na Universidade York. Também era assistente de seu pai como técnico do Belleville Bearcats, uma equipe feminina de hóquei secundarista.
Sanderson era um rapaz romântico, que gostava de surpreender as namoradas com piqueniques ou uma garrafa térmica cheia de chocolate quente ao final de um dia frio de inverno. E, a despeito do tamanho, ele se movimentava no gelo de maneira notavelmente graciosa, capacidade que ele desenvolveu na infância quando treinou patinação artística.
"Ele sempre foi um menino realmente sensível, terno, sempre cuidando dos outros", disse sua mãe, Dahna Sanderson. "Quando ouço as pessoas dizerem que ele era destemido, sorrio. Porque ele aprendeu a projetar essa imagem de destemor".
A despeito das freqüentes brigas em sua curta passagem pelo Dunlops, em momentos mais calmos ele confidenciava que não gostava muito de brigar, dizem sua namorada, Brooklyn Abbott, e seu pai, Michael Sanderson. Seu estilo no rinque era agressivo, claro, mas o pai diz que Donald queria jogar pelo Dunlops porque o time valorizava mais a técnica que a combatividade. Seus colegas de equipe dizem que ele não um xerife tradicional, papel que costuma ser exercido por um jogador cujo principal atributo é a disposição de brigar. Segundo os colegas, Sanderson era um jogador talentoso que ocasionalmente tirava as luvas para defender os colegas.
Depois que ele morreu, nem seu pai nem sua mãe se pronunciaram contra as brigas no hóquei. Dahna Sanderson diz que se recusa a participar desse debate, porque isso não trará seu filho de volta. Michael Sanderson, que ganha a vida como treinador de patinação para jogadores de hóquei, diz duvidar que o esporte um dia deixe de envolver brigas. Ele prefere, em lugar disso, louvar esforços para conter as brigas como os adotados pela liga amadora de Ontário esta semana.
"Se eles não removerem o capacete, quem vai querer socar plástico?", disse Michael Sanderson. "Eu preferiria ver meu filho de mão quebrada do que morto".
Mas para aqueles que imaginam se a morte de Sanderson servirá como maneira de reduzir a incidência de brigas, basta observar a equipe que ele defendia. Nos sete jogos disputados desde que ele morreu, os jogadores do Dunlops foram punidos por brigas três vezes, entre as quais uma briga acontecida em um jogo na sexta-feira, no dia anterior ao tributo a Sanderson.
Tradução: Paulo Migliacci ME