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Como mobilizações no Chile estão impactando o futebol

Apelo da população por mudanças no cenário político ganha adesão de jogadores e dirigentes, que projetam dias melhores para o país

29 out 2019
07h53
atualizado às 08h50
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O apelo por dias melhores para a população do Chile ganhou a forte adesão de pessoas ligadas ao futebol. Enquanto a onda de manifestações tomava conta do país andino, jogadores deixavam de lado a rivalidade das quatro linhas para externar seus desejos de que os chilenos tenham acesso a mais qualidade de saúde, educação e de condições de vida.

Manifestações, que já adiaram duas rodadas do Campeonato Chileno, suspenderam também partidas entre dias 31/10 e 4/11
Manifestações, que já adiaram duas rodadas do Campeonato Chileno, suspenderam também partidas entre dias 31/10 e 4/11
Foto: AFP / LANCE!

"É uma iniciativa que me parece muito importante, em especial dos jogadores que são mais conhecidos. Eles têm de manifestar suas opiniões mas, claro, cientes de suas responsabilidades. Em nenhum momento, a declaração deles pode dar margem para incitar a violência. Digo aos jogadores do meu time que nosso objetivo é colaborar sempre com a paz", afirmou Juan Tagle Quiroz, mandatário da Universidad Católica, ao LANCE!.

Os Cruzados protagonizaram um momento comovente neste período caótico no país: assinaram uma nota em conjunto com Colo Colo e Universidad de Chile pedindo "diálogo pacífico".

Chilenos que atuam no país e no mundo se comoveram com o que ocorre nas ruas. Jogadores de "La Roja", Claudio Bravo e Gary Medel se manifestaram nas redes sociais exigindo boas notícias e mudanças sociais. O lateral Beausejour soltou o verbo.

"Chile era visto na América do Sul como automóvel de primeira. Mas, no primeiro choque, não se sabe como vai terminar", disse, à Rádio ADN.

No Campeonato Mexicano, Nicolás Castillo e Jean Meneses estamparam a bandeira chilena ao celebrarem em campo. Outros jogadores se sensibilizaram com o fato de 1,2 milhão de chilenos irem às ruas em Santiago.

Impacto no campeonato local

As manifestações no Chile, que tiveram estopim após o aumento de 30 pesos chilenos (por volta de 20 centavos de real) no preço do metrô, afetaram o futebol. A princípio, duas rodadas do Campeonato Chileno tinham sido adiadas, além de jogos da Primera B (Segunda Divisão) e Segunda Divisão (Terceirona) também não tiveram rodada.

Porém, no fim da noite da segunda-feira passada, a Federação Nacional de Futebol do Chile (ANFP) tomou novas medidas. As partidas entre 31 de outubro e 4 de novembro não serão realizadas.

Por mais que o presidente da Universidad Católica admita que há percalços no calendário, a sensação entre os clubes é de que a batalha agora é em outra área.

"A suspensão nos causa problemas. Mas entendemos que a prioridade é a paz, que o governo atenda às demandas e cheguem as mudanças pedidas", disse Juan Tagle Quiroz.

A UNIÃO EM PROL DO PAÍS

A preocupação com os rumos dos protestos do Chile fez três clubes deixarem a rivalidade de lado em nome do país. Colo Colo, Universidad Católica e Universidad de Chile assinaram uma nota em conjunto pedindo que a paz imperasse nas manifestações nas ruas.

"Colo Colo, Universidad Católica e Universidad de Chile deixam de lado suas rivalidades desportivas para fazer um chamado a todos os chilenos para buscar o espaço do diálogo pacífico e da manifestação responsável de suas legítimas demandas. Isto nos permitirá fazer frente à dívida social que enfrenta nossa sociedade e, assim, construir um melhor país para todos, respeitando os direitos de todos os cidadãos".

Presidente do Universidad Católica, Juan Tagle Quiroz detalhou como surgiu esta iniciativa.

"Efetivamente, como dirigentes dos três clubes mais populares do futebol chileno, nos sentimos na obrigação de abordar este diálogo pacífico. Tínhamos de fazer frente a estas dúvidas sociais que são muito legítimas, mas sempre privilegiando o caminho da unidade, do entendimento, e sobretudo do diálogo, tratando de excluir a violência", afirmou.

Quiroz exaltou a repercussão que teve esta nota em conjunto do trio de clubes mais tradicionais do Chile.

"Creio que nosso chamado foi bem acolhido. As pessoas entenderam o quanto a gente quis deixar de lado a intolerância", declarou.

Aos olhos do mandatário, os clubes surgem como um bom exemplo também em momentos conturbados na política.

"Os clubes precisam ter muito claro seus valores integrador social. Não só de acolher crianças e jovens, de dar oportunidades. Mas também para que sejam portadores de uma unidade, na qual convivam em paz também pessoas com diferentes visões políticas", acredita.

DOS GRAMADOS ÀS MARCHAS: OS PROTESTOS DOS ATLETAS

O desejo dos jogadores por mudanças políticas não ficou restrito aos desabafos em redes sociais. Meio-campista da Universidad Catolica, Ignacio Saavedra esteve em uma das marchas que tomaram as ruas de Santiago.

Uma pessoa nas redes sociais captou o jogador de 20 anos (que atuou nas seleções de base do Chile) nos primeiros dias das manifestações.

Outros atletas deixaram suas palavras de ordem por mudanças sociais no governo de Sebastián Piñera. Companheiros do Coquimbo Unido, o goleiro Matías Caño e o zagueiro Benjamin Vidal participaram de manifestações pacíficas na cidade de Coquimbo.

Nicolás Maturana, do Universidad Concepción, e Marco Medel, do Santiago Wanderers, também estiveram em protestos.

"O apelo diante da situação do Chile foi capaz de unir adversários desportivos. Por já terem vivenciado uma rotina difícil, muitos sabem das dificuldades sociais", afirmou o analista político Guillermo Holzmann, ao L!.

SOLIDARIEDADE VINDA DE OUTROS PAÍSES

A repercussão em torno da crise do Chile rompeu fronteiras. Após marcar um gol pelo Campeonato Mexicano na vitória do América sobre o Puebla, por 2 a 0, no sábado passado, Nicolás Castillo expôs uma bandeira do seu país de origem. Em entrevista na zona mista, o jogador falou sobre a atitude que teve no gramado.

"Sim, foi uma forma de demonstrar minha solidariedade para gente do Chile que está lutando por seus direitos", e, em seguida, foi categórico:

"Eles se viram um pouco afetados pela maneira com o que o governo está fazendo com os os seus direitos. Por isto, segue uma mensagem de apoio. É a única forma com a qual podemos nos aproximar. Com isto, mandarmos nossa força para meus compatriotas", afirmou.

Já no León, Jean Meneses estampou sua solidariedade. Ao marcar o gol da vitória sobre o San Luis por 3 a 2, ele mostrou a camisa na qual expunha a bandeira do Chile e a frase: "o Chile acorda, não estamos em guerra".

Em seu Instagram, Igor Lichnovsky, do Cruz Azul, foi um pouco mais incisivo. O defensor deixou um recado ao presidente Sebastián Piñera.

"Senhor presidente Sebastián Piñera. Sabemos que as privatizações não vêm do seu governo, mas você prometeu de A a Z. Por acaso não dá conta da oportunidade que Deus está dando? Estamos cansados de que, a cada quatro anos, tenhamos um presidente que venha e não cumpra o que necessita", desabafou.

'HÁ MUITA QUEIXA EM RELAÇÃO ÀS DESIGUALDADES SOCIAIS'

BATE-BOLA

'Sebastián Piñera tenta conseguir governabilidade após protestos'

GUILLERMO HOLZMANN - Analista político e acadêmico da Universidade Valparaíso

1 - O que tem chamado atenção nesta série de manifestações contra o governo de Sebastián Piñera?

As manifestações começaram de maneira bem espontânea, nas redes sociais, sem cunho partidário. O aumento de 30 pesos chilenos (20 centavos de real) expôs as feridas de grande parte de uma nação que se sentiu abandonada. Há muita queixa quanto a abusos governamentais, em especial em relação aos impostos, aos valores cobrados dos transportes públicos, às condições de saúde.

2 - Como eclodiu esta crise?

O Chile manteve o neoliberalismo nos mesmos moldes que herdou da desde os tempos de Augusto Pinochet. Mas, apesar das reformas políticas, não houve mudanças econômicas, o que é essencial para um mundo globalizado. Na globalização, é fundamental que a classe média mantenha um poder aquisitivo bom. Porém, a classe média atualmente não se sustenta para ter condições básicas, vivem com uma média muito baixa salarial. Com isto, a economia perde seu dinamismo e acaba entrando em um colapso. Hoje, há um grande contraste social na população chilena. Vemos uma concentração de renda muito grande de um lado, enquanto 80% tem baixa renda. Diante disto, as pessoas não se sentem participando das decisões políticas.

3 - O presidente Sebastián Piñera anunciou a mudança de oito ministros do seu governo, entre eles o Chefe de Gabinete do Chile. A que atribui esta medida?

Piñera tenta uma forma de conseguir governabilidade para a sequência de seu mandato. Porém, ele lidará com um grande desafio. As ideias que ele originalmente planejou em seu programa de governo podem mudar após este período no qual aconteceram manifestações tão veementes da população.

A ESCALADA DA CRISE NO CHILE

Os primórdios no neoliberalismo

Durante o ciclo de Augusto Pinochet no poder, o Chile passa a adotar uma postura mais liberal em sua economia. Mesmo após o fim de seu governo ditatorial (em março de 1990), o modelo não é deixado de lado.

A estagnação

Os dois mandatos de Michelle Bachellet, além do ciclo de Sebastián Piñera (que está em seu segundo período como presidente do país andino) são marcados por restringir as mudanças a aspectos políticos. O neoliberalismo, aos poucos, traz sequelas para boa parte da população.

Desigualdade

Com o passar dos anos, os problemas estruturais começam a ficar nítidos para a população chilena. O salário mínimo está na casa dos 400 dólares e 80% das pessoas estão em situação complicada. A classe média perde espaço neste período, enquanto apenas 3% da população obtém a maior parte da concentração da renda per capita chilena.

A eclosão da indignação do Chile

O aumento de 30 pesos chilenos (por volta de 20 centavos do real) na passagem do metrô deflagra uma onde de insatisfação e protestos a partir de 18 de outubro. Irritadas, pessoas vão às ruas, pulam as catracas e vandalizam as estações de metrô. Há um colapso nos transportes e também surgem manifestações da população em outras frentes. Entre as queixas, estão o aumento da energia elétrica (que aconteceu em setembro), críticas ao transporte público, às condições de saúde e educação, além do descaso com idosos e jovens e o aumento de preços de água, luz e medicamentos.

Armas na mão

Em meio aos protestos, há episódios de violência e depredação, o que culmina em uma reação drástica do governo: pela primeira vez desde o fim do governo Pinochet, 10 mil homens das Forças Armadas vão às ruas. Os conflitos com manifestantes se intensificam.

Caos

O governo declara Estado de Emergência. Visto como pontos de emergência, o Metrô de Santiago é fechado e os aeroportos têm voos cancelados. Além disto, é ordenado um "toque de recolher" entre as 23h e 4h.

Reviu conceitos

Diante da revolta da população, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, decide revogar o aumento da passagem do metrô. Porém, as manifestações prosseguem.

Triste saldo

O último registro confirma 19 pessoas mortas em meio aos conflitos nas ruas. Há queixas de torturas e de abusos sexuais.

Massa nas ruas

Na sexta-feira passada, Santiago é palco de uma gigantesca manifestação: 1,2 milhão de pessoas vão às ruas em protesto pacífico por mudanças no país. É o maior protesto desde a redemocratização chilena.

Mudança a caminho...

Como tentativa de dissipar a crise, o presidente Sebastián Piñera anuncia a troca de oito ministros do governo chileno - entre eles, o chefe de gabinete Andrés Chadwick.

Sem tempos de paz...

Piñera põe fim ao "Estado de Emergência" do Chile, assim como ao "toque de recolher". Além disto, destaca a maneira como a população se mobilizou nas ruas neste período, em uma "alegre multidão e pacífica marcha na qual pedem um país mais solidário". Piñera também falou na iminência de começar uma nova etapa de seu governo, e segue seu objetivo de obter governabilidade. Contudo, o presidente segue pressionado: a semana começa com uma nova onda de protestos em várias cidades, na qual manifestantes pedem apuração sobre mortes, e uma sucessão de tumultos.

Veias abertas da América Latina

O Chile ainda lida com o fato de ter os olhos do futebol sul-americano voltados para sua região. Santiago será palco da decisão da final única da Copa Libertadores, entre River Plate e Flamengo, no dia 23 de novembro. A Conmebol não acena tirar a final da capital chilena até o momento, por acreditar que a instabilidade política se resolva até a data da decisão. Além disto, boa parte dos ingressos já estão vendidos para o confronto no Estádio Nacional.

 

Lance!
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