Milan, Monaco e agora Barcelona: RD Congo usa patrocínio para 'responder' Ruanda
Países africanos vivem conflito histórico na fronteira e usam esporte como autopropaganda
O Barcelona fechou um acordo de patrocínio com a República Democrática do Congo e vai ter um importante aporte financeiro para reforçar os seus cofres. O clube catalão receberá algo em torno de 40 milhões de euros (aproximadamente R$ 258 milhões) para estampar um logotipo promovendo o turismo da nação africana em algumas peças do uniforme do time. Detalhes do acordo entre as duas partes não foram anunciados.
Além do clube espanhol, mais duas equipes do futebol europeu também divulgaram um acerto com o país africano: o Monaco e o Milan. O movimento congolês responde Ruanda, que tem acordos semelhantes com Arsenal e Paris Saint-German, além de estreitar relações com a Fórmula 1 para a criação de um GP no país
O governo ruandês é acusado de violar direitos humanos no seu território, além das acusações feitas pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre apoio ao grupo rebelde M23, que atua em guerra civil na República Democrática do Congo.
De acordo com a Reuters, que teve acesso ao contrato, um logotipo marcando o país centro-africano como o "coração da África" será estampado nas costas dos uniformes de treino e aquecimento das equipes masculina e feminina.
A marca também vai ter destaque na publicidade e na revista do Barcelona, além de constar ainda no relatório anual. O acordo vai ter uma duração de quatro temporadas, e a República Democrática do Congo vai desembolsar um montante estimado entre 10 milhões e 11,5 milhões de euros anualmente.
A República Democrática do Congo é tomada pela Aliança do Rio Congo, coalização de grupos rebeldes. Um deles é o M23, cujos integrantes são da etnia tutsis e acusam o governo congolês de excluí-los da administração do país e não cumprir com uma agenda de paz.
Apesar de o governo ruandês negar, é apontado que há apoio de Ruanda ao M23. O grupo se coloca como adversário de outras forças, de etnia hutus. Um desses são as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), que saíram de Ruanda após o genocídio de 1994, que vitimou mais de 1 milhão de tutsis e hutus moderados.
Estados Unidos e União Europeia já impuseram sanções a Ruanda. A Bélgica, que colonizou a República Democrática do Congo, cobrou medidas do bloco europeu. Em resposta, Ruanda rompeu relações diplomáticas com os belgas.
Para o professor de marketing esportivo da ESPM, Ivan Martinho, cada marca carrega seus valores para o local no qual é estampada. "Patrocínio é, antes de tudo, sobre comunidade. Ele pressupõe um alinhamento de valores entre marca, clube e torcida. Quando esse alinhamento se rompe, como muitos torcedores percebem no caso de 'Visit?Rwanda', a resposta vem rápido. Porque, diferente de uma mídia convencional, o patrocínio habita o espaço emocional do torcedor", analisa.
A perspectiva histórica também é relevante. O COO da Roc Nation Sports no Brasil, Thiago Freitas, cita a marca que um patrocínio controverso pode representar nos registros de um time.
"Alguns desses clubes podem ter em seus museus, em imagens que retratam seus maiores títulos, símbolos e nomes que foram, são ou poderão ser associados a corrupção, violações de direitos, ou mesmo genocídios, e até sugerir que os que estão a frente dos clubes são simpatizantes desses regimes", pondera Freitas.
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