Script = https://s1.trrsf.com/update-1785273314/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Futebol

Publicidade

Por que mulheres rompem mais o LCA do que os homens? Entenda o caso

A temida LCA prejudica a vida de muitas atletas. Neste texto, confira explicações de médicos e aprenda a diferenciar os casos.

28 jul 2026 - 14h07
(atualizado às 14h07)
Compartilhar
Exibir comentários
LCA é cada vez mais recorrente em atletas mulheres.
LCA é cada vez mais recorrente em atletas mulheres.
Foto: Gerada com auxílio de IA / Esporte News Mundo

Mulheres atletas rompem o ligamento cruzado anterior até sete vezes mais do que os homens na mesma modalidade. Por trás de números relacionados a LCA, existe uma combinação de fatores anatômicos, hormonais e estruturais que o esporte feminino ainda está aprendendo a enfrentar.

Imagine acordar, ir para outra cidade competir num torneio pelo qual você vem treinando e competindo nos últimos meses. No meio do caminho, você busca uma amiga que, para além de dividir o campo e a função no time, também está sempre disponível para as horas vagas no extra campo. Vocês chegam no local, se encontram com o resto da equipe, aquecem e se preparam para o jogo, com sua amiga começando como titular e você no banco.

Minutos depois do apito inicial, sua amiga se machuca e não demonstra grande preocupação, mas precisa ser substituída. Assim, você, que faz a mesma função, entra para campo e, no que parecia já estar escrito, sete minutos após substituir a companheira lesionada, um "TEC" em seu joelho mudaria os próximos meses de sua vida. Após análises, é confirmado que tanto você quanto sua amiga romperam o ligamento cruzado anterior, ou, como popularmente conhecido, o LCA.

Esta história aconteceu com Leila Gonzalez, atleta de Flag pelo Londrina Bristlebacks que, em poucos minutos, via sua rotina de treino e cotidiano fora dos gramados intensamente alterado. Entre sessões de fisioterapia, recuperação no pós-operatório e os longos meses até poder voltar à ativa, a atleta tenta reconstruir uma parte de sua carreira interrompida por uma lesão que, de acordo com estudos, tem se tornado cada vez mais comum no esporte feminino.

Casos como o de Leila deixaram de ser episódios isolados entre mulheres atletas, uma vez que, nos últimos anos, o rompimento do LCA passou a fazer parte da realidade de muitas profissionais, consequentemente levantando preocupações não só entre as praticantes, mas, também, entre treinadores e médicos. De acordo com análises do jornal Football Insider, no começo da última temporada europeia (2025/2026), as grandes ligas femininas, como a UK's Women's Super League e a France's Première Ligue, por exemplo, tiveram, num período de 3 meses, um pico de 15 atletas sofrendo lesões de rompimento no ligamento.

A frequência com que esta lesão acontece traz cada vez mais a questão: "por que mulheres rompem mais o LCA do que os homens?".

O que é LCA e como acontece o rompimento?

O joelho é sustentado por quatro grandes ligamentos, e o LCA é um dos mais importantes para quem pratica esporte. Segundo o médico Miguel Fernando, ortopedista especialista em cirurgia do joelho, a função do ligamento é "impedir que a tíbia deslize excessivamente para a frente", funcionando como, o que ele mesmo chama, um "cinto de segurança do joelho". É ele quem garante a estabilidade nos movimentos de mudança de direção, aterrissagem e pivô, gestos básicos para qualquer atleta de qualquer modalidade coletiva. O rompimento acontece quando essa estrutura é submetida a uma carga de rotação que ultrapassa o que ela consegue suportar. Da mesma forma, na maioria das vezes, não é preciso nenhuma pancada violenta para que aconteça esta lesão, uma vez que uma mudança brusca de direção, uma aterrissagem mal feita ou um pivô no momento errado podem fazer com que o ligamento ceda.

"Meu corpo foi para um lado e o joelho foi para o outro", disse Leila Gonzalez, que reconheceu o barulho antes mesmo de processar o que havia acontecido. "Achei que tinha quebrado a perna pelo barulho (…) Quando olhei, vi que a perna estava inteira, e então pensei: 'foi pior, foi o ligamento", ressalta.

A experiência de Paula Assis, que joga futsal e handebol em Goiânia, acrescenta outro dado importante: nem sempre a dor é o primeiro sinal. "Eu rompi e tentei voltar para a quadra, mas caí de novo (…) No dia seguinte, tentei jogar outra vez e aconteceu exatamente a mesma coisa.", explica a atleta. Só depois de uma ressonância magnética que Paula descobriu o que realmente havia acontecido, no caso, uma ruptura total do ligamento. "Não existia mais LCA", afirma. "Eu conseguia correr, conseguia fazer tudo (…) Quase não sentia dor", acrescenta.

A ausência de dor intensa pode ser uma armadilha e, consequentemente, atrasar um diagnóstico que, quanto mais cedo feito, melhores as perspectivas de tratamento e de redução do tempo fora de ação.

O Dr. Miguel Fernando também explica que o LCA raramente rompe sozinho. Os meniscos, que funcionam como amortecedores naturais da articulação, costumam ser atingidos no mesmo mecanismo traumático. "Os meniscos protegem aquilo que é mais importante: a cartilagem", diz ele. "O mecanismo da lesão costuma atingir o ligamento e o menisco ao mesmo tempo." Assim, quando o atleta continua em campo após uma ruptura parcial, como, mais recentemente, no caso de Rodrygo, jogador do Real Madrid, o risco de agravar o dano a essas estruturas vizinhas aumenta consideravelmente.

Por que as mulheres rompem mais que os homens?

De acordo com o médico Bruno Couto, ortopedista com mais de 500 reconstruções de LCA realizadas em Brasília, as mulheres rompem o ligamento de duas a quatro vezes mais do que os homens dentro do mesmo esporte. O Dr. Miguel Fernando vai além: em algumas modalidades, esse risco pode chegar a sete vezes maior. Dados levantados pelo New York Times reforçam o cenário: num período de 15 anos, a taxa de lesões do LCA entre atletas femininas nos liceus americanos aumentou 32%, mais do dobro do crescimento registrado entre os rapazes no mesmo período.

O primeiro fator é estrutural. A mulher tem, em média, uma pelve mais larga do que o homem. Essa diferença anatômica faz com que o joelho feminino tenda naturalmente para dentro, o que os ortopedistas chamam de "joelho valgo". Esse alinhamento cria um ângulo de carga desfavorável que sobrecarrega o ligamento durante movimentos de rotação. Além disso, o espaço por onde o LCA passa dentro da articulação, o intercôndilo, é mais estreito nas mulheres, fazendo com que o ligamento fique mais exposto ao atrito. "A mulher precisa de um trauma muito menor para romper o ligamento", explica Bruno Couto. A isso, acrescenta-se a questão da laxidez ligamentar.

De modo geral, as mulheres têm ligamentos mais frouxos do que os homens, uma característica que gera mais instabilidade articular e aumenta a vulnerabilidade ao rompimento. E há ainda o fator hormonal, onde, ao longo do ciclo menstrual, as oscilações de estrogênio fazem com que os ligamentos retenham mais líquido e fiquem ainda mais frouxos. "Não é a menstruação em si, é todo o ciclo hormonal", esclarece Bruno Couto. A mesma lógica explica por que mulheres grávidas acumulam tanta instabilidade nas articulações, uma vez que o corpo precisa dilatar a bacia para o parto e, assim, os ligamentos cedem para permitir esse processo.

Carlos Dreux, treinador com cerca de 15 anos de experiência no futebol feminino, reconhece essas diferenças no dia a dia do campo. "É nítido que algumas atletas mudam de comportamento durante certas fases do ciclo (…) O rendimento pode cair", analisa. Contudo, Carlos faz questão de ser cauteloso quanto às conclusões. "Eu não acredito que exista um treinamento específico que impeça a lesão (…) As diferenças fisiológicas precisam ser respeitadas, mas ainda faltam comprovações científicas", acrescenta.

Para Carlos, o conhecimento sobre o tema ainda está em construção, e treinadores e médicos deveriam basear suas decisões cada vez mais em evidências, e menos em observações isoladas.

Longos meses de recuperação

Leila Gonzalez retratou como foi o início de sua jornada após romper o ligamento, e afirma ter sido um primeiro mês complicado. "Eu não conseguia tomar banho sozinha, perdi nove quilos, não conseguia contrair o quadríceps", relembra. O relato de Paula Assis é igualmente duro, afirmando que, no primeiro mês, teve muita fibrose e não conseguia esticar o joelho. Paula passou mais de um ano com o ligamento rompido antes de operar, uma decisão que tomou por conta da carreira profissional. "Eu tinha acabado de entrar numa multinacional (…) Não fazia sentido parar a minha carreira naquele momento", explica. O adiamento teve consequências: a fibrose que se desenvolveu no pós-operatório obrigou a uma artroscopia adicional para remover as aderências, aumentando, assim, ainda mais o tempo de recuperação da lesão.

O caminho de volta exige paciência e progressão. Primeiro vem a recuperação da amplitude de movimento, depois o ganho muscular, depois o treino dos gestos específicos do esporte. "O paciente só volta quando recupera força e gesto esportivo", resume Bruno Couto. Voltar antes do tempo não é atalho, é um risco e, por isso, "ninguém recomenda retornar antes de nove meses", diz o Dr. Miguel Fernando. Ainda assim, mesmo após todo esse processo, as chances de uma nova ruptura, seja no mesmo joelho ou no outro, ficam em torno de 30%.

A qualidade da fisioterapia faz diferença significativa nesse percurso, e Leila Gonzalez destaca o papel da sua fisioterapeuta como peça central da recuperação, não apenas do corpo, mas, também, da cabeça. "Ela foi terapeuta (…) Ela sabia exatamente como funciona o flag e que meu objetivo era poder voltar a competir no mais alto nível", explica. "A fisioterapia foi feita para isso, e é inegociável", ressalta.

O "peso" que não aparece na ressonância

Na experiência de Bruno Couto, quando um atleta chega ao consultório com o diagnóstico de ruptura do LCA, a primeira pergunta raramente é sobre a cirurgia, mas, sim, "quanto tempo vou ficar parado?". Para Paula Assis, o afastamento significou perder a principal ferramenta que ela usava para controlar a ansiedade. "O esporte ajudava muito a controlar a minha ansiedade (…) Eu chorava muito e a palavra que definia aquele momento era frustração", explica. "Eu achava que nunca mais ia conseguir jogar", acrescenta.

Ver outras pessoas praticando o esporte enquanto ela estava de fora foi, em suas palavras, uma das partes mais difíceis de todo o processo. Leila Gonzalez, por sua vez, viveu o lado do isolamento social, uma vez que, antes da lesão, treinava praticamente todos os dias entre flag, futsal e academia. Depois da cirurgia, seu mundo encolheu. "Você perde a rotina, perde o dia a dia do time (…) Você vê o grupo marcando viagem e sabe que não vai", explica. De acordo com a atleta, o primeiro mês foi o mais pesado. "Eu achava que meu mundo ia acabar, mas depois eu entendi que simplesmente acontece". Ter a companhia de Giovanna, amiga que rompeu o LCA sete minutos antes, no mesmo jogo, foi determinante. "Seria muito difícil lidar com isso sozinha", ressalta Leila.

Carlos Dreux, que já acompanhou diversas atletas ao longo de quinze anos, confirma que o lado emocional pesa tanto quanto o físico. "Muitos atletas desanimam no meio do processo (…) O acompanhamento psicológico é fundamental", afirma. Na sua avaliação, o abandono do esporte após uma lesão grave raramente acontece na primeira ruptura, uma vez que esta desistência vem na reincidência, ou seja, quando o atleta precisa passar pelo processo todo de novo, tornando, assim, a desistência mais comum. O medo de voltar é real e documentado, e Paula Assis, mesmo com a evolução física do joelho, admite que ainda não se sente pronta. "Se o médico me liberasse hoje para jogar, eu não iria", afirma.

Como prevenir a lesão

Se a anatomia e a fisiologia colocam as mulheres em maior risco, o questionamento é inevitável: "o que pode ser feito antes da lesão acontecer?".

Para Bruno Couto, a resposta é simples na teoria e complexa na prática. "Para prevenir qualquer lesão ortopédica, você precisa de músculo (…) Quem protege a articulação é a musculatura", afirma. A lógica é mecânica: quanto mais forte o músculo ao redor do joelho, menos carga chega ao ligamento. O osso e o ligamento não se pode modificar, mas o músculo, sim. "Primeiro fortalece, depois pratica o esporte", acrescenta.

O Dr. Miguel Fernando cita programas internacionais de prevenção específicos para o futebol feminino, como o FIFA 11+. Baseado em exercícios de fortalecimento do core, quadril e abdutores, além de treino de aterrissagem e equilíbrio, o protocolo foi desenvolvido justamente para reduzir o risco de lesões em atletas mulheres. "O treinamento precisa ser individualizado", explica o médico. A comparação com o treinamento masculino, segundo ele, não é pertinente, porque os corpos não são iguais. "As mulheres precisam priorizar algumas estruturas", esclarece.

A eficácia desse tipo de programa não é recente. No início dos anos 2000, a fisioterapeuta americana Holly SilversGranelli conduziu um experimento com quase 3.000 atletas femininas adolescentes na Califórnia: um protocolo de aquecimento de 20 minutos, realizado três vezes por semana, reduziu o risco de ruptura do LCA em mais de dois terços. O protocolo deu origem ao FIFA 11+, que desde então foi testado em diferentes países e modalidades — de jogadoras de handebol na Noruega a atletas de basquete no Japão — com resultados consistentes: exercícios preventivos reduzem o risco de lesão entre 50 e 80%, segundo levantamento do New York Times. Até o Comitê Olímpico Internacional recomendou formalmente, em 2017, que treinadores de jovens adotassem as diretrizes do FIFA 11+.

Leila Gonzalez, por sua vez, é mais direta quanto ao papel dos clubes. "A academia deveria ser um tópico indiscutível (…) O clube precisa deixar o atleta apto fisicamente", ressalta. Para a atleta, que trabalha diariamente com jornalismo esportivo e conhece a realidade de dentro, a ausência de preparação física estruturada nos clubes amadores e semiprofissionais não é exceção, mas, sim, regra.

O que a ciência ainda não sabe

Apesar dos avanços no entendimento da lesão, há um ponto em que médicos e treinadores concordam com um certo desconforto. A ciência identificou os principais fatores de risco, sejam estes anatômicos, hormonais ou biomecânicos, mas a interação entre eles e o peso de cada um sobre a incidência da lesão ainda é objeto de debate.

Carlos Dreux resume a posição com clareza, ao comentar que "ainda faltam comprovações científicas", e que "precisamos de mais estudos". Por outro lado, Bruno Couto aponta para outro ponto do problema: a tendência de tratar todas as lesões do LCA como se fossem iguais. "Nem toda lesão do LCA é igual (…) O tratamento não pode ser igual para todo mundo, temos que individualizar o paciente", afirma. Cada ruptura carrega consigo o perfil anatômico daquele corpo, o histórico de lesões anteriores, as lesões associadas, como o menisco e o ligamento colateral, e os objetivos de quem se lesionou. "Se você tratar todo mundo igual, a chance de falha aumenta muito", ressalta.

No esporte feminino, essa lacuna tem consequências práticas que vão além dos consultórios. Apesar de toda a evidência acumulada sobre programas preventivos, menos de um terço dos jovens atletas segue qualquer protocolo de redução de risco para o LCA, de acordo com estudos citados pelo New York Times realizados em países como Canadá e Alemanha. O principal obstáculo não é a falta de pesquisa — é a falta de conhecimento sobre ela. Como uma equipe de pesquisadores concluiu: "Um pré-requisito para usar o FIFA 11+ é saber que ele existe." Treinadores voluntários, em sua maioria, desconhecem as estratégias de prevenção. Mas mesmo os treinadores profissionais e remunerados, em grande parte, também não as conhecem.

O acesso a fisioterapia especializada, que conheça a modalidade, o corpo e os objetivos da atleta, também é desigual. Assim, o debate sobre como o ciclo hormonal deve influenciar o planejamento de treinos e competições está longe de gerar consenso entre especialistas.

O que é certo, no momento, é que o problema existe e cresce junto com a participação feminina no esporte. Quanto mais mulheres ocupam os campos, quadras e gramados, mais visível fica a assimetria.

"Eu vou voltar"

Meses depois do Campeonato Paranaense de Flag Football, Leila Gonzalez continua em reabilitação. As sessões de fisioterapia seguem o ritmo que a fisioterapeuta Aline Castilho definiu pensando no flag, focando nos gestos, nas exigências e nos movimentos que Leila vai precisar dominar quando voltar ao campo. O joelho nunca mais passa completamente despercebido, mas o corpo está respondendo.

"Fisicamente, hoje estou melhor do que nunca", afirma. O que ainda é incerto é como será o momento em que ela pisar em campo novamente, uma vez que precisamos considerar diversos fatores como a adrenalina da competição, a pressão do jogo e os mesmos movimentos que um dia fizeram o joelho ceder. "Não sei como vou estar quando pisar no campo novamente (…) Mas nunca passou pela minha cabeça não voltar", expressa Leila. "Eu vou voltar", garantiu.

Paula Assis, em Goiânia, ainda não chegou ao ponto de imaginar esse retorno. O joelho hoje estende normalmente, a fibrose foi tratada e a evolução é real. Contudo, o medo ainda existe. Ela sabe que vai precisar, um dia, dar esse passo, mas, por enquanto, ainda está aprendendo a confiar no próprio corpo.

Marcela Dreux, que nunca passou pela cirurgia, mas já conheceu o medo de lesionar de novo, não pensa em parar. "Hoje eu não me vejo sem futebol (…) Enquanto fizer sentido, eu quero continuar jogando", ressalta. O risco ela conhece, melhor agora do que antes de saber o que os números dizem sobre mulheres e LCA. Mas os benefícios, físicos e emocionais, ainda pesam mais.

Num jogo de flag football em Londrina, duas amigas saíram de campo com a mesma lesão, com sete minutos de diferença. Durante anos, histórias como essa foram tratadas como coincidência. Contudo, os números dizem que momentos como estes nunca se trataram de coincidências, mas, sim, de um padrão que o esporte feminino demorou tempo demais para encarar.

Esporte News Mundo
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra