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'Fui o facilitador dos gols de uma Seleção revolucionária', diz Tostão

No especial 'LANCE! na Copa de 70', camisa 9 detalha como foi se adaptar ao embalo da equipe de Zagallo e encontrar um caminho para se firmar como titular do escrete histórico

19 jun 2020
07h36
atualizado às 11h30
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'Avaliando hoje, acho que me movimentei muito. Procurei ajudar ao máximo possível', diz o 'Mineirinho de Ouro, em entrevista ao LANCE! (Divulgação / CBF)
'Avaliando hoje, acho que me movimentei muito. Procurei ajudar ao máximo possível', diz o 'Mineirinho de Ouro, em entrevista ao LANCE! (Divulgação / CBF)
Foto: Lance!

A superação foi a marca de Tostão na conquista da Copa do Mundo de 1970. Além do árduo desafio de se recuperar meses depois de ter sido submetido a uma cirurgia no seu olho esquerdo, o camisa 9 soube encontrar uma brecha para ser titular da equipe de Zagallo.

- Inicialmente, achavam que eu não poderia jogar ao lado do Pelé. Por isto, mudei minhas características de jogo. Avaliando hoje, como comentarista, acho que eu me movimentei muito a cada partida da Copa. Ia pelas pontas, buscando ajudar o máximo possível - afirmou, ao LANCE!.


No especial "LANCE! na Copa de 1970", o "Mineirinho de Ouro", que hoje é colunista da "Folha de São Paulo", detalha os contrastes entre os trabalhos de João Saldanha e Zagallo. Além disto, recorda a sua peregrinação na caminhada pelo tricampeonato mundial e fala sobre como a Seleção lidou com os obstáculos durante a campanha.

LANCE!: Você foi titular da Seleção durante as Eliminatórias da Copa do Mundo, mas depois da entrada do Zagallo houve um dilema sobre você seguir jogando ao lado de Pelé. Por que aconteceu isto?

Tostão: Nas Eliminatórias, o (João) Saldanha pedia que eu jogasse mais como um ponta-de-lança, um ponta avançado. Como o Pelé também tinha velocidade em avançar, assim que um atuava pelo meio, outro ia pelos lados. Deu certo e conseguimos a vaga para o Mundial. Só que desde o seu primeiro dia, o Zagallo achou que era necessária a presença de um centroavante. Tentou o Roberto Miranda, o Dario... Foi assim que a disputa começou a ficar acirrada para mim no ataque.

L!: Quais diferenças você notou entre os estilos de trabalho de João Saldanha e do Zagallo?

João Saldanha era mais um orientador técnico, preocupado com o lado humanista. Dava opiniões para ajudar no nosso emocional e gostava de ouvir a gente. Lembro que Gerson e eu falávamos bastante. Zagallo, por sua vez, é um grande estrategista. Hoje, a tática é muito valorizada. Graças ao Zagallo, conseguimos encontrar um posicionamento desde a defesa e nos adaptarmos bem ao time que ele queria.

L!: A preparação para o Mundial trouxe outro aspecto: você vinha da recuperação da cirurgia de descolamento de retina. Como foi lutar para ficar com o mesmo ritmo do restante do grupo?

Teve um sabor especial para mim isso. Fui operado meses antes da Copa (em Houston, nos Estados Unidos, em outubro de 1969). Talvez eu não jogasse mais futebol depois daquele episódio (em 24 de setembro daquele ano, uma rebatida do zagueiro Ditão, do Corinthians, atingiu o olho esquerdo de Tostão, que defendia o Cruzeiro). O (Admildo) Chirol e o (Carlos Alberto) Parreira fizeram uma preparação especial para mim, bem diferente em relação aos demais jogadores. Depois veio o meu período de adaptação no México. A preparação toda foi muito elogiada. E aí, consegui ficar em um bom ritmo.


L!: Um mês antes da Seleção Brasileira estrear na Copa do Mundo, você concedeu uma entrevista a "O Pasquim" (semanário que reunia nomes como Ziraldo, Tarso de Castro, Jaguar, Millôr Fernandes e Ivan Lessa). Você falou tanto sobre futebol quanto sobre temas como a Guerra do Vietnã e liberdade de expressão. Como foi abordar estes assuntos em um período tão conturbado do país? Teve algum receio em torno da repercussão da entrevista?

Foi o auge da Ditadura, né?! Era impressionante o quanto "O Pasquim" continuava a ser um jornal presente, com seu estilo crítico e bem-humorado. Foi um importante porta-voz de oposição ao regime da época (o Brasil, presidido por Emílio Garrastazu Médici, passava pelos "anos de chumbo", marcado por uma forte repressão, censura e torturas). Gostei muito de fazer e lembro que o João Saldanha me parabenizou pela entrevista. Eu não fiz nenhuma crítica mais forte ou direta ao regime. Inclusive, não houve nenhuma repercussão em torno dela ao menos no dia a dia da Seleção. Entre os jogadores, não procurávamos falar abertamente sobre o que acontecia. Estávamos voltados para a preparação e para o Mundial.

Em entrevista histórica a
Em entrevista histórica a
Foto: Lance!


L!: Durante esta entrevista, você foi veemente em relação ao que buscava na Copa do Mundo. Disse que iria brigar para ser titular e que havia, sim, espaço para uma parceria sua com Pelé. O que fez a diferença para você conseguir, enfim, se firmar?

Eu sempre lutei ao máximo para jogar, achava que tinha condições de me impor. Como o Zagallo decidiu tirar o Edu, faltava um ponta avançado, mas não havia opções que se encaixavam bem para o lugar dele. Quando entrei, passei a me movimentar mais à frente, me comprometi a fazer esta função. Foi mais para contribuição coletiva. Um time que tinha Jairzinho. Rivellino, Gerson e Pelé, que eram excepcionais, não precisava de mais gente para tentar sempre fazer gols. Em vez de ser um camisa 10, passei a ser o facilitador dos gols!

L!: A estreia canarinha foi marcada por uma virada contra a Tchecoslováquia. Ali a equipe já mostrava um poder de reação?

Era a prova de que a Seleção tinha um time repleto de qualidades individuais. Embora não tenhamos feito uma partida com muito brilho, conseguimos fazer quatro gols com tranquilidade. Isto mostrava o quanto tínhamos potencial ofensivo.

L!: Alguns jogadores definem a partida seguinte, contra a Inglaterra, como a mais desafiadora da campanha. Qual foi a dimensão deste triunfo?

Bom, no papel, era um jogo que valia o primeiro lugar do grupo. Mas se tornava importante porque antes havia uma dúvida se o Brasil estava no nível de enfrentar posteriormente equipes fortes, do porte de uma Alemanha (Ocidental), por exemplo... Foi bastante equilibrada a partida, mas acredito que se tivéssemos enfrentado os ingleses na final, a nossa superioridade seria maior.

L!: E a atuação do Brasil contra a Romênia? O jogo se mostrou um pouco traiçoeiro...

Na verdade, esta foi uma partida muito tranquila. Foi o segundo jogo sem o Gerson (que estava lesionado) e, além disto, a Seleção teve uma formação com dois volantes (Piazza voltou para seu setor de origem, enquanto Fontana formou a dupla de zaga com Brito). Na hora em que conseguimos a vantagem no placar, a equipe se segurou um pouco e sofreu o segundo gol. Mas estávamos com muita segurança e eles não chegaram a ter grandes oportunidades.


L!: Você marcou seus dois gols no Mundial justamente na vitória por 4 a 2 sobre o Peru. Acredita que tenha sido sua melhor partida no torneio?

Bom, não necessariamente o fato de você fazer gols torna esta ou aquela partida a sua melhor em uma competição. Sabíamos que tínhamos uma equipe de maior valor técnico do que o Peru, o que nos dava amplas condições de ganhar. Mas nesta Copa eu fui um jogador coletivo. Fui um bom coadjuvante, com alguns momentos nos quais me destaquei.

L!: Foi assim na semifinal contra o Uruguai?

Sem dúvida. Consegui dar dois passes para gols em um momento muito difícil para a Seleção e valia a vaga para a final. O Uruguai tinha saído na frente, era uma seleção que se destacava muito defensivamente. Jogadas como as que eu fiz foram muito mais importantes para mim e para a Seleção.


L!: Como foi a preparação para a decisão da Copa do Mundo?

Como a Itália marcava individualmente, combinei com o Jairzinho que ele acompanharia o lateral, enquanto eu revezava com ele ao me movimentar pelos lados. O objetivo era que eu ficasse perto do zagueiro da sobra, para evitar que ele também tentasse uma investida. Isso ficou nítido no quarto gol do Brasil. Eu estava na lateral, no combate ao jogador italiano e a bola sobrou para o Clodoaldo iniciar o contra-ataque. Assim que ele mandou para o Rivellino lançar, o Jairzinho estava na frente e com liberdade para fazer a jogada com o Pelé. Aí veio o gol do Carlos Alberto.

L!: Depois de 50 anos, o que mais chama sua atenção nesta Seleção Brasileira?

Confesso que só revi os jogos recentemente (com as reprises das partidas no SporTV) e pude tirar minhas conclusões como comentarista. O Brasil era muito moderno. Ia à frente e voltava para marcar com desenvoltura. Era uma grande equipe, revolucionária!

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