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'A Seleção unia qualidade e fôlego de sobra para alcançar o sonho o tri no México', recorda Clodoaldo

No especial 'LANCE! na Copa de 1970', volante fala sobre missão de ser o 'novo Zito' no escrete canarinho aos 20 anos e destaca empenho da equipe em busca da conquista

17 jun 2020
07h35
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A sensação de que a Seleção Brasileira não mediu esforços em busca do tricampeonato mundial persiste nas lembranças de Clodoaldo há 50 anos. Dos cinco quilos que perdeu contra a Inglaterra à maneira como utilizou da sua arte para se livrar do ataque da Itália, o volante destaca o brio que o escrete canarinho foi adquirindo pouco a pouco.

- Nosso time era muito arrojado e a preparação nos deu uma condição física fantástica. Isto contribuiu para que a Seleção sobrasse em campo. Todo mundo estava com um fôlego impressionante. Pelé, que dispensa comentários, se cuidava muito fisicamente. A qualidade do Jairzinho aumentou com ele "voando"... Gerson, Tostão e Rivellino corriam em campo o tempo todo - afirmou.

No especial "LANCE! na Copa de 1970", o camisa 5 recorda a maneira como as "feras do Saldanha" se consagraram com Zagallo e como soube se desdobrar em campo.

'A forma como vencemos as partidas na Copa já reflete como, em torno da nossa equipe, teve um projeto bastante elaborado', diz o volante (Reprodução)
'A forma como vencemos as partidas na Copa já reflete como, em torno da nossa equipe, teve um projeto bastante elaborado', diz o volante (Reprodução)
Foto: Lance!


LANCE!: Você tinha 20 anos quando chegou à Copa do Mundo de 1970 como titular. Como foi lidar com esta responsabilidade?

Clodoaldo: Quando passei a ser convocado, parte da imprensa dizia que eu vinha para substituir o Zito (bicampeão mundial em 1958 e 1962) na Seleção Brasileira. Mas eu já estava acostumado a esta comparação desde meu início no Santos, pois nós dois viemos da Vila (Belmiro). Além disso, mesmo sendo jovem, fiz parte de um time santista que ganhava de todo mundo, fazia muitos jogos e disputava grandes decisões. Já tinha uma experiência para encarar este desafio a mais.

L!: Há um elogio muito grande em torno da preparação que foi feita para este Mundial. Onde fica mais nítido o peso deste trabalho?

A forma como vencemos as partidas na Copa já reflete como, em torno da nossa equipe, teve um projeto bastante elaborado. Além da parte técnica, nós ganhávamos porque, no segundo tempo, continuávamos com muito mais fôlego do que os nossos adversários. Isto aconteceu porque, desde o período no Retiro dos Padres (no Rio de Janeiro) até a reta final no México, nos empenhamos muito.

L!: Como foi lidar com a saída do João Saldanha pouco antes da Copa do Mundo?

Com o Saldanha, vivíamos em um bom ambiente desde a preparação, mas ainda tínhamos dúvidas em relação à maneira da equipe jogar. A ideia dele era ter quatro atacantes... No papel era bom, mas nos amistosos a gente não rendia (a derrota por 2 a 1 para a Argentina e o empate em 1 a 1 com o Bangu culminaram na demissão do "João Sem Medo"). Assim que o Zagallo chegou, era hora de ajustar o time.


L!: Por muito tempo, chegaram a definir esta Seleção como "as feras do Saldanha". Mas o quanto o Zagallo foi crucial para a guinada rumo ao tri?

Na verdade, as "feras" estavam lá e continuaram lá até o título! Só foram aproveitadas de uma forma diferente com o Zagallo. Lembro que quando ele apresentou a escalação que se tornaria a da Copa, a gente de início se entreolhou desconfiados. Só com o tempo percebemos o que ele queria. Mesmo tendo o Piazza (volante de origem) na zaga, continuei a abusar das minhas características defensivas. E como o Carlinhos (Carlos Alberto Torres) subia muito, a entrada do Everaldo no lugar do Marco Antônio na Copa do Mundo foi importante para a gente defensivamente.


L!: Na estreia, o Brasil começou perdendo para a Tchecoslováquia. Como foi a mobilização para superar o gol do Petras?

Foi um momento de susto. Sofremos um gol, não esperávamos. Só que aí, vi em campo Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e aquilo me deu certeza: "vamos ganhar este jogo". Respondemos com a virada e um passeio, goleando sem riscos (o Brasil venceu por 4 a 1).

L!: O confronto com a Inglaterra até hoje é visto como um dos mais emblemáticos desta Copa. Como foi conter o ímpeto dos ingleses e ajudar a garantir a vitória por 1 a 0 do Brasil?

Era uma partida disputada debaixo de sol ao meio-dia em Guadalajara... Eu perdi cinco quilos só neste jogo! Foi tudo muito estudado, acirrado. O único jogo não qual não tivemos tantas chances. Mas nossa condição física foi o fiel da balança. Na reta final, enquanto eles estavam esgotados, eu fui lá para frente e tentei uma investida. Ao vencermos uma seleção tão boa, campeã do mundo, percebemos que a gente podia ir mais longe na Copa.

L!: Você atuou de maneira diferente contra a Romênia. Como foi esta partida?

Bem, jogamos desfalcados contra a Romênia (Gerson e Rivellino não atuaram). Aquela foi a única vez na Copa na qual joguei na meia-direita e o Piazza atuou do meu lado (Fontana formou a dupla de zaga com Brito). Mesmo assim, o jogo estava tranquilo. Só tivemos um susto com o gol no final, que foi uma jogada esquisita, na qual a bola desviou nas costas de um jogador nosso e sobrou para eles marcarem. Só que não tivemos grandes sustos (o Brasil venceu por 3 a 2).


L!: No duelo com os peruanos, houve uma preocupação a mais com o fato dos peruanos serem comandados pelo Didi?

Não só por isto. Eles tinham muita força ofensiva, o Cubillas estava em uma grande fase e exigia atenção nossa. O nosso poder ofensivo era um trunfo para a gente, mas, mesmo sabendo que éramos superiores, o alívio foi quando saiu quando fizemos o quarto gol (da vitória por 4 a 2 sobre o Peru).

L!: Seu único gol na Copa saiu justamente para igualar a semifinal, diante de um Uruguai bem aguerrido. Como foi se tornar o símbolo de alívio da naquele momento do jogo?

Era nossa chance de ir para a final, ou matávamos ou morríamos. Tínhamos sofrido o gol (de Cubilla) em uma jogada confusa e aí a nossa Seleção começou a reagir, mas o gol não saía. Numa hora, o Carlinhos (Carlos Alberto Torres) e o Gerson chegaram para mim e disseram: "sai um pouco mais para o jogo". Tentei uma jogada, fiz a tabela e enchi o pé. Foi engraçado que na época os uruguaios reclamaram que o tempo tinha acabado antes de eu chutar para empatar. Mas eu vi a reprise agora (no SporTV) e o gol foi exatamente aos 45 (risos). Já no segundo tempo, sobramos fisicamente. Fizemos três, mas tivemos chance de fazer cinco, seis. Foi uma grande partida nossa. Inclusive, eu apareci pelos flancos com frequência, acho que ajudei muito.

L!: Em seguida, veio a esperada decisão. Onde você acha que o Brasil conseguiu se impor, ainda mais com uma goleada sobre a Itália?

Foi um jogo no qual o Félix não correu muitos sustos. A Itália vinha de um desgaste muito grande na semifinal contra a Alemanha (na época, Alemanha Ocidental), com vitória na prorrogação (após empate em 1 a 1 no tempo normal, a eletrizante semifinal terminou com vitória por 4 a 3 dos italianos). E nós tínhamos tanto fôlego quanto qualidade.


L!: Foi você que acabou tendo um susto nesta partida (risos). Ao tentar uma jogada de calcanhar, engatou contra-ataque que culminou no gol do empate da Itália. O que aconteceu naquela jogada?

Pois é... (risos). A bola veio para mim no limite. Quando fui fazer o passe, ela quicou. A única maneira que encontrei foi tentar uma jogada de calcanhar. Depois, vieram, me pediram desculpas. Mas mantive minha tranquilidade, continuei a proteger as jogadas da mesma forma. Em termos táticos, fiz uma partida muito boa contra a Itália.

L!: E no fim você teve um momento consagrador, ao iniciar de maneira magistral a jogada do último gol brasileiro na decisão. Como foi passar por tantos italianos de uma vez só?

Naquela hora, com o Brasil vencendo por 3 a 1, a Itália partiu para a frente. Recebi a bola e, com um drible, eu desmontei uma formação com quatro ou cinco italianos e ficou um clarão. Quando vi, tinha um espaço na lateral para seguir a jogada. Foi questão de tempo. A jogada de pé em pé até chegar no Tostão, Jairzinho e, finalmente, o Pelé servir o Carlinhos (Carlos Alberto Torres), que tinha o hábito de vir de trás e arriscar este chute. Ele pegou muito bem na bola.


L!: O que fica de lembrança de ter participado desta geração do tricampeonato mundial?

A gratidão de fazer parte de um grupo maravilhoso. Outro dia, quando passou na TV a vitória do Brasil sobre o Uruguai, o Pelé me ligou e disse: "pô, você foi o melhor em campo, jogou muito". E revendo agora, fiz uma boa partida mesmo. Este carinho e a amizade que seguem até hoje entre nós não têm preço.

NÃO PERCA: nesta sexta-feira, o especial "LANCE! na Copa de 1970" estende o gramado para TOSTÃO. O craque na bola e nas palavras fala sobre os desafios para se firmar como o camisa 9 na luta pelo tri.

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