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Secretaria da Segurança cita redução de 43% nas brigas, rejeita mudança e mantém torcida única em SP

Modelo implementado em abril de 2016 continua em vigor, sem qualquer avanço nas conversas para os clássicos receberem torcedores das duas equipes

28 jun 2022 - 15h10
(atualizado às 15h10)
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Corinthians e Santos se enfrentavam em Itaquera, na última quarta-feira, pela Copa do Brasil e, em Itapevi, a 67,7 km, estava para ocorrer mais uma morte entre torcedores do futebol paulista. Assim que o jogo acabou, um rapaz são-paulino, de 20 anos, não resistiu aos ferimentos, após ser espancado por um grupo de corintianos, durante uma briga que envolveu dezenas de torcedores de ambos os clubes na cidade, localizada na região metropolitana de São Paulo.

Foi mais um acontecimento trágico envolvendo torcedores de grandes clubes paulistas, em brigas fora do estádio, mesmo após, em abril de 2016, ter sido implementado o modelo de torcida única nos estádios paulistas. Nele, só é permitida a entrada de torcedores dos clubes mandantes dos clássicos.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, a decisão foi tomada em conjunto pelo Ministério Público, Polícia Militar, Polícia Civil, Juizado do Torcedor, dirigentes de clubes e da Federação Paulista de Futebol, "após episódios de violência protagonizados por integrantes de torcidas organizadas."

Ao Estadão, a Secretaria estadual garantiu que o modelo será mantido e que não há planos para a retomada de jogos com duas torcidas, no caso de clubes grandes e de Guarani e Ponte Preta, incluídos na lista das agremiações em 2018. A decisão contraria o desejo das torcidas organizadas.

"A medida (implementação da torcida única) trouxe resultados efetivos, uma vez que muitas vidas foram poupadas e houve melhora na sensação de segurança na população de maneira geral. Diante destes resultados positivos, a Secretaria de Segurança Pública não estabeleceu tratativas no sentido de retornar duas torcidas em clássicos regionais e não existe perspectiva, nem prazo para que isso aconteça", afirmou o órgão, em nota ao Estadão.

Foram diversos os casos de violência desde a adoção da medida, em locais distantes das partidas. Em 23 de agosto de 2020, por exemplo, dois torcedores do Santos foram mortos em briga com palmeirenses em um posto de combustível no Jardim Zaíra, bairro da cidade de Mauá (SP), após jogo entre as duas equipes na capital paulista.

Em 30 de janeiro de 2021, antes de o Palmeiras enfrentar o Santos pela final da Libertadores, um confronto entre torcedores do Palmeiras e do Corinthians deixou um corintiano morto e outro ferido a tiros, no bairro do Sacomã, zona sul paulistana.

As múltiplas brigas também envolveram torcedores de outros estados, como a ocorrida entre corintianos e torcedores do Goiás, no domingo, dia 19 de junho, antes da partida entre as duas equipes, na Neo Química Arena, e que interditou uma pista da Marginal Tietê, em uma área próxima do estádio.

Não faltou também violência entre torcedores de um mesmo clube, como ocorreu após a final do Mundial de Clubes da Fifa, nos Emirados Árabes, entre Palmeiras e Chelsea. Na ocasião, torcedores que assistiram ao jogo na região do Allianz Parque, bairro da Pompeia, se envolveram em uma série de desentendimentos, que acabou causando uma morte.

A Secretaria, porém, considera que o número de ocorrências diminuiu com a decisão tomada em 2016. "Desde a adoção da medida, tem-se verificado redução de confrontos, redução de emprego de efetivo policial e aumento do público nos estádios", destacou a entidade.

Segundo a Secretaria, no comparativo de 44 clássicos realizados na cidade de São Paulo antes da adoção da medida e 44 partidas após, houve redução de 43% nas ocorrências de confrontos entre torcidas. "Ao se comparar o período de abril de 2018 a dezembro de 2019 com os 12 meses antes da adoção da medida, houve redução de 93% das ocorrências de confronto", acrescenta a nota.

O órgão estadual também ressaltou que, na comparação de 56 partidas antes e 56 partidas após a adoção do modelo, houve aumento de cerca de 29% na presença de público nos estádios, além de uma redução da escolta policial em 48%, de 36% do número de policiais na parte interna dos estádios e de 15% do efetivo na área externa.

MEDIDA INDESEJADA

Para Felipe Tavares Paes Lopes, professor de pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba, a adoção da torcida única é prejudicial ao futebol e não diminui a violência entre os torcedores.

"Não conheço os números da Secretaria nem sei qual metodologia foi utilizada, portanto não posso comentar a respeito. Mas as brigas não só não terminaram como estão longe de terminar com a adoção da torcida única", disse o professor, que integra o Conselho Consultivo da Anatorg (Associação Nacional de Torcidas Organizadas do Brasil). "Participo de grupos de WhatsApp com torcedores organizados e nunca vi um discurso deles a favor da torcida única. Pelo contrário, o que se fala é que a implementação da torcida única é uma medida indesejada", destacou.

Lopes acrescentou que a torcida única também traz outros problemas a serem administrados, como o surgimento do torcedor infiltrado. "Essa situação criou uma nova figura, a do torcedor infiltrado, que vai ao jogo no estádio do adversário, mas sem o uniforme de sua equipe e evitando se manifestar. Criou-se com isso um novo problema, porque muitos deles passaram a ser descobertos, perseguidos e agredidos. Na Argentina, por exemplo, até morte ocorreu neste tipo de situação", observou.

Além disso, a questão educacional também sofre prejuízos, conforme ressaltou Lopes. "O jovem torcedor, principalmente, entra no estádio e vê que o torcedor adversário está impedido de entrar. A mensagem que isso passa é que se trata de um inimigo a ser excluído do jogo e não um adversário que também participa. É algo que fortalece a intolerância", ressaltou, Lopes, manifestando preocupação com a formação das futuras gerações.

O professor também considera que a própria essência do futebol é abalada com a medida. "O futebol é festa, é composto da rivalidade saudável, alegre, em que as torcidas interagem em um mesmo ambiente. A torcida única é muito ruim para o esporte", completou.

Estadão
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