Silvio Barsetti convenceu Ricaro Teixeira a dar uma entrevista ao Terra em meio à acusações de fraude financeira; relembre
Jornalista, que morreu nesta terça-feira, 13, tirou declarações do ex-dirigente da CBF em reportagem marcante
Em meio às acusações de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, falsidade ideológica e falsificação de documento, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Ricardo Teixeira foi convencido por Silvio Barsetti a dar sua versão dos fatos. Há pouco mais de uma década, a conversa era publicada no Terra.
Pouco aberto à imprensa, Teixeira esteve no centro de polêmicas que envolviam a escolha do Catar como sede da Copa do Mundo do Catar, que aconteceria apenas sete anos depois da entrevista com Barsetti.
O jornalista, que morreu aos 61 anos nesta terça-feira, 13, foi repórter do Estadão entre 1995 e 2015 e colunista no Terra de 2016 a 2023. Barsetti deixa um legado de grandes apurações e entrevistas marcantes, como a que conseguiu com o ex-dirigente da CBF.
Ricardo Teixeira era suspeito de ter recebido dinheiro para votar no Catar como sede do Mundial durante o congresso da Fifa, em 2010. Em 2015, quando conversou com Barsetti, o dirigente estava há três anos fora da CBF e topou falar com o jornalista por 20 minutos para tratar apenas do “caso Catar”, chamado de “estapafúrdio” pelo dirigente durante a conversa com Silvio Barsetti.
Entre as perguntas que Barsetti fez à Teixeira, estavam questionamentos sobre seu voto no Catar como sede da Copa de 2022, o jogo do Brasil contra a Argentina disputado em Doha, em 2010, e uma reunião com o emir catari, que aconteceu em um restaurante na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista de Silvio Barsetti com Ricardo Teixeira
BARSETTI - Acusações de suborno: na segunda-feira, 15/6, a revista americana World Soccer trouxe reportagem em que acusa Teixeira de ter recebido 30 milhões de euros (cerca de R$ 105 milhões) para selar o acordo com os catarianos. Na edição de terça, a Folha de S. Paulo publicou que Teixeira e outros dirigentes sul-americanos receberam um relógio de ouro do emir Hamad bin Khalifa Al Thani durante o processo de candidatura do país árabe à sede da Copa de 2022
Ricardo Teixeira - Não recebi nada, rigorosamente nada disso. Esse negócio do Catar é completamente estapafúrdio. Como presidente da CBF, e membro do comitê executivo da Confederação Sul-Americana e da Fifa, recebi a visita de todas as candidaturas, tanto para o Mundial de 2018 quanto para o de 2022. Recebi Bélgica e Holanda, uma candidatura conjunta. Recebi a Rússia. Recebi a Espanha. Recebi os EUA. E também recebi o (então) emir do Catar. Ele veio ao Brasil porque tinha um encontro oficial com o presidente Lula. Fui anfitrião de todos.
BARSETTI - Reunião com o emir
Ricardo Teixeira - Fomos ao restaurante do Itanhangá (Itanhangá Golf Club, na zona oeste do Rio). No restaurante cheio de gente, de sócios do clube, cheio de policiais federais, que estavam lá tomando conta dele, cheio de funcionários, os garçons do restaurante, tinha imprensa também. Como é que deu relógio? O Emir não me deu relógio, não me deu picolé, não me deu nada. Nem ali nem fora do clube. Isso é absolutamente ridículo.
BARSETTI - O porquê do voto no Catar
Ricardo Teixeira - As pessoas dizem que eu votei no Catar, que a CBF votou no Catar. Por que eu? Não é bem assim. É mais claro dizer que a América do Sul votou no Catar (para 2022). É preciso contextualizar isso. Voltemos para a escolha da sede de 2018. Você tem alguma dúvida de quem os países da América do Sul apoiariam (para o Mundial de 2018)? Claro que seria o Villar (Angel Maria, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol). Argentina e Paraguai (que integravam o comitê executivo da Fifa) estavam fechados com a Espanha. Quem estava coligado na candidatura da Espanha? Não era Portugal? Sim, eles pleiteavam uma Copa compartilhada. Então, com Portugal na disputa, lógico que o voto do Brasil (também do comitê executivo da Fifa) seria para eles. Aí que entra a questão. A Espanha precisava de votos. Tinha os três da América do Sul, o dela e possivelmente mais um da Europa. Mas era muito pouco. Então fizemos uma reunião. Eu, Villar e o Grondona (Julio, então presidente da federação de futebol da Argentina, morreu em 2014), reunião em que conseguimos mais alguns votos da Ásia, graças ao Catar. E qual foi o acordo? O Catar votaria conosco (com a candidatura Espanha/Portugal) para 2018 e em troca receberia nosso apoio em 2022. Foi esse o acordo. Foi somente esse o acordo. E o que se viu? A Espanha conseguiu chegar à última rodada de votação, mas perdeu para a Rússia. A história não difere um milímetro disso aí.
BARSETTI - Jogo Brasil x Argentina, no Catar, em 17/11/2010 - O jornal O Estado de S. Paulo publicou, no dia 6 de junho, que as autoridades europeias averiguam se o duelo entre Brasil e Argentina, em 2010, foi utilizado como pretexto para o pagamento de propina referente ao processo eleitoral para 2022. Na época, Teixeira era o presidente da CBF.
Ricardo Teixeira - Inventaram um monte de histórias sobre esse jogo do Brasil com a Argentina, no Catar. Mas rezava o contrato em vigor – ‘acho que ainda é assim’ - que a empresa (Kentaro, da Suíça) me pagava uma cota fixa com a seleção jogando no Brasil, na Alemanha, no Catar, onde fosse. Qual o problema? Foi o que ela me pagou para aquele jogo no Catar e entrou também o direito de televisionamento para o Brasil; isso regido em contrato. Eles pagavam tudo, alimentação, hospedagem, transporte. Se o jogo fosse em Buenos Aires, por exemplo, todo deslocamento dos atletas convocados que atuam na Europa seria por conta da empresa. Trazia os jogadores de fora sempre. E a CBF ainda teria os direitos de transmissão para o Brasil. Um jogo amistoso do Brasil rende 3 milhões de dólares líquidos para a CBF (cerca de 9 milhões de reais). É a cota e mais o direito de transmissão.
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